Nudecri cria rede social independente para divulgar ciência sem dependência das big techs

20 de março de 2026

Pesquisador do núcleo, Rafael Evangelista acredita que ter uma instância do Mastodon no servidor do Nudecri é um sinal de que a apropriação tecnológica pode ter lugar nos grupos de pesquisa e universidades.

 

Por Damny Laya e Rogério Bordini

Uma iniciativa inovadora do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor), vinculado ao Núcleo de Desenvolvimento da Criatividade (Nudecri), da Unicamp, está permitindo aos pesquisadores divulgarem os resultados de suas pesquisas e comunicar ciência sem depender das regras impostas pelas grandes empresas de tecnologia. Em entrevista, o cientista social Rafael Evangelista, pesquisador e professor do Programa de Pós-graduação em Divulgação Científica e Cultural do Labjor e conselheiro do Comitê Gestor da Internet (CGI), explica que o projeto começou com a implementação de um servidor na rede social descentralizada Mastodon para que pesquisadores, pesquisadoras, jornalistas e os veículos do núcleo tivessem um espaço alternativo para a divulgação da ciência.

Damny Laya: Como você descobriu as redes descentralizadas que hoje se conhecem como parte do Fediverso?

Rafael Evangelista: Já tinha ouvido falar, mas me chamou a atenção quando, como conselheiro do Comitê Gestor da Internet, participei do Eurodig, um Fórum de Governança da Internet Regional Europeu. Foi na Finlândia – curiosamente, terra do Linus Torvalds (engenheiro de software criador do sistema operativo Linux), no contexto da compra do Twitter pelo Elon Musk, que voltei a ouvir falar do Mastodon como alternativa ao Twitter. Os europeus estavam fazendo esse primeiro movimento, já antes da aproximação mais forte do Vale do Silício com o Trump, na segunda eleição (2024). Isso chamou minha atenção, e pensei que esse era um tema para trazer para o CGI, porque considerei que o Ceweb (Centro de Estudos sobre Tecnologias Web), que é uma das gerências do CGI que lida com assuntos de web, deveria estar prestando atenção nisso.

Daí começamos a discutir o Fediverso no âmbito do CGI. Depois, conversando com o departamento de TI do Labjor, veio a ideia sobre a possibilidade de fazer uma instância do Mastodon própria. Porque, a partir desse contato com o Mastodon, eu comecei a pensar na possibilidade sociotécnica das redes federadas e descentralizadas. Quer dizer, qual é de fato a possibilidade de fazer uma transição desse modo de uso de redes sociais, como acontece hoje, para um modo que aponte mais para uma questão que está no cerne da questão do software livre, a ideia de apropriação tecnológica? Como podemos pensar redes sociais federadas e descentralizadas de fato promovendo apropriação tecnológica? Porque quando eu levei esse tema do Mastodon para o pessoal do Ceweb, eles fizeram um estudo, e uma das conclusões foi que as redes federadas por si só não vão mudar o cenário de concentração de redes sociais. Porque a tendência é que a tecnologia em si não seja capaz de produzir essa transformação. A tendência é que grandes instâncias concentrem os usuários, que é o que estamos acompanhando hoje: você tem um Mastodon.social, a instância oficial do Mastodon, que carrega a maioria dos usuários, e as outras instâncias acabam sendo muito pequenas. Aí eu comecei a pensar sobre como poderíamos nos apropriar disso. Como podemos mudar? Foi assim que fui me convencendo do quanto é viável ter pequenos grupos sendo capazes de administrar instâncias. Temos dois modelos opostos. Um é esse de que a tecnologia deixada por si só tende a concentrar os usuários. Então, mesmo você tendo uma tecnologia que permite a federação e a descentralização, os custos envolvidos, a dificuldade de manutenção, e o próprio hábito dos usuários fazem com que a tendência seja uma concentração em grandes instâncias.

E o outro polo oposto é aquele que imagina que cada usuário deve ter uma instância, que parte da superconcentração para uma hiperindividualização, que eu considero igualmente equivocada. Porque você parte de um sistema altamente concentrado, de uma cara corporativa, para um esquema altamente especializado, individualista, que continua dando muito trabalho para um usuário, demandando desse usuário final um tipo de apropriação dessa tecnologia que é absolutamente irreal. Então, como a gente faz para ter um esquema que seja um caminho do meio entre essas duas coisas?

