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Reportagem
Poder e preconceito
Valorização da diversidade lingüística brasileira também passa pelo combate ao preconceito às variações no português criadas no país
Carolina Cantarino
Línguas indígenas. Línguas de origem africana faladas nos terreiros de candomblé e umbanda. Diversas comunidades de descendentes de imigrantes japoneses, alemães, italianos. O Brasil possui um rico cenário lingüístico e não é um país de uma única língua: os brasileiros não falam somente o português, como muitos gostam de imaginar. A polêmica é que, para muitos lingüistas, é preciso reconhecer e valorizar não só essas diversas línguas, além do português, faladas no Brasil, mas também as variações no próprio idioma, um patrimônio menosprezado.“Nossa identidade enquanto brasileiros passa pela valorização das variedades geográficas do português e também pelo reconhecimento das variedades sociais”, afirma Marta Scherre, lingüista e professora adjunta da Universidade de Brasília (UnB) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Os sotaques regionais. As gírias e expressões criadas por jovens e outros grupos. Os empréstimos e as recriações de outras línguas no interior da “língua de Camões”. O “você” que vira somente “cê”, dentre milhares de outras palavras e expressões criadas pelos brasileiros no seus falares cotidianos. Língua é identidade e cultura e a valorização desses diferentes modos de se falar o português depende do combate a um fenômeno pouco debatido na sociedade brasileira: o preconceito lingüístico.

Linguagem também é poder, e isso vale ainda mais numa sociedade desigual. Escrita e fala são hierarquizadas. No Brasil, a gramática e os dicionários são valorizados porque muito do que foge às normas e prescrições do português escrito é considerado “errado” ou “inferior”. Valores sociais são atribuídos aos diferentes modos de falar porque a escrita tende a ser vista como a essência da linguagem e, por isso, como o seu padrão mais “correto”. A variação e a mudança, que são inerentes a qualquer língua do mundo, são vistas como “ameaças” ao idioma. Mas a escrita de nenhuma língua corresponde diretamente aos diferentes modos de falá-la. Daí é que advém sua riqueza.

Para Scherre, é preciso considerar a linguagem no interior das relações sociais e, nesse sentido, sua ligação com a questão da desigualdade e da exclusão social. Por isso, a lingüista faz questão de lembrar que nem todas as variações lingüísticas que não atendem às regras gramaticais são estigmatizadas. Um exemplo seriam as variações no uso do imperativo que tendem a ser socialmente aceitas, ao contrário das variações na marcação do plural, estigmatizadas como “erradas” ou “feias” porque denunciam a origem social do falante. Nesse sentido, as variações na concordância de número chamam a atenção e tendem a ser ridicularizadas porque marcam a distinção entre classes sociais, entre pobres e ricos. Outro exemplo seria o chamado “r retroflexo” (o conhecido “r caipira”) que, ao ser utilizado em certas regiões do país evidencia, muitas vezes, a hierarquia entre o mundo rural e o urbano.

Em seu livro Doa-se lindos filhotes de poodle: variação lingüística, mídia e preconceito, Scherre analisa como o preconceito lingüístico pode ser facilmente percebido na mídia, no despreparo dos jornalistas para lidar com as variedades lingüísticas regionais e sociais e em sua intolerância com a linguagem coloquial. Jornais e revistas, de modo geral, têm aversão às formas não-gramaticais. “A sociedade como um todo dissemina o preconceito lingüístico. A mídia é só uma expressão disso. Não entendo como ela pode passar impune. Trata-se, no mínimo, de uma questão de responsabilidade”. Segundo Scherre, mais do que aceito, o preconceito lingüístico é corroborado pela sociedade. “Em termos legais, as pessoas não podem ter preconceito de raça, de credo ou religião, mas o preconceito lingüístico é tolerado e até tido como algo ‘natural’. A sociedade não só aceita, ela também legitima essa forma de preconceito”.

Direitos lingüísticos

Um dos indícios de que a sociedade brasileira ainda é muito tolerante em relação ao preconceito lingüístico diz respeito ao próprio tratamento recebido pelos lingüistas e sua área de conhecimento. Ao defenderem os diferentes modos de falar o português e as manifestações lingüísticas populares como patrimônio do país, os lingüistas, muitas vezes, acabam sendo acusados de “destruir” o idioma. “Não se trata de ser ‘muito liberal’ ou ‘relativista’. Trata-se de respeitar a fala do outro, sendo assim, mais democrático”, defende Scherre.

