Aprendizados do jornalismo de verificação na pandemia de COVID-19

8 de junho de 2026

A dissertação “Jornalismo de verificação em contexto de infodemia em ciência e saúde: avaliação exploratória e proposta de boas práticas”, defendida por Camille Bropp Cardoso, foi uma das vencedoras da primeira edição do Prêmio IEL de Teses. A pesquisa foi orientada pela Profª Simone Pallone e faz parte do Programa de Pós-Graduação em Divulgação Científica e Cultural, do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor), vinculado ao Instituto de Estudos da Linguagem (IEL), na Unicamp.  

Cardoso fez uma avaliação panorâmica de três veículos de jornalismo de verificação: Agência Lupa, Fato ou Fake (G1) e Boatos. O intuito era identificar como os jornalistas estavam lidando com o excesso de informações circulantes na pandemia de COVID-19 e quais recursos foram utilizados para investigar e apresentar a checagem desses fatos. “Era um campo de estudos importante de como a desinformação estava atuando em questões de saúde e tratamentos, que foi uma coisa muito séria no país. Mas as reflexões produzidas podem ser consideradas para qualquer área, seja saúde, política, investimentos, cultura“, explica Pallone.  

Resultados

A pesquisa mostrou que as práticas de checagem são heterogêneas e com poucos recursos de engajamento e contextualização dos fatos. “Eu vi também dificuldades em relação a cobertura de ciência e saúde, principalmente na escolha das fontes dentro das áreas de conhecimento”, conta Cardoso. Segundo ela, fontes das ciências humanas, como cientistas políticos, foram menosprezadas quando poderiam ajudar a dar mais contexto e contribuir com análises mais aprofundadas do cenário.  

O corpo de materiais analisados foi composto por 180 conteúdos publicados entre 2020 e 2023. A ideia, segundo a pesquisadora, era acompanhar a evolução da prática no decorrer da pandemia. Ela observou algumas mudanças ao longo do tempo. No início, os materiais focavam em informações mais específicas sobre o coronavírus e a doença em si.  

“Depois, tiveram que começar a falar, por exemplo, que existiam movimentos organizados de desinformação que estavam ligados a metodologias políticas. E que a desinformação tinha um sentido político e financeiro também”, explica Cardoso. O objetivo dessa mudança de enquadramento era tentar proteger as pessoas de desinformações futuras, ajudando a contextualizar como algumas narrativas contribuíam no fortalecimento de outros movimentos, como o antivacinas.   

Outros destaques

Para a pesquisadora, saúde e ciência seguem sendo bons assuntos para checagens e ela lamenta que tenham diminuído de circulação após a pandemia. É muito importante termos conhecimento e fortalecimento de cultura científica e de métodos racionais de tomada de decisão, tanto em nível político quanto individual. Eu acho que precisamos melhorar essas lacunas”, defende Cardoso.  

Ainda assim, a pesquisadora reforça o trabalho heroico dos jornalistas e checadores que sustentaram os projetos. E não deixa de destacar que uma das dificuldades que observou, como a falta de engajamento, é um problema presente no jornalismo como um todo e não exclusividade da checagem de fatos.  

O trabalho foi indicado ao prêmio por Pallone, que reforça: “penso que Camille fez um trabalho de muito fôlego. Fez um levantamento e análise de uma literatura muito ampla, englobando jornalismo, ética, desinformação, infodemia, negacionismo, checagem, audiência. Além disso, ela propôs um manual a ser adotado por jornalistas, escolas, pelo público em geral. São recursos para lidar tanto com a desinformação quanto com a infodemia. Ela produziu um material que pode ser fonte de muitas pesquisas sobre esses temas, considero desde já uma referência mesmo. Por isso indiquei o trabalho dela para o prêmio. E fiquei muito feliz com a premiação, foi realmente merecido”, diz a orientadora.

Menções honrosas

Além da pesquisa de Cardoso, outras duas dissertações defendidas em 2025 receberam menções honrosas do prêmio. Uma delas é a pesquisa Feminista in vitro : situando sexo e gênero na pesquisa biomédica com células-tronco de Fernanda Mariath, orientada pela Profª. Daniela Manica. Neste trabalho, Mariath articula debates sobre gênero e sexo na determinação de células a serem usadas em pesquisas biomédicas. Ela mostra como as escolhas não seguem os mesmos padrões e reforça a importância da inserção da reflexão de forma mais robusta nas pesquisas. O trabalho foi adaptado para uma série homônima para o Podcast Mundaréu, produzido no Labjor 

A segunda pesquisa homenageada foi conduzida por Mariana Vicente Zilli e orientada pela Profª. Greciely Cristina da Costa. “Imprensa alternativa nos anos de chumbo: uma análise discursiva do jornal ChanacomChanainvestiga como o silêncio se expressa num jornal lésbico e feminista publicado durante a Ditadura Militar Brasileira. A pesquisadora discute relações entre censuras e apagamentos enquanto traça o surgimento da imprensa alternativa e sua aliança com movimentos sociais de homossexuais em oposição à ditadura militar 

Por Mayra Trinca