Eu acho que, para que esse caminho do meio seja ocupado, você precisa de uma ação social no sentido de formação de grupos médios, não grandes grupos, nem grupos altamente individualizados, de forma que você tenha cooperativas ou coletivos em que esse usuário final tem uma relação com o corpo técnico que é de fato o responsável pela operação daquele sistema. Com isso você passa a pensar num esquema de apropriação social da tecnologia por grupos sociais.

DL: Quais foram as condições que propiciaram abrir uma instância do Mastodon no Nudecri?

RE: O Nudecri é um núcleo de pesquisa que possui uma estrutura que não existe tipicamente em outras universidades. A maioria das universidades estão estruturadas em institutos que dão cursos de graduação e pós, etc. Nós somos um núcleo de pesquisa que porventura dá cursos de pós-graduação, mas somos essencialmente um núcleo de pesquisa. Esse núcleo de pesquisa por teimosia de algumas pessoas sempre insistiu em manter um conjunto de ferramentas tecnológicas próximas, fomos refratários à ideia de pegar sites jornalísticos próprios e colocá-los em grandes provedores. Sempre gostamos de ter essa estrutura conosco. Devido a isso, temos nosso servidor desde os anos 2000, brigamos para manter isso. Essa briga envolve essa percepção de pesquisadores de que é importante ter controle da tecnologia, de conhecer a tecnologia, de estar próximo dela com a capacidade de experimentar.

Considerando isto, também estivemos muito certos sobre o que nos cabia ter e o que não. Por exemplo, nunca criamos uma hiperestrutura tecnológica, o que temos é pequeno, apenas para resguardar nosso repositório de arquivos, não temos um serviço de e-mail dos pesquisadores, temos algo compatível com a estrutura técnica, de conhecimento técnico, que foi possível manter no laboratório. Temos um funcionário de TI integrado, isso é altamente importante para sustentar esse processo de estarmos perto da tecnologia. Foi por ter essa relação próxima que pude falar com o técnico sobre a possibilidade de experimentarmos.

E aí preciso tirar o chapéu para o André Fernandes, que é o nosso TI, porque, além de tudo, não basta ter um TI, é preciso ter um profissional que esteja interessado em ser parceiro nas experimentações tecnológicas, e ele sempre se mostrou essa pessoa.

Tem outro cruzamento de conjuntura e trajetória de pesquisa, me refiro à terceirização das infraestruturas tecnológicas das universidades para as big techs. Uma questão que acontece há pelo menos dez anos. No Labjor, no Grupo de Informação, Comunicação, Tecnologia e Sociedade, o ICTS, temos brigado contra isso desde 2016, porque estamos envolvidos — também como Lavits, o grupo de pesquisa que trabalha com Vigilância, Tecnologia e Sociedade — estamos acompanhando esse processo para estudá-lo no contexto das pesquisas sobre capitalismo de vigilância, esse modelo de negócios que sustenta as big techs hoje. A partir dessa postura, percebemos que era importante trabalhar as nossas infraestruturas locais como substitutas das que estavam sendo terceirizadas para as big techs. Em que sentido? Temos um repositório de arquivos, uma nuvem que é um repositório remoto de arquivos nossos, não nos rendemos a ferramentas como Google Workspace, etc. Insistimos na importância de que, se vamos utilizar alguma ferramenta de educação, por exemplo, vamos usar o Moodle, que é software livre, que podemos instalar. Se não pudermos instalar no nosso servidor, vai estar no servidor da universidade, e essas duas coisas se juntam.

Pensamos, como é que as universidades podem ser também um lugar para a produção dessa sociabilidade em torno da tecnologia, para a produção da apropriação tecnológica num contexto de resistência à terceirização das infraestruturas tecnológicas para as big techs? Então, ter uma instância do Mastodon no nosso servidor é importante, porque é um sinal de que um desses lugares de apropriação tecnológica podem ser os grupos de pesquisa, isso nos permite pensar um tipo dessa apropriação.

DL: Há diferentes tipos de apropriação da tecnologia?

RE: Claro, porque, vamos supor, se eu tiver um sindicato que se apropria do Fediverso e abre uma instância, ela tem certas características. Se eu faço isso numa escola de educação infantil ou de ensino médio, procurando dar uma rede social para as crianças, e evitar o uso das redes sociais comerciais, preciso de um ambiente protegido, então isso tem certas características.