Marcos Bagno, lingüista e professor da UnB, lembra que alguns veículos de comunicação não valorizam a lingüística como uma área de investigação científica da linguagem, e acabam dando mais espaço para aqueles que ele chama de “comandos paragramaticais”, pessoas sem formação apropriada que desempenham o papel de guardiães da língua, vendendo fórmulas de "português certo" como produto de consumo, uma espécie de "auto-ajuda gramatical". “Os 'comandos paragramaticais' conseguem tanto sucesso porque existe na nossa cultura uma ideologia lingüística que condena os brasileiros em geral por 'não saber português', que apregoa que 'o português é uma das línguas mais difíceis do mundo' e outras superstições infundadas. Numa sociedade já tão convencida de que não sabe falar a própria língua materna (um absurdo do ponto de vista lógico), fica fácil vender as quinquilharias gramatiqueiras”.

Educação e linguagem

Além da mídia, seria preciso lutar contra o preconceito lingüístico disseminado pela escola. Segundo Marcos Bagno, há mais de dez anos, com a publicação dos Parâmetros Curriculares Nacionais, instâncias como o Ministério da Educação já incorporaram em suas políticas educacionais os principais conceitos da sociolingüística. O desafio, agora, é a capacitação dos professores de português. Para Bagno, os cursos de pedagogia e letras, de modo geral, não preparam o docente para utilizar os novos materiais didáticos que vêm sendo produzidos. “Os cursos de formação continuam presos a currículos enferrujados, fingem que não se destinam à formação de docentes, e o próprio nome do curso de ‘letras’ remete ao século XIX, senão antes. Por isso, e com o desserviço da mídia (que só veicula idéias atrasadíssimas sobre língua e ensino), a escola permanece o foco principal de cultivo e preservação do preconceito lingüístico.”, afirma o lingüista.

A formação dos professores, segundo Bagno, passa pela introdução de novos conceitos lingüísticos. “A grande missão da educação lingüística, neste século, está sintetizada na noção de letramento, isto é, a inserção plena do cidadão no mundo da cultura letrada, por meio da prática ininterrupta e consistente da leitura e da escrita”. Nesse sentido, a escola deveria ser o espaço de questionamento de alguns mitos tais como o que de existe um único modo “correto” ou “certo” de falar: aquele que se aproxima mais da escrita; e o de que a escrita é o espelho da fala e, por isso, seria necessário “consertar” o modo de falar dos alunos.

Mas e o ensino da chamada norma culta do português? Certamente a escola privilegia a variedade normativa do português e, por isso, tende a reproduzir o preconceito lingüístico. Mas ela é importante por ser um espaço no qual os estudantes têm a possibilidade de ter acesso ao chamado padrão culto da língua, o que não significa apenas aprender a gramática normativa. “É lendo e escrevendo que a pessoa entra em contato não só com a norma-padrão, mas com todas as outras variedades de língua escrita, presentes nos mais diversos gêneros textuais que circulam na sociedade. Enquanto houver a crença de que é preciso 'ensinar gramática', vamos continuar nesse pântano de incompreensões e de frustrações, porque nem conseguimos fazer o aluno 'aprender gramática' nem o levamos a aprender a ler e a escrever decentemente, que é o que de fato importa”, afirma Bagno.

A insistência na valorização apenas do chamado padrão culto do português, em detrimento de outros modos de falar e escrever a língua, prejudicaria a aprendizagem de um modo geral ao reforçar a distância e a hierarquia entre educadores e alunos. Foi o que a professora, licenciada em letras, Ione da Silva Jovino, constatou ao pesquisar a relação entre a escola e os alunos adeptos do hip hop em sua dissertação de mestrado, intitulada “Escola: as minas e os manos têm a palavra”. Num colégio da periferia da cidade de São Paulo, a pesquisadora observou a existência de um confronto entre a escolarização formal, defendida pelos professores, e as práticas culturais dos estudantes tais como as letras de rap, cada vez mais presentes nas redações escolares. Para Jovino, os educadores tendem a desprezar o potencial pedagógico do hip hop e acabam abrindo mão de utilizar o universo cultural dos alunos em prol da continuidade de sua aprendizagem, dentre outros, do próprio português.

O objetivo da pesquisa de Jovino era analisar o que os jovens do hip hop tinham a dizer sobre a escola. Para a surpresa da própria pesquisadora, as falas dos alunos foram sempre carregadas de positividade. “É como se a violência, a falta de limpeza, o desprestígio e outros problemas pudessem ser momentaneamente abandonados, retirados dali, para que restasse apenas uma Escola. Escola assim, com letra maiúscula, no sentido mais amplo possível. Eles se compadecem dessa Escola, separando-a de seus problemas e insucessos, vendo nela apenas a positividade que só uma Escola, qualquer Escola pode ter”, lembra Jovino.

A escola, assim, é concebida por esses estudantes como uma oportunidade para se obter informação e conhecimento, como meio de ascensão social e de qualificação para o mundo do trabalho. Esses mesmos significados, segundo a pesquisadora, são atribuídos por eles ao hip hop. Por isso, para a professora, nessa interposição de significados reside a possibilidade de se tratar a escolarização formal e a “escola do hip hop” como campos equivalentes e complementares para a aprendizagem dos alunos.

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