Projeto PAnaM investiga a cobertura das políticas de alimentação na mídia

23 de junho de 2026

Análise inicial da pesquisa mostra que tributação de produtos ultraprocessados e bebidas açucaradas é o principal tema na cobertura midiática de alimentação e nutrição

De que forma circulam informações relacionadas à alimentação e nutrição, quais são as fontes ouvidas pelos jornalistas e como esses temas são transmitidos à sociedade foram algumas das questões discutidas durante mais uma edição do Café COCEN, realizada no dia 22 de junho, na sede da Coordenadoria de Centros e Núcleos Interdisciplinares de Pesquisa (COCEN) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

O encontro recebeu as pesquisadoras Ana Clara Durán, do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Alimentação (Nepa) e Sabine Righetti, do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor), para a apresentação do Projeto PAnaM – Políticas de Alimentação na Mídia. O projeto é financiado pelo Programa Incentivo aos Novos Pesquisadores (PIN-PQ) da Unicamp.

A equipe do PAnaM é formada por pesquisadores e pós-graduandos em saúde pública, jornalismo científico e ciência de dados, numa parceria entre a Unicamp e a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), do Rio de Janeiro. A primeira etapa da pesquisa, que acabou de ser concluída, construiu um grande banco de dados, reunindo quase 67 mil matérias jornalísticas.

“Nós tínhamos esse olhar de que precisávamos pesquisar a cobertura na imprensa sobre políticas alimentares porque o que sai na imprensa pauta o debate público, as opiniões e as políticas públicas. O que sai em artigos de opinião, em reportagens, acaba direcionando o que decidimos sobre um assunto, por exemplo, a alimentação”, diz Righetti.

Dados da pesquisa

O levantamento cobriu dez anos de matérias publicadas em nove veículos de quatro países — Brasil, Chile, Estados Unidos e Gana, em português, inglês e espanhol. O estudo analisa a cobertura jornalística entre 2015 e 2024, começando logo após a publicação do Guia alimentar para a população brasileira, documento do Ministério da Saúde que inaugura a nova classificação de alimentos, entre eles os ultraprocessados.

A escolha dos países seguiu critérios como patamares semelhantes em regulação de alimentos e liberdade de imprensa. Depois, foram escolhidos jornais de circulação nacional, com potencial de influenciar outros veículos e, no caso do Brasil e dos Estados Unidos, jornais com diferentes vieses políticos para comparação, além de um veículo especializado em cobertura de alimentação no Brasil.

Entre as cinco áreas investigadas, estão a taxação de alimentos ultraprocessados e subsídios a alimentos in natura; a regulamentação da rotulagem nutricional de alimentos; as políticas de restrição à publicidade de alimentos; programas de alimentação escolar e a restrição ao uso de agrotóxicos e fertilizantes.

Os resultados preliminares, obtidos do levantamento das matérias do jornal Folha de São Paulo, mostram que mais da metade das notícias analisadas trata da tributação de produtos ultraprocessados e bebidas açucaradas. Em segundo lugar, aparecem temas ligados à merenda escolar e alimentação infantil, especialmente sobre o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE).

Segundo as pesquisadoras, a base de dados deve ser disponibilizada em acesso aberto, para que outras pesquisas possam ser desenvolvidas a partir desse esforço de levantamento. A etapa de análise, que está em fase inicial, vai envolver análises descritivas e de conteúdo, que devem olhar para as editorias e formatos (artigos de opinião, reportagens) em que os temas têm aparecido, além de identificar quais têm sido as principais fontes de informação consultadas.

Durán reforça que essa é uma área de pesquisa recente e por isso é importante que os resultados sejam apresentados em diferentes eventos e posteriormente publicados na forma de artigos científicos. “A ideia é que consigamos aproveitar a nossa diversidade de áreas – ciência de dados, jornalismo científico e saúde pública – para que a possamos estar em diferentes espaços de conhecimento”, completa a pesquisadora do Nepa.

Por Gabriela Andrietta e Mayra Trinca