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Artigo
...e o futuro da metrópole
Luiz Antônio Bolcato Custódio
As cidades do mundo e o futuro da metrópole. Este foi o tema da XVI Trienal de Milão, em 1988. Um assunto instigante por si só. Além dos grandes projetos expostos - passados, presentes e futuros - estavam incluídos também os campos da representação. E além da gráfica, cartográfica e iconográfica, a cinematográfica. Embalada por Fritz Lang, introduzia a novidade prospéctica do caçador de andróides. E o que dava o maior ibope era o edifício da Tyrell Corporation - uma maquete com pouco mais de um metro e meio, toda iluminada por fibras óticas. Ainda não se usavam os recursos da computação gráfica...

Seria esse o futuro da metrópole, como previa Blade Runner para Los Angeles? Quase vinte anos depois, esta pergunta - que atualiza a cada tanto as previsões propostas por 1984 – se recoloca.

Na área da preservação, de certa forma, também. Como seriam, ou como já o são Tóquio, Nova Iorque, São Paulo, Seul, Roma ou Barcelona do século XXI? Na verdade, em qualquer dos casos, um mix daquilo que puderam ser - a cidade real -, do que se propuseram ser – suas propostas, suas respostas, seus sonhos – enfim, uma mistura de culturas mais oportunidades, possibilidades e ou viabilidades de crescimento, de planejamento, realização ou preservação. De planejamento para a preservação. Ou não.

Entrando no âmbito da preservação, uma área que pode ser observada a partir da disseminação de conceitos, a maioria formulada durante o século XX, na Europa. Conceitos que sofreram reveses em duas guerras, onde, em muitos casos, na prática, a teoria aplicada foi bem diferente. Um dos países que desenvolveu, explicitou e exportou conceitos a esse respeito foi a Itália. Um país que por diferentes razões preservou grande parte de seus centros históricos e que hoje são a base de grande parte de seu desenvolvimento.

A legislação italiana de preservação é apoiada em sua Constituição Nacional [2], que prevê, explicitamente, que cabe ao Estado a preservação da paisagem, dos bens históricos e artísticos. Esta visão de território, sob qualquer enfoque, faz uma enorme diferença. A preservação italiana, o Modelo Itália [3], parte da totalidade, do universo como um todo - e não da exceção. A cidade como um patrimônio. Como uma riqueza, um conjunto de bens que se produziu ou recebeu, como herança. De qualquer natureza. E o fato de existirem bens de interesse histórico ou artístico, apenas lhes agrega valor.

Esta visão se contrapõe, na teoria e na prática, à visão da excepcionalidade. Recorrência versus excepcionalidade. Regra versus exceção. Em muitos outros países, dentre os quais se inclui o Brasil, o conceito de patrimônio foi construído ao contrário. A partir da exceção. A partir da seleção. A partir do monumento. E este ponto de vista, atualizado de tanto em tanto, ampliou-se para os conjuntos, para os setores, centros, sítios e até para paisagens, mas sempre – a partir de. No máximo, uma parte. Quase nunca, o todo.

No que se refere ao planejamento urbano, depois do conjunto de projetos que foram produzidos como resposta aos problemas da cidade industrial, da dicotomia campo–cidade, consolidaram-se, no início do século XX, a partir da Carta de Atenas, alguns princípios funcionais e estruturais como a setorização ou o zoneamento de uso exclusivo. Reconhecida como o documento base do urbanismo modernista, passou a ser utilizada como referência em âmbito mundial. As idéias propostas por Le Corbusier para Paris [4], por sorte, não vingaram. Pressupunham a destruição formal de grande parte da capital francesa para a construção de grandes áreas verdes pipocadas por arranha céus e vias expressas. Seria isto uma figura de linguagem?

Aquelas metáforas, que poderiam ser adequadas para novas cidades ou para suas extensões urbanas, passaram a ser utilizadas sobre cidades existentes, institucionalizadas pelo planejamento urbano oficial. Em muitos casos, abandonou-se o antigo modelo de formulação direta - o projeto, o desenho – e assumiu-se uma fórmula indireta de planejar, de controlar o crescimento das cidades por meio de índices e operações matemáticas. Evidentemente isto resultou em enormes perdas de qualidade na arquitetura da cidade. O aleatório enter, resultante de equações básicas envolvendo dimensões de terrenos, taxas e índices (que podiam ser eventualmente ampliados, sob pagamento) passou a determinar a forma urbana das cidades...

