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Reportagem
Uma língua, múltiplos falares
Língua do colonizador, português foi imposto e virou exemplo da unidade nacional. No processo, incorporou mudanças que refletem a história
Patrícia Mariuzzo
No Brasil, convivemos não somente com várias línguas que resistem, como com vários jeitos de falar. Os mais desavisados podem pensar que os mineiros, por exemplo, preferem abandonar algumas palavras no meio do caminho quando perguntam “ôndôtô?” ao invés de “onde eu estou?”. Igualmente famosos são os “s” dos cariocas ou o “oxente” baiano. Esses sotaques ou modos de falar resultam da interação da língua com uma realidade específica, com outras línguas e seus falantes. É dessa interação que surgiram no Brasil as línguas gerais à época da colonização portuguesa ou as línguas criolas na África. Todas as línguas são em si um discurso sobre o indivíduo que fala, elas o identificam. A língua que eu uso para dizer quem eu sou já fala sobre mim, é, portanto, um instrumento de afirmação da identidade. “As línguas são objetos históricos e estão sempre relacionadas inseparavelmente daqueles que as falam. É por isso que são elementos fortes no processo de identificação social dos grupos humanos”, explica Eduardo Guimarães, lingüísta da Universidade Estadual de Campinas.

Desde suas origens, o Brasil tem uma língua dividida em falares diversos. Mesmo antes da chegada dos portugueses o território brasileiro já era multilíngue. Estimativas de especialistas indicam a presença de cerca de 1,2 mil línguas faladas pelos povos indígenas. O português trazido pelo colonizador tampouco era uma língua homogênea, havia variações dependendo da região de Portugal de onde ele vinha. Há de se considerar também que a chegada de falantes de português acontece em diferentes etapas, em momentos históricos específicos. Na cidade de São Paulo, por exemplo, temos primeiramente o encontro linguístico de portugueses com índios e, além dos negros da África, vieram italianos, japoneses, alemães, árabes, todos com suas línguas. “Todo este processo vai produzindo diversidades lingüísticas que caracterizam falares diferentes”, afirma Guimarães. Daí que na mesma São Paulo pode-se encontrar modos de falar distintos como o de Adoniram Barbosa, que eternizou em suas composições o sotaque típico de um filho de imigrantes italianos, ou o chamado erre retroflexo, aquele erre dobrado que, junto com a letra i, resulta naquele jeito de falar “cairne” e “poirta” característico do interior de São Paulo.

Minha pátria é minha língua

Independentemente dessas peculiaridades no uso da língua, o português, no imaginário, une. Na verdade, a construção das identidades nacionais modernas se baseou num imaginário de unidade linguística. É daí que surge o conceito de língua nacional, língua da nação, que pretensamente une a todos sob uma mesma cultura. “O processo de constituição dos Estados-Nação modernos se inicia numa relação com os espaços de enunciação multilíngues e constrói, como um de seus elementos, uma unidade lingüística”, explica Guimarães. Esta unidade se constitui a partir de instrumentos muito particulares como gramáticas e dicionários e de instituições como a escola. “O funcionamento de uma língua enquanto língua nacional se faz pela produção de um imaginário de unidade e de identidade para um povo”, completa.

Conforme sua distribuição entre os falantes as línguas entram em algumas categorias: língua materna é a que se fala no local em que se nasce, a primeira língua; franca é a língua praticada por grupos de falantes de línguas maternas diferentes; língua nacional, como foi dito acima, é a língua de um povo que dá a seus falantes a sensação de pertencer a um povo e finalmente, língua oficial que é a língua do Estado, obrigatória, portanto, nas ações formais deste Estado. Segundo o professor da Unicamp, as duas primeiras tratam de relações do cotidiano e as duas últimas tratam das relações imaginárias, ideológicas e institucionais. O imaginário de unidade da língua oficial e nacional sobrepõe-se à língua materna. Isto é parte do processo político de dominação, que faz com que outras línguas sejam significadas por um caráter de inferioridade. “O falante é tomado por uma divisão política dos lugares sociais como falante de uma língua que não é a língua que o identifica imaginariamente como parte de um povo”, explica o linguísta. No Brasil, hoje, o português é a língua oficial e nacional e também a língua materna da maioria dos brasileiros. Entretanto, nem sempre foi assim.