Para nós da universidade, no Labjor, há outras características, e aí tem um ponto que considero importante. Nós somos um laboratório envolvido com divulgação científica e produção de jornalismo. Como um laboratório que tem várias revistas, podcasts etc. entra no Fediverso? Porque eu vejo que a nossa história é uma história que não é igual, mas é semelhante à história de veículos de comunicação independente que podem se apropriar do Fediverso. Eu vejo o Labjor mais do que uma comunidade de alunos, mas uma comunidade de veículos voltados para a divulgação científica. Tentamos fazer um processo de convencimento dos pesquisadores para que eles se apropriem do Fediverso, mas esse processo foi também para tentar trazer os veículos que esses pesquisadores gerenciam para dentro do Fediverso.

DL: Como tem sido esse processo de adesão dos pesquisadores e dos veículos do Nudecri ao uso do Mastodon? Quais têm sido os desafios?

RE: Por um lado, esta experiência não tem muito tempo, tem seis meses só. O envolvimento dos veículos eu diria que foi nota 6, e o envolvimento dos pesquisadores está nota 4. Porque, por mais que esteja na retórica de vários deles o reconhecimento da importância do Fediverso, o uso cotidiano dessas redes sociais não está acontecendo. Sinceramente, não quero criticar os colegas, mas tem alguma coisa aí que eu acho que temos que estudar, que precisamos pensar. Por enquanto, esse movimento está muito mecânico: você tem um conteúdo, fez uma publicação do podcast, aí entra esse conteúdo no Mastodon. Mas a rede social não é só isso. Se olharmos os veículos de comunicação utilizando rede social, mesmo as redes sociais comerciais, eles não estão só colocando link para as matérias, eles botaram todos os jornalistas para trabalharem (gratuitamente) naquela plataforma, na qual eles constroem uma espécie de branding de si e ajudam a discutir e impulsionar conteúdos.

Dito isto, mais do que o desafio do Fediverso para trazer as pessoas, eu acho que o desafio é trazer conteúdo. Então não é só que o pesquisador “x” tenha o seu perfil lá, é preciso que essa produção, que ele trabalha oferecendo de graça para as redes comerciais, possa ser trabalhada de graça para o público, para uma rede social que é um bem comum, uma rede social que é aberta, descentralizada, federada. Quer dizer, quando você tiver mais conteúdo no Fediverso, as pessoas vão tender a entrar no Fediverso. Acho que as pessoas vão atrás não só das relações sociais nas redes sociais, elas vão atrás dos conteúdos que as relações sociais delas produzem. Nesse contexto em que vivemos, de consumo de informação frenético, não estamos satisfeitos só em ler o jornal, queremos interagir com aquele conteúdo, discutir nas redes. Ler a notícia é só uma parte.

DL: Como você enxerga essa relação das redes descentralizadas com a soberania digital?

RE: Ótimo você me dar a oportunidade de falar isso, porque eu acho que isso até tem relação com uma indignação particular minha. Quando comecei a me envolver mais fortemente com a questão do Mastodon, foi no contexto em que estávamos vivendo a briga das big techs, do X com o Supremo Tribunal Federal (STF). De repente, o governo voltou a falar de soberania, abraçou a ideia de soberania digital porque sentiu a resistência do X em cumprir as ordens do STF. Só que aí, o que o governo federal fez? Ao invés de sair do X e montar uma instância própria em que os tweets, as mensagens do Lula estariam no servidor federal, o governo vai e monta um perfil na instância padrão do Bluesky. Quer dizer, não resolveu nada, saiu do projeto que o Jack Dorsey [empresário e desenvolvedor, cofundador do Twitter] vendeu e foi para o projeto que o Dorsey acabou de abandonar. Ou seja, não mudou nada. Então esse movimento do governo é muito mais simbólico do que efetivo, sendo que o governo tem recursos, tem conhecimento, tem poder para ser um polo atrator para o Fediverso.

É como a questão de compras governamentais, como o governo exerce soberania digital? Também por meio de compras governamentais. Por exemplo, quando o governo Lula lá atrás falou “vamos apoiar o software livre”, não foi só com migração de máquina de desktop, de servidor, mas também dizendo que as compras deviam priorizar software livre, o governo usou seu poder não só simbólico. O mesmo que poderia estar sendo utilizado para atrair as pessoas para o Mastodon, para as redes do Fediverso. Então, acho que a questão da soberania precisa ser pensada do ponto de vista do governo, a partir da sua própria ação, não só colocando um monte de dinheiro para desenvolver uma I.A. brasileira, o que é ótimo, mas botando muito menos dinheiro para ter uma instância gov.br, utilizada só por servidores de alta patente, Lula e ministros. Fazer a comunicação oficial desde a instância. Aquela coisa que eu estava falando antes, o Fediverso precisa de conteúdo. Se eu tenho um monte de gente do Fediverso gastando tempo e energia, tendo que fazer ponte entre o conteúdo que o Lula posta nas redes comerciais para botar no Fediverso, então vira um esforço de soberania pela metade.

