Um convite para escutar a antropologia chilena e suas alianças

8 de julho de 2026

Como parte dos resultados do seu pós-doutorado na Universidad de Chile, com financiamento da FAPESP, a antropóloga Daniela Manica, pesquisadora da Universidade Estadual de Campinas, publica a série “Mundaréu en Chile” sobre pesquisadoras feministas chilenas. Um trabalho interdisciplinar precioso de divulgação científica, junto de sua supervisora, Maria Sol Anigstein (Universidad de Chile), suas interlocutoras e a equipe do Podcast Mundaréu.

Partindo da comunicação científica como uma abordagem politicamente situada e buscando ampliar a presença pública da Antropologia, o Podcast Mundaréu foi criado em 2019. É produzido no Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e é coordenado pela pesquisadora Daniela Manica. Atualmente, tem se dedicado a amplificar o alcance das pesquisas em antropologia que se conectam com pautas feministas. Nos últimos anos, o projeto produziu três temporadas regulares (quarta, quinta e sexta temporada) com pesquisadoras do norte ao sul do Brasil e duas séries internacionais, uma na Argentina e outra na Colômbia.

Logo do Podcast Mundaréu

Cada episódio é um convite para conhecer uma pesquisadora feminista latino-americana do campo da antropologia da ciência e tecnologia, junto dos desafios e sonhos da sua pesquisa. Por quase uma hora, a ouvinte é transportada pelo som para conhecer a universidade e os processos de investigação da entrevistada. Através dos sotaques, choros e muito riso, a imagem de quem é cientista e o que é ciência é transformada e atualizada. As temporadas e as séries se somam, mapeando e apresentando a agenda feminista do campo.

Dessa vez, o Podcast Mundaréu chega ao Chile, em uma estadia mais longa do que na produção das séries anteriores fora do Brasil. A coordenadora do projeto, a antropóloga Daniela Manica, passou nove meses realizando um pós-doutorado na Universidad de Chile. Supervisionada pela antropóloga María Sol Anigstein (Universidad de Chile) e com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).

Fotografia de Daniela Manica e María Sol Anigstein durante viagem de gravação, em Chiloé

Essa investigação gira em torno das perguntas: “após oito anos do maio feminista, como estão as conquistas feministas no Chile? O que aconteceu com as universidades depois dessa onda de transformação social? Como estão atuando as professoras e as antropólogas a partir de seus lugares de investigação e de uma perspectiva feminista?”

O trailer, lançado na última semana de maio deste ano, dá o tom da série. A sua abertura é com trechos da atuação da coletiva feminista Lastesis de 2019. Uma dança festiva que congrega luta, resistência, celebração e cuidado, assim como tudo que o Mundaréu tem produzido nos últimos anos. Inclusive, no trailer, também traduzimos para o espanhol o significado do nome do podcast. É uma palavra em português que significa algo como um montão, muitas coisas, muita gente, um coletivo. Um grande mundo de possibilidades, de histórias, de contar a partir de nossas próprias vozes, de nossos sotaques, de nossas emoções.

Essa é a primeira série produzida inteiramente em espanhol, em um convite de aproximação também das línguas. Mas com a possibilidade para as ouvintes em português acompanharem a tradução em pdf ou legendas no canal do Youtube do projeto. A trilha sonora é embalada pela música “Diablo Viejo”, da incrível cantora chilena Camila Vaccaro.

O primeiro episódio foi gravado na Universidad Central de Chile, em Santiago. O livro “Cómo destruir la carrera de las científicas sociales: un anti/manual etnográfico feminista desde Chile” estava, então, sendo lançado. A conversa com as autoras e investigadoras da equipe de pesquisa Mujeres y Academia relata os resultados da investigação minuciosa que fizeram. Elas entrevistaram cientistas sociais latinoamericanas para saber como foram suas experiências de formação e inserção laboral.

O nome do episódio é em referência a um artigo publicado pelas entrevistadas, com menção a um ditado popular. Elas nos convidam a refletir que, assim como não esperamos que na casa de ferreiro, o espeto seja de pau, não esperamos que na universidade, a “casa” das antropólogas e cientistas sociais haja desigualdade e violências de gênero e raça. Mas, como preconiza o ditado, infelizmente, mesmo que se investiguem desigualdades sociais, as práticas cotidianas dentro das próprias ciências sociais estão longe de serem simétricas, justas e igualitárias. As pesquisadoras entrevistadas centram sua análise justamente nas dinâmicas de poder que fazem com que as experiências das antropólogas sejam adversas.

