Veículos podem contribuir para aumentar a diversidade de gênero e de áreas do conhecimento
A divulgação científica, seja por meio de veículos jornalísticos, revistas especializadas ou canais digitais, é uma das principais formas de aproximar a ciência da população. Além de informar sobre as descobertas mais recentes, divulgadores e jornalistas devem prezar por uma compreensão mais ampla dos processos e do funcionamento da ciência no país. Entre eles, a relevância da diversidade de áreas de pesquisa e de perfis de cientistas têm sido tema de destaque.
Apesar de avanços significativos na presença de mulheres na ciência nos últimos anos, pesquisas recentes indicam que elas ainda são a minoria entre as entrevistadas em matérias jornalísticas de divulgação científica. Por exemplo, menos 25% das fontes ouvidas pelo Jornal Nacional, da TV Globo, em reportagens de ciência são mulheres, mostra levantamento da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP.
Na Revista Pesquisa Fapesp, veículo especializado em jornalismo científico, elas representaram 32,5% das fontes entrevistadas em todas as edições de 2024. É o que mostra a pesquisa “Revista Pesquisa Fapesp: uma análise das fontes entrevistadas”, publicada na Contemporanea – Revista de Comunicação e Cultura e realizada por Rodrigo Cunha, pesquisador do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
O dado se torna mais surpreendente ao comparar com o fato de que atualmente as mulheres são maioria nas matrículas de cursos superiores e representam 52% das pessoas vinculadas a grupos de pesquisa. Mas há uma série de fatores que ajudam a entender o fenômeno.
Teto de vidro
Germana Barata, também pesquisadora do Labjor, deu uma palestra sobre o tema no ciclo de debates “Diversidade em Foco”, dia 15 de abril, promovido pelo Centro de Pesquisa em Biodiversidade e Mudanças do Clima (CBioClima). Para Barata, parte da explicação tem a ver com a pouca participação de mulheres nos cargos mais elevados de pesquisa. Ela cita, por exemplo, que apenas 17% dos pesquisadores com bolsa de produtividade do nível mais alto do CNPq são mulheres.
“Os jornalistas em geral querem entrevistar o chefe do projeto, o líder do grupo, o diretor do departamento, e normalmente essas pessoas são homens”, explica a pesquisadora. É um efeito conhecido como “teto de vidro”, “uma barreira quase invisível que impede as mulheres de crescer na carreira”, continua.
Nos canais de divulgação científica, a diferença na representatividade pode ser ainda maior. Um levantamento dos canais que fazem parte do grupo Science Vlogs Brasil mostrou que apenas cinco dos 60 programas são produzidos ou integrados por mulheres. “O Youtube reforça a misoginia, os algoritmos trabalham para que haja um público masculino mais presente e conteúdos masculinos são mais impulsionados do que os de mulheres”, diz Barata.
Intersecções
Além disso, há uma influência das áreas de pesquisa que são mais divulgadas. Isso mostra um outro viés da área: “as ciências humanas não estão entre as prioridades da divulgação científica”, diz Cunha. E essa é a área em que as mulheres costumam aparecer mais. No estudo sobre a Revista Pesquisa Fapesp, mulheres foram maioria apenas nas reportagens sob o guarda-chuva das ciências sociais aplicadas. Nas ciências agrárias, representaram apenas 6%, e nas engenharias, 12%, os piores percentuais da pesquisa.
O problema é que as áreas de saúde e ciências da natureza, como biologia ou astronomia, tendem a ter mais destaque nas matérias. “Isso está dentro de uma tradição do jornalismo sobre ciência. São as áreas que começaram. A saúde é pioneira na divulgação e tem um apelo junto ao público. As pessoas querem saber sobre saúde. Então, ela tem mais tradição e aparece mais”, explica Cunha. Ele cita ainda que as ciências biológicas derivam dessa tradição, e que outras áreas, como a astronomia, costumam gerar um fascínio que também aumenta o interesse.
Ambos os pesquisadores ressaltam que esse não é um problema exclusivo de mulheres. Outros grupos minorizados, como cientistas negros e negras, LGBTQIA+ ou pesquisadores de instituições fora do Sudeste, também são menos representados nas reportagens. Mas, segundo Cunha, esse é um problema ainda mais difícil de quantificar, principalmente em reportagens em texto.
Soluções
Segundo Barata, a ONU (Organização das Nações Unidas) estima que, seguindo os padrões atuais, a equidade plena de gênero levaria quase cem anos para ser atingida globalmente. Entre as mudanças necessárias, estão políticas editorais mais inclusivas. Cunha cita como exemplo a revista Ciência Hoje, que possui uma sessão fixa para mulheres na ciência.
Além disso, é necessária uma conscientização de profissionais da comunicação para que realizem uma busca ativa por fontes mais diversas. Barata cita como exemplo o banco de fontes da Agência Bori, que faz um esforço consciente de de promover a equidade de gênero entre especialistas entrevistados. As assessorias de imprensa das instituições de pesquisa também podem ter um papel importante nesse processo, já que são responsáveis pela ponte entre pesquisadores e jornalistas.
Por Mayra Trinca

