Dossiês Entrevistas Resenhas Notícias Memória Fototeca Agenda Quem somos Fale conosco
Frevo de hoje destaca-se pela improvisação
Museu preserva acervos de grandes nomes da literatura nacional
Uma câmera na mão e uma idéia na cabeça? Mito do improviso é questionado
22 anos depois, Gilberto Velho reflete sobre tombamento de terreiro
Revista do Patrimônio sobre Museus é lançada no Rio de Janeiro
Frevo nasceu como fenômeno de resistência popular
Página inicial > Notícias
22 anos depois, Gilberto Velho reflete sobre tombamento de terreiro
Rafael Evangelista
25/02/2007

Gilberto Velho é um dos maiores expoentes da antropologia brasileira. Em 1984, recém saído da presidência da Associação Brasileira de Antropologia (ABA) e então chefe do Departamento de Antropologia do Museu Nacional (UFRJ), coube a ele ser o relator do processo de tombamento do terreiro de candomblé Casa Branca, em Salvador, Bahia. "Era a primeira vez que a tradição afro-brasileira obtinha o reconhecimento oficial do Estado Nacional", afirma Velho, no artigo "Patrimônio, negociação e conflito", publicado pela revista Mana: estudos de antropologia social

Há mais de vinte anos atrás a decisão foi polêmica. "Os membros do Conselho da SPHAN [antiga denominação do Iphan] que discordavam dessa posição tinham suas convicções honestas e arraigadas, produto de décadas de práticas voltadas para um outro tipo de política de patrimônio. Argumentou-se também que não era possível tombar uma religião. Quase todos os presentes na reunião de Salvador concordavam que era necessário proteger o terreiro, mas alguns insistiam em não se utilizar a figura do tombamento", afirma o antropólogo no artigo. Ele lembra que, na reunião, sete membros estiveram ausentes e entre eles certamente estavam alguns opositores ao tombamento. O placar final foi apertado: três conselheiros votam a favor do tombamento, um contra, dois se abstiveram e um pediu o adiamento da votação. Coube ao então secretário de cultura do Ministério da Educação, Marcos Vinícios Vilaça, o voto de minerva. O tombamento foi aprovado.

"Rememorar alguns episódios ligados a essa iniciativa pode ajudar a refletir sobre a dinâmica e as transformações do patrimônio cultural", afirma Velho. Ele analisa o episódio como um drama social, usando os termos do antropólogo inglês Victor Turner. "Havia um grupo de atores bem definido com opiniões e mesmo interesses não só diferenciados mas antagônicos em torno de uma temática que se revelava emblemática para a própria discussão da identidade nacional. Independentemente de aspectos técnicos e legais, o que estava em jogo era, de fato, a simbologia associada ao Estado em suas relações com a sociedade civil. Tratava-se de decidir o que poderia ser valorizado e consagrado através da política de tombamento." Estava em discussão a própria identidade da nação brasileira.

No artigo, Velho discute também a polêmica das Áreas de Proteção do Ambiente Cultural (Apacs) no Rio de Janeiro, utilizadas pela prefeitura para proteger certos bairros da "copacabanização", ou seja, de se tornarem, como Copacabana, regiões "descaracterizadas". "É indiscutível que hoje existe uma maior consciência preservacionista, sobretudo em segmentos mais educados (...). Eles têm seus representantes no legislativo e possuem uma relativa capacidade de pressionar o poder público. Este oscila em um jogo de interesses, em seus diversos níveis, entre atender esses valores e essas expectativas preservacionistas e ceder aos interesses e às motivações de empresas e indivíduos que colocam o mercado como referência básica (...)".

Ao concluir, Velho afirma que tombar o terreiro de Casa Branca foi uma decisão correta. "Nem sempre temos essa clareza, mas quando isso é possível devemos nos esforçar para compreender, mesmo a posteriori, a complexidade das situações e dos conflitos", completa.

Imprimir esta matéria Enviar por e-mail