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Artigo
A cidade de riscos e a fragmentação urbana: os desafios para a gestão no século XXI [1]
Ricardo Ojima
Entre 1970 e 1990, a região de
Los Angeles teve um aumento de
45% em sua população, entretanto,
as áreas urbanas cresceram 300%
(MEADOWS, D.H., 1999).

Viver na cidade é desafiar inúmeros riscos cotidianamente. Emerge, portanto, uma agorafobia que recorta e fragmenta o espaço, simultaneamente ao declínio gradual do homem público em uma lenta e inexorável retirada dos habitantes do convívio cotidiano. De certa forma, o fator medo aumentou juntamente com a insegurança e a incerteza evidente nos carros fechados, portas trancadas, sistemas de segurança, enfim, a popularização de comunidades "fechadas" e "seguras" em todas camadas sociais (BAUMAN, 1999).

Em grande parte, por conta do avanço das tecnologias de transporte - mais rápidos e fluídos - as aglomerações urbanas contemporâneas se permitem dispersar sobre extensões de território cada vez maiores e a periferia, reservada apenas para as camadas sociais mais populares, hoje passa a se configurar como refúgio dos mal-estares da cidade. Assim, a urbanização se pulveriza em todas as direções e materializa no espaço urbano os sinais da fuga. O risco (ou a fuga deles) se torna, portanto, a lógica perversa de reorganização do espaço urbano contemporâneo, trazendo à tona novos desafios e expondo novas vulnerabilidades (MELLO, L. et al, 2004). Não se trata apenas de uma nova forma de habitação com inspirações em antigas formas de viver. Trata-se de todo um conjunto de novas significações e representações sociais que criam um estilo de vida urbano e que é disseminado para toda a sociedade; ou seja, o status não é mais uma condição geográfica, mas uma condição estrutural da forma de habitação e o modo de vida que ela inspira.

No Brasil, a discussão sobre essa expansão urbana emerge, sobretudo, no final da década de 1970. A crítica ao chamado “modelo brasileiro” é uma marca característica das pesquisas que surgem nesse período e se, por um lado, procuram demonstrar as relações entre as características particulares da metropolização e a reprodução do capital na economia brasileira, por outro, procuram evidenciar uma dinâmica social que reproduz e acentua as desigualdades sociais (RIBEIRO e LAGO, 1994). Surge, então, o modelo “periférico” caracterizado pela segregação social das camadas populares de mais baixa renda e suas características contextuais de habitação associadas às regiões mais distantes e desvalorizadas da cidade. O termo “periferização”, portanto, passa a ser entendido como um paradigma teórico que abre mão da descrição física e trata da segregação das camadas sociais de baixa renda aos espaços periféricos da economia urbana.

Recentemente, embora não seja consenso, este modelo centro-periferia socialmente segregado e homogêneo apresenta sinais de mudanças significativas. Segundo Caldeira (2000), o surgimento de condomínios e loteamentos faz parte de um novo padrão de segregação espacial e desigualdade social na cidade, substituindo aos poucos o padrão dicotômico centro-periferia (rico-pobre) pelo modelo inspirado nos new towns e edge cities norte-americanos onde as camadas de alta e média renda buscam refúgio. Mas, contraditoriamente, a fuga da “cidade de riscos” produz outros riscos que potencializam as vulnerabilidades sociais.

As pesquisas sobre a expansão das cidades norte-americanas indicam que este american way of life é o responsável pela mudança na forma que a cidade se organiza espacialmente. Assim, as cidades passariam a se expandir em ocupações de baixa densidade populacional e residencial, fragmentadas, dispersas e descontínuas, trazendo consigo diversos efeitos negativos:

  • maiores distâncias para a cobertura dos serviços públicos (segurança, educação, saúde, etc.);
  • agravamento dos conflitos sociais pelo processo de heterogeneização socioespacial, ou seja, a diluição da dicotomia centro-periferia;
  • maior consumo de recursos naturais (água, energia elétrica e combustíveis fósseis);
  • aumento da poluição atmosférica; congestionamentos e maior consumo do tempo médio das viagens diárias;
  • maior incidência de alguns problemas de saúde e causas de óbito (obesidade, acidentes de trânsito, problemas respiratórios, neoplasias, etc.).

