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Reportagem
A (mu)dança das línguas
Subordinação social é acompanhada por subordinação linguística. Empréstimos e incorporação de termos refletem economia e política
Patrícia Mariuzzo
No mundo globalizado, pessoas, governos e empresas trocam idéias, realizam transações financeiras e comerciais e espalham aspectos culturais pelos quatro cantos do planeta. Esse processo de integração, que se apóia fortemente nas tecnologicas de informação, em especial a Internet, praticamente impõe o inglês como língua internacional de comunicação. Embora esse fenômeno seja mais frequentemente associado ao final do século XX, ele não é recente. A novidade, no atual estágio da globalização, é seu nível de abrangência e profundidade. Diante desse contexto é que surge a a idéia de que certas línguas - entre elas o português - tendem a desaparecer frente ao domínio econômico e cultural representado pela língua inglesa. Na contramão desse pensamento, que supõe a generalização da língua ditada por forças econômicas, outros pesquisadores apostam na capacidade de adaptação e resistência das línguas e das culturas nas quais elas estão imersas. A mudança está na essência da construção linguística e, antes de ser um sinal de enfraquecimento, demonstra sua capacidade de permanência.

Em 1492, ano da chegada de Cristóvão Colombo às Américas, o estudioso Elio Antonio de Nebrija organizou a primeira gramática de uma língua moderna, a Gramática Castelhana. Ele apontava a importância da popularização da língua dos conquistadores na construção do império espanhol. Por meio dela, seria possível estabelecer unidade e manter o controle sobre os povos conquistados. Luiz Paulo da Moita Lopes, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, afirma que era essa a inspiração que guiava Nebrija ao presentear a rainha Isabel de Castela com a gramática. “As línguas sempre foram companheiras de impérios”. Línguas francas sempre foram necessárias nas atividades de comércio e na gerência política dos povos. Segundo ele, foi assim também com a língua nahuatl, falada pela tribo mais poderosa do império asteca e que funcionava como língua franca, reinando acima das 80 línguas diferentes. “Esses processos que, em alguns casos, já têm mais de dois mil anos, guardam semelhanças com o papel desempenhado pelo inglês hoje”, acredita Lopes.

Inglês: novo esperanto?

O inglês estaria hoje, para nós, como o latim esteve, no passado, para os povos periféricos à Roma. Prevalecem, nesse domínio, interesses econômicos e políticos. Para Carlos Vogt, da Unicamp, essa é a lógica do processo de globalização da economia e uma de suas consequências culturais: à necessidade de homogeneizar mercados e estabilizar moedas, para a livre circulação do capital financeiro, associa-se a harmonização de comportamentos e padrões culturais de conduta social. “Isso cria as condições objetivas para que as resistências nacionalistas ligadas ao sentimento forte de nacionalidade dêem lugar a um sentimento crescente de fidelidade empresarial sem fronteiras”, analisa o linguista.

“A língua não é neutra e nem está acima das lutas sociais, mas, ao contrário, é perpassada por estas lutas, é expressão delas e toma parte nelas”, diz o sociólogo Nildo Viana, da Universidade Estadual de Goiás (UFG), em artigo publicado na revista Humanidades em Foco (ano 2, n.4). Isso explicaria porque tentativas anteriores de estabelecer línguas internacionais de comunicação falharam. No final do século XIX, por exemplo, um ideal de universalidade lingüística inspirou a criação de algumas línguas artificiais, sendo o esperanto possivelmente a mais conhecida. Essas línguas são chamadas de artificiais porque não são um produto coletivo de determindada sociedade, mas de certos indivíduos. Na época, alegava-se em favor dessas línguas o fato de serem de fácil aprendizado e de obedecerem regras regulares e lógicas (o esperanto possui apenas 16 regras gramaticais, sem excessões). Além disso, não sendo de domínio de nenhuma cultura ou nação, não haveria interesses hegemônicos, econômicos ou comerciais envolvidos. Segundo Moita Lopes, os interesses do império britânico do século XIX e do início do século XX, combinados com o desenvolvimento industrial da Grã-Bretanha, assim como os interesses do império norte-americano no século XX, acoplados à globalização econômica do final do século XX e início do século XXI, solaparam o sonho de uma língua universal independente de objetivos imperialistas. No começo do século XX, vários países ensaiaram introduzir o ensino no esperanto nas escolas, inclusive o Brasil, porém nenhum levou a idéia adiante.