E esses modelos espaciais, aplicados em áreas consolidadas e com história peculiar, só se configurariam plenamente se ocorresse a substituição total da mesma, pelos novos padrões de urbanização. É o que denominamos de planos diretores de demolição urbana. E ambiental. A morte anunciada...

Em muitas cidades brasileiras (como por exemplo, em Porto Alegre), esse modelo de planejamento já teve várias edições. A cada atualização, mudam-se as regras, revisam-se os índices - geralmente os ampliam – e formula-se um novo plano – uma nova cidade virtual sobre uma cidade real. A cidade é oferecida, quase inteira, como um terreno baldio. Numa valoração inversa: mantêm-se as malhas viárias, descartam-se as edificações.

Esse modelo de planejamento, não compatível com os pressupostos da gestão contemporânea - que sugerem o uso sustentável de recursos da natureza e do homem e a economia de custos de infra-estrutura - tem sido mais demolidor do que qualquer guerra. As cidades se reconstroem, mais de uma vez, em períodos cada vez mais curtos. E o resultado visível - absolutamente heterogêneo e imprevisível em seu conjunto - é um pipocar de proeminências descontextualizadas que correspondem à lógica das diferentes equações propostas pelos diferentes planos, que se sucedem sem atingir aos modelos espaciais propostos, e são substituídos... De planos que geralmente não resistem a uma avaliação das demandas decorrentes do crescimento demográfico ou o tamanho real do mercado, que pode ser atendido, sem criar grandes conflitos de interesse.

Sob esse ponto de vista, pode se dizer que o conceito tradicional de preservação, mesmo que defasado - porque ainda com uma visão seletiva do território – está, em muitos casos, à frente da prática que é utilizada no planejamento urbano de muitas das nossas cidades.

Um contraponto nesta discussão, para não recorrer a um modelo europeu, pode ser o caso de Nova Iorque. Uma metrópole que não foi acometida por guerras, que já se transformou enormemente, mas onde foram preservadas grandes extensões territoriais – setenta e nove áreas - de diferentes dimensões, algumas enormes – incluindo mil e duzentos bens protegidos individualmente. Para uma das principais representações do modelo capitalista mundial, isto pode causar estranhamento. Não temos exemplos desta magnitude.

O planejamento estratégico daquela cidade definiu suas áreas protegidas - de interesse cultural5 - onde a pré-existência participa da relação e sua substituição, em qualquer caso, protegido ou não, se dá pela análise da espacialidade do projeto e sua relação com seu contexto. A arquitetura da cidade avaliada pela Arquitetura.

E o futuro da metrópole? Acredito que ainda estamos longe de uma prática urbana que contemple a paisagem, o âmbito territorial. Que considere a pré-existência, na linha do construir no construído [6]. De descermos para a cidade existente, na escala do cidadão e resolvermos costurar a sua continuidade, sem metáforas. Em tempos de Google Earth, isto fica cada vez mais distante. E mais abstrato. A cidade real pode assustar o planejamento contemporâneo como em Blade Runner. Mas é ali que está a vida. Como ela é.

Luiz Antônio Bolcato Custódio é arquiteto do Iphan, ex -diretor regional, professor universitário e mestre em Planejamento Urbano e Regional.

Notas:

[1] Costituzione Italiana, Art. 9: “La Repubblica tutela il paesagio e il patrimônio storico e artistico della Nazione.”

[2] SERTI, Salvatore. Itália S.p.A. Einaudi, Torino, 2002.

[3] Plan Voisin - Projeto de urbanização proposto por Le Corbusier para Paris, em 1925.

[4] Ver Guide to New York City Landmarks .National Trust for Historic Preservation, Washington, DC, U. S. A. 1992.

[5] GRACIA, Francisco de. Construir en lo construído. Madrid: NEREA, 1992.

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