Surgem, assim, as cidades-região, alterando a imagem da megacidade que cresce como uma enorme ameba, fagocitando os municípios vizinhos e incorporando-os ao seu tecido urbano. Hoje, o espaço urbano das grandes cidades contemporâneas se fragmenta acompanhando as desconexões espaço-tempo que permeiam a vida cotidiana, separando os contextos espaciais de trabalho, consumo, residência, estudo e lazer. Ou seja, mudando a lógica do consumo do solo urbano para uma racionalidade de fuga dos riscos, passamos a observar muito mais que uma megacidade, mas uma metrópole fragmentada e polinucleada em que a conurbação é apenas a ponta do iceberg.

Essa separação entre os espaços de ação na vida cotidiana da cidade pode ser notada através de algumas evidências:

  • Difusão generalizada dos condomínios e loteamentos fechados para as camadas sociais médias e altas, sempre localizados junto às vias de acesso mais importantes da região e, quase que regularmente, nas regiões mais afastadas dos centros urbanos;
  • Apropriação desses produtos como representantes da melhor qualidade de vida (localização afastada dos centros garantiria maior acesso a áreas verdes e não degradadas) e, sobretudo, a segurança de viver junto aos seus “semelhantes” contando com sistemas e equipes de segurança altamente sofisticados;
  • Difusão das chamadas “cidades-dormitório”, pela maior fluidez dos sistemas de transporte, muitas pessoas passam a fixar residência em centros urbanos das cidades vizinhas e próximas do centro urbano polarizador, onde exercem suas principais atividades cotidianas (trabalho, estudo, compras, etc.);
  • Ampliação do atendimento de serviços e comércio também nessas “cidades-dormitório” para atender as demandas imediatas desse crescimento urbano;
  • Difusão da infra-estrutura de serviços nas vias de acesso principais. Ou seja, os principais centros de consumo e de serviços, procuram as localizações mais “acessíveis”, como por exemplo: hipermercados, shopping centers, centros empresariais, hotéis de negócios;
  • Alta dependência de transporte para as atividades diárias, sobretudo, o transporte individual.

A Região Metropolitana de Campinas (RMC), é um dos principais exemplos desse tipo de reestruturação nas aglomerações urbanas. Criada no ano de 2000, a última das Regiões Metropolitanas oficializadas no estado de São Paulo, apresenta praticamente todas essas evidências e muitas outras ainda a serem investigadas com mais profundidade. É o objetivo do projeto “Dinâmica intrametropolitana e vulnerabilidade nas metrópoles do interior paulista: Campinas e Santos” que vem sendo realizado pelo Núcleo de Estudos de População (Nepo) e o Núcleo de Economia Social, Urbana e Regional (Nesur), ambos da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp); ou seja, entender como se configuram esses processos de fragmentação e heterogeneização socioespacial nas regiões metropolitanas do interior paulista (Campinas e Santos).

Na RMC, sobretudo, a partir da década de 90, ganham força os condomínios e loteamentos fechados, no início apenas para as camadas de alta renda, hoje passam a se dirigir ao público de classe média, com lotes mais acessíveis e com parcelamentos mais atrativos a esse público; esse processo pode ser observado praticamente em todo o eixo que se estende ao longo do anel viário que compreende a Rodovia D. Pedro I, Bandeirantes e Anhanguera em direção aos municípios vizinhos de Valinhos, Vinhedo, Indaiatuba, Jaguariúna, Paulínia e Sumaré. Seguindo a mesma lógica, surgem os shopping centers, sendo o caso mais evidente os três que se localizam ao longo da Rodovia D. Pedro I, onde se encontram a grande maioria dos cinemas da cidade de Campinas e da RMC.

Mas essas mudanças colocam em contraste algumas situações onde a desigualdade social se torna mais evidente; ou seja, com a ocupação dos espaços antes reservados às camadas populares, aumenta a heterogeneização do espaço e a fragmentação socioespacial passa a ser um novo desafio para as políticas públicas, tanto do ponto de vista do atendimento pelos serviços públicos (escolas, segurança, transporte coletivo, etc.) como do aspecto da ocupação de áreas protegidas (Áreas de Proteção Ambiental).

