Disciplina do Labjor discute potenciais e limitações das redes sociais federadas

15 de abril de 2026

Pesquisador da Universidade de Salzburgon, na Áustria, participou da aula Tecnologia, Ciência e Cultura 

O curso de Pós-Graduação em Divulgação Científica e Cultural do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) da Unicamp recebeu no dia 9 convidados para discutir as redes federadas e como elas podem ser alternativas para uma internet mais democrática, além de fortalecer a autonomia de diversas instituições. Participaram da disciplina Tecnologia, Ciência e Cultura, ministrada pelos professores por Marta Kanashiro e Diego Vicentin, o professor de Políticas Públicas da Comunicação na Universidade de Salzburgo (Áustria) e diretor do Euromedia Ownership Monitor, Tales Tomaz, e o doutor em Política Científica e Tecnológica e pesquisador sobre o tema Damny Laya. 

Redes federadas são redes sociais alternativas às redes mais populares, gerenciadas por grandes empresas, como o Facebook e o Instagram, da Meta, e o X, do empresário Elon Musk. No chamado Fediverso, as redes são colaborativas e ancoradas em diferentes instâncias, servidores que podem ser mantidos por pessoas físicas ou instituições, como universidades e governos. 

Laya explica que elas surgem como alternativa diante do crescimento do discurso de ódio e da redução de moderação das redes, que tornaram o ambiente digital mais polarizado e hostil a determinados grupos. Cita também casos de redução de alcance ou exclusões arbitrárias de contas com ideias políticos contrários aos representados pelas big techs

Para Tomaz, as redes são um reflexo de uma crise política, não apenas comunicacional. “Muitas das coisas que viralizam nas redes sociais ou que ganham muita atenção na grande mídia e que são coisas realmente problemáticas, como fake news, são espalhadas por agentes políticos. Eles usam as redes sociais, usam também se for necessário a mídia de massa, só que nas redes sociais eles têm a possibilidade de dizer mentiras direto para o público, sem a mediação de um jornalista”, afirma o professor da Universidade de Salzburgo. “Essas mentiras partem deles, se eles não fizessem isso, as pessoas em si não ficariam criando isso. Então, eu vejo aí um indício, uma dica assim de como podemos ver que é uma questão política”, explica Tomaz. 

Com a compra do antigo Twitter por Musk, em 2022, houve um grande movimento de saída da rede, tanto de pessoas quanto de instituições. Como consequência, as redes federadas viveram um grande crescimento de usuários em 2023, o que aumentou a visibilidade de plataformas como o Mastodon, mas também expôs algumas fragilidades.

Um dos principais diferenciais entre as redes é a forma como a moderação é feita. Enquanto nas plataformas privadas a curadoria de conteúdo ocorre por meio de algoritmos opacos, sem regras claras, nas redes federadas ela é feita por pessoas da comunidade, quase de forma artesanal. Essa moderação cumpre um papel de filtro, evitando que conteúdo falso ou de ódio seja amplamente divulgado. 

Por outro lado, corre-se o risco de cair em um determinismo tecnológico de que toda descentralização levaria à democratização, o que nem sempre é verdade. Tomaz retoma, para exemplificar, como os protocolos iniciais da internet já visavam uma distribuição descentralizada, mas que, ainda assim, a transformação do ambiente digital levou a uma centralização da informação em alguns poucos sites ou plataformas. 

Outra dificuldade é a retenção dos usuários, já que o aumento rápido de novos cadastros não resultou na manutenção de perfis ativos com o tempo. Para Tomaz, iniciativas de software livres e abertos, como as redes federadas ou o Linux, são resilientes, conseguem perdurar por muitos anos, mas tem uma grande dificuldade de massificação. 

Problemas de escala 

Tomaz participou de um estudo que analisou as práticas de moderação em diferentes instâncias do Mastodon. A pesquisa mostrou que o aumento no número de usuários após a compra do Twitter por Musk gerou uma sobrecarga de moderação em instâncias maiores. 

Diferentemente das redes tradicionais, as redes descentralizadas não utilizam ferramentas de inteligência artificial para auxiliar no controle das postagens e as pessoas responsáveis por isso tiveram dificuldades de gerenciar a nova demanda. Em alguns casos, a moderação chegou a ser suspensa e novas solicitações de entrada na instância, negadas. 

Esse é um exemplo da dificuldade do aumento de escala dessas redes e uma das barreiras no uso dessas plataformas no enfrentamento do monopólio das big techs. Hoje, o conjunto de redes do Fediverso contém cerca de 1,13 milhão de usuários, o que equivale a 0,3% dos perfis no X.

Para Marta Kanashiro, professora da disciplina Tecnologia, Ciência e Cultura e pesquisadora do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor), há uma possibilidade para lidar com essa questão: multiplicar os servidores, criando uma grande rede de pequenas instâncias. É a ideia por trás da criação de uma instância no Mastodon para o Núcleo de Desenvolvimento da Criatividade (Nudecri), da Unicamp, por exemplo. 

Os pesquisadores concordam que, para que as redes descentralizadas tornem-se de fato uma alternativa ao cenário atual, é necessário um grande investimento financeiro. Tomaz lembra que toda comunicação em escala é cara, o que gera a necessidade de massificação. 

“É o que levou à organização do Estado moderno da forma como ele é, para poder permitir essa exploração e a formação de meios de comunicação que sustentassem, primeiro, a transmissão de informações entre colônia e metrópole, e a partir disso também a comunicação com todas as pessoas. É uma comunicação que corresponde à acumulação capitalista”, continua. 

Entretando, para o pesquisador, desmassificação não é uma solução possível, já que o sistema instaurado dificilmente irá se modificar. “Nós vamos precisar tomar esse sistema e transformar numa massificação democratizante que reflita pluralidade da sociedade e assim por diante”, defende Tomaz.