Além disso, tem outra questão que o governo fez. Agora ele criou várias categorias de soberania digital. Então soberania digital pode ser qualquer coisa. Ter supervisão sobre o software que você está utilizando para garantir que está num servidor no Brasil, mas esse servidor que está no Brasil, no Serpro [Serviço Federal de Processamento de Dados], por exemplo, é controlado pela big tech, mas os caras do Serpro tem a facilidade de uso, estão próximos ali, mas não estão inspecionando o código. O governo está chamando isso de soberania digital. E aí inventaram outra coisa: o Éden, o paraíso da soberania. Diferenciaram soberania digital de soberania tecnológica. A soberania tecnológica vira um projeto em que tem que escalar o Everest para fazer. Porque pra ela você tem que fazer o chip,  produzir os componentes, essa é soberania tecnológica, a soberania total, que vira um horizonte e dizem que vão buscá-la, só não mostram um plano pra isso. Mas, por agora, “vamos ficar com essa soberania meia boca aqui que só nos deixa um pouquinho mais seguros”.

DL: Nesse sentido, o que você acha que o governo poderia fazer?

RE: O governo poderia estar fazendo muito mais. Por que não há uma linha de financiamento para ter grupos sociais que tenham uma instância própria? Não estou dizendo para sair dando dinheiro já, mas poderia fazer estudo sobre como elaborar um programa de incentivo para que a sociedade se aproprie da tecnologia. Por exemplo, um sindicato pode aplicar por um programa, e ter um apoio técnico oferecido pelo governo, propiciando uma espécie de ambiente de troca. O governo tem um papel de viabilizar a apropriação tecnológica por parte da sociedade, de uma maneira que ela não precisa ser essa soberania que vai de cima para baixo, aquela  soberania do Estado “grande” que é dono de uma rede social. Não é isso, não é ter uma rede social estatal. A rede social continuaria sendo com protocolos livres, abertos, etc., mas o governo participa dessa rede social aberta com o seu poder. Também não é preciso ser aquela coisa que é completamente de baixo para cima, que tem que emergir dos coletivos sem ajuda de ninguém. Eu vejo o governo como uma instância de interlocução da sociedade e de facilitação dos bens públicos digitais. Minha visão de soberania com o Fediverso é a discussão sobre a internet livre e aberta. O Fediverso é só mais uma das novas ferramentas ou das novas tecnologias, ou dos novos projetos da internet livre e aberta.

Rogério Bordini: Considerando que temos essas vantagens do movimento software livre, das ferramentas abertas, por que o governo tem tanta dificuldade, tanta resistência para implementar essas ferramentas?

RE: Ainda que hoje existam, no governo, pessoas que mantêm interlocução com o movimento que, nos anos 2000, teve um papel importante na promoção do software livre no Brasil, não se trata das mesmas pessoas nem da mesma orientação intelectual. Muitos das novas pessoas são colegas meus — digo isso com o maior respeito —, mas a perspectiva do software livre não faz parte de sua visão de mundo. Trata-se de um grupo preocupado em enfrentar o poder das big techs, mas que acredita ser possível simplesmente regulá-las e domesticá-las.

Não é que não se fale em ir além disso. Fala-se, mas, na prática, as ações, a atenção e a energia estão muito mais voltadas para essa estratégia de domesticação do que para um equilíbrio entre regular e construir alternativas capazes de realmente preocupar essas empresas. As big techs se preocupam com a regulação, sem dúvida, mas até certo ponto ela pode inclusive reforçar a institucionalização dessas empresas. O que sempre as incomodou — da mesma forma que o software livre incomodava a Microsoft — é a existência de uma internet livre e aberta.

Hoje, as big techs tendem a olhar para a internet aberta sobretudo como fonte de recursos. Recursos de que tipo? Dados e conhecimento, que são extraídos por meio de raspagem e utilizados em sistemas de inteligência artificial. Elas não a veem como um espaço de circulação verdadeira de conhecimentos entre pessoas, porque preferem que essa troca aconteça exclusivamente dentro de suas próprias plataformas.