Fotografia da equipe que esteve presente durante a gravação do primeiro episódio

Como Menara Guizardi, investigadora responsável pelo Mujeres y Academia, diz na entrevista: “¿Qué feministas somos nosotras si seguimos denunciando violencias y desigualdades que viven las otras mujeres, pero no tenemos coraje de hablar de estas cosas horribles que estamos viendo, que estamos viviendo, que estamos acompañando, no? Entre nuestras estudiantes, nuestras colegas, nosotras mismas. Entonces, el proyecto viene como un imperativo de: no podemos seguir si no hablamos de esto.”

No episódio seguinte, somos levados a Chiloé, um arquipélago situado no Sul do Chile. Rodeados pelos sons da água, conhecemos a pesquisa de María Sol Anigstein. Sol é antropóloga e professora na Universidad de Chile. E nos contextualiza que, desde os anos 1990, a expansão massiva da indústria salmonera transformou profundamente os mares dessas ilhas, gerando contaminações, crescimento de algas nocivas e morte massiva dos peixes, o que afeta diretamente as comunidades pesqueiras locais.

Fotografia da equipe liderada por Sol, em Chiloé

Segundo Sol, os conflitos entre as grandes empresas e os povos originários e pescadores locais seguem sendo uma ferida aberta em Chiloé. Mas o foco do episódio são os cuidados humanos e mais que humanos neste contexto extractivista de um território que luta, com força e memória, para defender seu mar. Escutamos Sol e Anabel Sepúlveda Matus, assistente de investigação do projeto, sobre as socioecologias do cuidado. Como Sol explica no episódio, elas buscam um entendimento do cuidado “como una manera de habitar los espacios o como una relación de reciprocidad y también de interdependencia donde hay muchos actores humanos y no humanos que contribuyen a sostener la vida”.

Em seguida, o Podcast Mundaréu nos convida a permanecer no arquipélago. Conhecemos um pouco da ciência indígena com a líder huilliche mapuche Íngrid Echeverría Huequelef. Ingrid é Werken, ou seja, uma autoridade da Comunidade Lafken Mapu. Escutamos sobre ciência indígena, justiça epistémica e aprendemos sobre a vida das mulheres navegantes de Chiloé. Nesse terceiro episódio, somos lembradas que uma das principais contribuições da antropologia feminista da ciência e tecnologia é a possibilidade de observar os conhecimentos ancestrais de forma simétrica com os da tecnociência contemporanea. Como Íngrid ressalta, um dos grandes potenciais da aliança com a universidade, é uma academia que valida os conhecimentos indígenas frente ao Estado, dizendo “¿Sabes qué? Esa ciencia sí es tan completamente válida como lo que ha lo que han estudiado siempre.”

Fotografia da gravação na praia de Chiloé

Por último, somos convidadas por uma liderança Aymara a caminhar em seu território e ouvir sobre esse solo que guarda segredos de memória e de resistência. Atravessamos o Chile até sua região mais ao norte, a região de Arica e Parinacota. O Podcast Mundaréu nos guia para fora da cidade. Subimos a pré-cordilheira, acompanhadas de Andrea Chamorro, antropóloga e acadêmica no Departamento de Antropologia da Universidade de Tarapacá, e de Doris Aguilera, dirigenta da comunidade de Tablatablane.

Fotografia da gravação do quarto episódio

A  entrevistada Doris conclui o episódio final da série dizendo:  “Yo creo que somos como semillas, que somos como sembradoras de semillas, ¿ya? Entonces, vamos en nuestro caminar dejando semillas.” Ao escutar a série Mundaréu en Chile, fica evidente que, nessa viagem sonora pela antropologia da ciência e tecnologia feminista chilena, muitas sementes foram plantadas, cuidadas e já floresceram pelo caminhar do Podcast Mundaréu. Nos permitindo sonhar e tornar possível uma ciência e uma universidade como queremos: feminista, antirracista e decolonial.

Por Fernanda Mariath