Dossiês Entrevistas Resenhas Notícias Memória Fototeca Agenda Quem somos Fale conosco
Frevo de hoje destaca-se pela improvisação
Museu preserva acervos de grandes nomes da literatura nacional
Uma câmera na mão e uma idéia na cabeça? Mito do improviso é questionado
22 anos depois, Gilberto Velho reflete sobre tombamento de terreiro
Revista do Patrimônio sobre Museus é lançada no Rio de Janeiro
Frevo nasceu como fenômeno de resistência popular
Página inicial > Notícias
Uma câmera na mão e uma idéia na cabeça? Mito do improviso é questionado
Carolina Cantarino
27/02/2007

Antes de embarcar para Portugal, no início da década de 1970, Glauber Rocha doou, para a Cinemateca Brasileira, um arquivo repleto de cartas, manuscritos, recortes de jornal e outros documentos pessoais. Josette Monzanni descobriu, uma década depois que, dentre esse material, constavam três roteiros, totalmente desconhecidos, do filme Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964). Reunidos com as duas primeiras versões (uma das quais publicada pela editora Civilização Brasileira, em 1965), a série de roteiros foi analisada pela professora do Departamento de Artes e Comunicação da UFSCar, no livro Gênese de Deus e o Diabo na Terra do Sol (Editora Annablume/Fapesp 2006) que, agora em março, será lançado em Portugal.

Ao analisar o processo de preparação desses roteiros, o livro de Monzani questiona o mito do improviso e da intuição suscitado pela máxima conhecida do diretor - “uma câmera na mão e uma idéia na cabeça”. “Glauber trabalhou nesses roteiros entre 1959 e 1963, preocupado com a criação de uma estética cinematográfica e de uma mensagem política que fossem verdadeiramente revolucionárias”, afirma Monzani, ao lembrar que os roteiros refletem um processo minucioso de planejamento do filme pelo cineasta, que realizou várias viagens pelo sertão nordestino e fez pesquisas rigorosas sobre o cangaço. “Durante o período em que trabalhava nesses roteiros, Glauber dirigiu seus dois primeiros filmes - O Pátio e Barravento. Essas experiências cinematográficas resultaram numa melhoria técnica dos roteiros de Deus e o Diabo”, explica a pesquisadora.

Através dos roteiros foi possível também acompanhar a construção de cada personagem do filme. Foi assim que Antônio das Mortes, de simples tenente, foi se transformando na figura emblemática do jagunço matador. Monzani também ressalta a importância dada pelo diretor às figuras femininas em todas as versões de Deus e o Diabo. Essa valorização seria pouco explorada pelos pesquisadores da obra de Glauber Rocha, que se detêm sempre no tratamento dado pelo diretor aos papéis masculinos.

Gênese de Deus e o Diabo na Terra do Sol é fruto da dissertação de mestrado de Monzani defendida, em 1992, na PUC-SP, sob orientação de Arlindo Machado e Haroldo de Campos. Monzani optou pela abordagem da crítica genética. A pesquisadora ressalta que, diferentemente, da literatura (mais comumente abordada por essa área de estudos), a linguagem cinematográfica exige, do pesquisador, a consideração de elementos como a construção de planos-seqüência e a montagem do filme previstos, como no caso de Glauber Rocha, ainda no roteiro. “Por isso, mantive a parte metodológica da dissertação bastante explícita no livro: para que ele também seja utilizado como um manual por aqueles que quiserem trabalhar na área de crítica genética de roteiros cinematográficos”, explica a autora.

Imprimir esta matéria Enviar por e-mail