O português vai desaparecer?

Em vários países existe uma apreensão diante do crescimento do inglês e da diminuição do uso das línguas nacionais. Na França, por exemplo, é obrigatório que as palavras em inglês sejam traduzidas nos anúncios. No Brasil, há alguns anos, o tema gerou um projeto de lei (1676/99), de autoria de Aldo Rebelo. Ele queria coibir o uso de estrangeirismos “que deformam a língua e truncam a comunicação do povo”, nas palavras do deputado.

Em muitas situações o uso de termos estrangeiros se torna um problema concreto. Em janeiro deste ano a questão foi parar nos tribunais. Numa ação movida pelo Ministério Público (MP), o juiz determinou que a União fiscalize e faça cumprir o artigo 31 do Código de Defesa do Consumidor que prevê, entre outras medidas, que, no momento da oferta, haja clareza de informação. O autor da ação, o procurador da república Matheus Baraldi Magnani, disse que o MP recebeu diversas reclamações sobre o uso das palavras sale e off, no lugar de liquidação e desconto. Entrevistas com 280 pessoas em centros comercias detectaram que 90% das pessoas não entendiam o significado dos anúncios em inglês.

Mário Perini, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), considera exagerada a invasão de termos ingleses na língua portuguesa. “O Brasil é um país subalterno e a língua expressa isso. É como se me dissessem o tempo todo que minha cultura, não minha língua, é inferior”, aponta. É mais fácil entender isso se pensarmos, como Viana, que a linguagem é um fenômeno social ligado ao processo de dominação. A subordinação social é acompanhada por uma subordinação linguística. No Brasil, o sistema colonial e depois o capitalismo reproduzem a diferença no poder.

Mário Perini não acredita, entretanto, que os empréstimos estrangeiros sejam uma ameaça à língua portuguesa. Segundo ele, muitos estrangerismos desaparecem com o tempo e, os que ficam, são assimilados ou aportuguesados. “Os falantes tem um bom senso inato que os impede de utilizar termos estrangeiros além de um certo limite. Por isso, as palavras emprestadas são muito efêmeras”, acredita. Embora concorde que a influência norte-americana é incontestável cultural e economicamente, ele não vê consequências drásticas no campo linguístico.

A hibridização é um processo que acompanha o desenvolvimento das línguas. A língua muda para acompanhar as transformações sociais e culturais, os avanços tecnológicos, os movimentos artísticos. O fenômeno de empréstimo de palavras, como sales, parking, ou o aportuguesamento de palavras em inglês no português contemporâneo, que acontece em salvar e deletar, também ocorrem em outras línguas, inclusive no próprio inglês (grande número de palavras inglesas tem origem no francês: beef, liberty, page, etc). A língua portuguesa também emprestou palavras para outros idiomas. Não foram muitas pois, como dito, para que uma língua influencie outras é necessário alguma relação de domínio político ou cultural. No Oriente, os portugueses foram o primeiro povo conquistador europeu deixando, com isso, algumas marcas no híndi: mês é mesa, camiz é camisa. Em japonês, liburo signfica livro.

Isso acontece o tempo todo com as línguas e, antes de ser uma ameaça, é um sinal de que estão vivas e que se adaptam para continuar a existir. “O ser humano tem muito apego à sua língua porque ela os distingue, como povo, do resto do mundo”, defende Perini. Na Suécia, a grande maioria das pessoas fala inglês fluentemente. Mesmo assim conservam o sueco como sua língua materna. Enquanto no Brasil a presença da cultura norte-americana ganha força a partir dos anos 60, na Irlanda a influência inglesa existe desde a Idade Média sem que o irlandês tenha desaparecido. “A língua é o aspecto mais entranhado e menos mutável da cultura de um povo”, completa o pesquisador. Prova disso é que a segunda língua mais falada no Brasil não é o inglês ou o espanhol, mas o japonês, falado pela numeroso grupo de japoneses que vive no Brasil e que, provavelmente, se apega à sua língua materna como uma das formas de manter viva aqui a tradição nipônica.

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