As línguas gerais

No longa Desmundo, de Alain Fresnot, que se passa por volta de 1570, a jovem órfã portuguesa Oribela é enviada ao Brasil para se casar com um colonizador que aqui vivia. Trata-se entretanto, de uma exceção porque a grande maioria dos colonos que vinham de Portugal para o Brasil eram homens sozinhos que passavam a viver com mulheres indígenas. Segundo Aryon Rodrigues, do Laboratório de Línguas Indígenas da Universidade de Brasília, dessa situação resultou uma população mestiça, cuja língua materna era a língua indígena das mães já que do lado dos pais, em geral, não havia parentes. “As chamadas línguas gerais se desenvolveram no Brasil a partir de línguas indígenas mais ou menos influenciadas pela língua do colonizador e, apesar de não terem sido a língua franca em todo o Brasil, foram a língua materna da população ou de parte da população colonizada por um longo período”, aponta ele. Duas línguas gerais desenvolveram-se no Brasil, a paulista, do contato de portugueses e mulheres tupi em São Paulo, e a amazônica, do contato de pais portugueses e mães tupinambás no Maranhão e no Pará.

Uma língua só desaparece quando as pessoas que a falam são forçadas a adotar outra língua. Em 1757, o Marques de Pombal institui o português como língua oficial no Brasil e proíbe o uso das línguas gerais. “Para os povos indígenas, a situação de contato forçado é caracterizada pela penetração em seus territórios tradicionais de um povo agressivo e melhor equipado militarmente”, explica Rodrigues. Diante da impossibilidade de resistência, o povo dominado busca aprender a língua dos invasores de modo a assegurar um relacionamento positivo com eles. Em geral, são adultos mais jovens do sexo masculino que tomam essa iniciativa e que passam a ser vistos pelos dominadores como pessoas importantes e representativas da sua comunidade, embora não tenham essa posição ou o reconhecimento dos mais velhos.

Segundo o pesquisador, por mais pobre que seja o domínio da língua do colonizador por esses intermediários, todos os membros do grupo vêem que é esse conhecimento lingüístico que é valorizado pelos dominadores, sejam estes funcionários governamentais (como os da Funai) ou missionários (como os católicos e os evangélicos). “Por isso, mais e mais pessoas se interessam em usar a língua dos conquistadores, com conseqüente perda de domínio da língua e da cultura nativas, graves desajustes na comunicação entre as gerações - freqüentemente com interrupção ou diminuição da transmissão de conhecimentos tradicionais, somada a uma limitada percepção dos conhecimentos da cultura do povo dominante”, completa.

Quando os portugueses chegaram ao Brasil havia cerca de 1,2 mil línguas indígenas aqui. Hoje, são 180. Um passo importante para assegurar a permanência do que resta da língua e cultura indígena no país foi a Constituição de 1988, que permitiu a existência de escolas bilíngues para os índios. Até então a educação fundamental antes deveria ser feita, obrigatoriamente, na língua nacional, ou seja, o português. Isto excluía qualquer outra língua. “A situação era drástica. Ignorava-se o índio simplesmente”, conta Rodrigues. Para ele, apesar de haver discrepâncias na qualidade do ensino bilíngüe nas diversas comunidades indígenas espalhadas no país, houve grandes avanços. Um deles, por exemplo, foi concretizado com o primeiro curso bilíngüe de licenciatura para professores indígenas do Alto Solimões ministrado numa das aldeias dos índios tikuna, a maior do Brasil, com cerca de 30 mil índios. “É importante preparar os jovens índios para trabalhar e viver nas suas próprias comunidades, evitando que eles abandonem seu lugar de origem”, acredita Rodrigues.

Mesmo que a tentativa de unificação lingüística tenha se produzido de modo maciço, como aconteceu no Brasil, a diversidade permanece, resultado do trabalho de resistência dos falantes das línguas dominadas. Na Espanha, por exemplo, existem três línguas oficiais regionais: o galego, o catalão e o basco, sendo esta última uma língua cuja história começa antes da chegada do latim à Península Ibérica e que resiste até hoje.

O Canadá também é bilíngüe, com duas línguas oficiais: o inglês e o francês. Ingleses e franceses lutaram entre si no Canadá por quase oitenta anos. Em 1763, um tratado de paz reconhece o domínio britânico no território mas, mesmo derrotada, a população de origem francesa conquistou por lei o direito de preservar sua língua. “A língua é o mais forte elemento de identidade dos grupos humanos, pois, além de ser o instrumento familiar de comunicação desde a primeira infância até a velhice, que consolida as relações sociais entre todos os membros do grupo, é o código único em que estão registrados todos os conhecimentos culturais que asseguram a sobrevivência sadia desse grupo”, afirma Rodrigues.

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