Ao mesmo tempo, há foco demais do governo em tomar a regulação europeia como modelo e adaptá-la ao contexto brasileiro. Quando os europeus começaram a falar em soberania digital, eu achei positivo, porque isso facilita o diálogo aqui — não apenas com empresários, mas também entre colegas. Se os europeus estão tentando avançar nessa direção, por que nós não poderíamos fazer o mesmo? Seguimos tão de perto o modelo regulatório europeu que também poderíamos acompanhar suas políticas de soberania digital, é um argumento fácil de vender.

Mas, para além disso, fazer política digital “fora da caixa” é difícil para o próprio aparato estatal. E isso não se explica apenas por comodismo. Ao longo do tempo, formou-se uma estrutura institucional em que, para o Estado, é muito mais simples contratar um serviço de uma big tech do que desenvolver ou manter uma solução própria. A contratação de um grande fornecedor envolve menos esforço administrativo e tende a ser mais facilmente validada pelos órgãos de controle. Desenvolver infraestrutura própria exige muito mais trabalho, capacidade técnica e disposição institucional para assumir riscos.

RB: A partir dessa iniciativa do Nudecri como que outros institutos da Unicamp, por exemplo, poderiam se inspirar em adotar algo semelhante?

RE: A primeira pergunta que um instituto precisa se fazer é: para que quer uma instância própria? No caso do Nudecri, ela está diretamente ligada aos nossos veículos de comunicação. Mas existem várias outras possibilidades. Pode haver, por exemplo, uma instância voltada aos alunos, o que já configura um tipo específico de projeto. Também poderia existir uma instância destinada aos professores — algo que considero bastante relevante. Os docentes poderiam divulgar publicações e interagir academicamente nesse ambiente.

Nesse caso, haveria ainda uma dimensão estratégica: tratar-se-ia de um ativo da universidade sendo utilizado em favor de uma internet livre, e não em benefício de uma internet proprietária, fechada e comercial. Idealmente, isso deveria constituir uma política institucional, conduzida ao nível de pró-reitoria. No entanto, mesmo no âmbito de um instituto específico, iniciativas desse tipo podem surgir. Para isso, é necessário sensibilizar colegas, mobilizar recursos e contar com algum apoio técnico para sustentar a infraestrutura.

Alguns institutos já reconhecem a importância de manter infraestrutura própria e não dependem exclusivamente de serviços das big techs. O Instituto de Computação [da Unicamp] é um bom exemplo: eles não abandonaram seus próprios sistemas de e-mail. Ou seja, nem todos migraram completamente para serviços como o e-mail do Google adotado institucionalmente pela universidade; alguns mantiveram seus servidores.

Não estou dizendo que todos os institutos precisem manter servidores de e-mail próprios — hoje isso pode representar um custo elevado. Mas hospedar uma instância no Fediverso é algo relativamente acessível. Para que isso aconteça, é preciso mobilizar funcionários, envolver a comunidade acadêmica e até contar com pressão dos estudantes para que esse tipo de infraestrutura seja oferecido.

Também é bom evitar a criação de redes sociais fechadas e restritas à própria instituição. Em vez disso, podemos desenvolver ambientes que mantenham porosidade com a internet pública, como o do Fediverso: espaços que ofereçam algum grau de proteção institucional, mas que, ao mesmo tempo, permitam a circulação do conhecimento para além das fronteiras acadêmicas. E tudo isso sem contribuir diretamente para alimentar a lógica de lucro das plataformas proprietárias e comerciais.

 

Damny Laya é Doutor em Política Científica e Tecnológica pela Unicamp, Mestre em Estudos Sociais da Ciência pelo IVIC (Venezuela), e aluno da especialização em Jornalismo Científico do Laboratório de Estudos avançados em Jornalismo (Labjor). Ele pesquisa sobre redes sociais alternativas, soberania digital e governança da internet. Perfil no Mastodon: https://mastodon.nudecri.unicamp.br/@Damny 

Rogério Bordini é doutor em artes visuais (Unicamp) e em interação humano-máquina (Helmut Schmidt University), mestre em educação e graduado em educação musical (UFSCar). Atualmente é pós-doutorando e divulgador científico do Laboratório de Inteligência Artificial da Unicamp, Recod.ai. Ativista digital em prol da privacidade e do software livre e aberto. Perfil no Mastodon: https://ursal.zone/@rgbd