Dessa forma, o padrão de ocupação fragmentado e disperso passa a ser a lógica generalizada e a qual todas as camadas sociais passam perseguir, pois surge também o fechamento de bolsões residenciais de alta, média e baixa renda, tentando se assimilar a esse novo padrão. Na frenética procura por fugir ou reduzir os riscos, os agentes sociais (indivíduos, associações, instituições) passam a criar outros riscos, muitas vezes mais complexos e menos perceptíveis. Isso ocorre, pois ainda temos no nosso modelo de organização espacial urbana, a cidade monocêntrica, homogênea, densa, verticalizada e com claros recortes espaciais de centro-periferia, mas esse contexto tem mudado rapidamente.

Enfim, dadas as evidências na mudança do padrão de uso e consumo do solo urbano brasileiro, vale ficarmos atentos para que não sejamos pegos de surpresa e que o planejamento urbano seja capaz de antever às novas aspirações de organização espacial urbana. Ou seja, se o Brasil passa por um processo de reorganização da sua rede urbana com características semelhantes a esse padrão norte americano, é preciso colocar na equação as conseqüências inesperadas dessa fuga dos riscos sociais e econômicos; pois, dentro desse contexto de riscos globalizados, “a ‘forma visível’ do local oculta as relações distanciadas que determinam sua natureza” (GIDDENS, 1991).

Ricardo Ojima é sociólogo e doutorando do Programa de Pós-graduação em Demografia, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) e Núcleo de Estudos de População (NEPO), Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Bolsista do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Contato: ojima@unicamp.br.

Notas:

[1] Trabalho desenvolvido no âmbito do projeto "Dinâmica intrametropolitana e vulnerabilidade sócio-demográfica nas metrópoles do interior paulista", junto ao Núcleo de Estudos de População (Nepo) em parceria com o Núcleo de Economia Social, Urbana e Regional (Nesur), ambos da Unicamp, com o financiamento Fapesp e Cnpq.

Para saber mais:

O projeto “Dinâmica intrametropolitana e vulnerabilidade nas metrópoles do interior paulista: Campinas e Santos”. http://www.nepo.unicamp.br

Urban Sprawl

http://www.sierraclub.org/sprawl/
http://www.enviroliteracy.org/article.php/409.html
http://www.smartgrowth.org/

Bibliografia:

BAUMAN, Z. (1999), Globalização: as conseqüências humanas, Jorge Zahar Ed., Rio de Janeiro.

CALDEIRA, T. P. R. (2000), Cidade de muros: crime, segregação e cidadania em São Paulo, Editora34/Edusp, São Paulo.

GALSTER, G., HANSON, R., WOLMAN, H., COLEMAN, S., and FREIHAGE, J. (2000), Wrestling sprawl to the ground: definig and measuring an elusive concept, in Fanie Mae Foundation.

GARREAU, J. (1988), Edge City: Life on the new frontier, Doubleday, Nova York.

GIDDENS, A. (1991), As conseqüências da modernidade, Ed. UNESP, São Paulo.

MEADOWS, D.H. If we don’t like sprawl, why do we go on sprawling. The global citizen, march. .

MELLO, Leonardo F. de; PIRES, Maria C.S.; OJIMA, Ricardo e MARANDOLA JR., E. (2004). "A busca do Lugar: mobilidade e riscos no espaço metropolitano de Campinas". In: Seminário – A Questão Ambiental Urbana: experiências e perspectivas, 1, 2004, Brasília. Anais. Brasília: Núcleo de Estudos Urbanos e Regionais – NEUR, Universidade de Brasília. [CD-ROM]

RIBEIRO, L. C. Q. and LAGO, L. C. (1994), Reestruturação nas grandes cidades brasileiras: o modelo centro/periferia em questão, IPPUR/UFRJ, Rio de Janeiro.

RICHARDSON, H. W. and CHANG-HEE, C. B. (2004), Urban Sprawl in Western Europe and the United States, Ashgate Publishing Limited, England.

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