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O museu de fotografias nunca tiradas
KA-AK-KIM
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Artigo
O museu de fotografias nunca tiradas
KA-AK-KIM

No Museu de Fotografias Nunca Tiradas, há uma enorme galeria dedicada às fotos de entes queridos. Crianças, vítimas de abortos – espontâneos ou espontaneamente provocados –, convivem lado a lado com os retratos do falecido, tirados minutos antes do derradeiro sorriso, e pendurados à parede por alguma viúva saudosa. O ambiente não é mórbido, posto que as visitas são raras. No Museu de Fotografias Nunca Tiradas, os mortos não se choram, porque os instantes foram todos captados, não apenas os mais tristes.

Pelos longos e esvaziados corredores, umas molduras mais fantásticas que as outras, como lápides de cemitério, trancam a albumina em limites imaginários. São molduras, mas também são baús: seus tesouros nunca foram revelados.

No Museu de Fotografias Nunca Tiradas, o ar é rarefeito. Uma atmosfera gélida e pacata. Uma monotonia quebrada apenas pelos gritos de Eureka! dados pelos grandes inventores no momento da fatídica descoberta. Não deixam por menos as crianças abortadas, em algazarra pelos corredores, para desespero dos seguranças. Os velhos que se foram muito antes de Daguerre empinam suas corcovas com certo ressentimento. Não foram e não serão contemplados. Eles sentam os esqueletos cansados nos bancos das galerias. Horas e mais horas observando embevecidos as obras expostas. Para eles, o museu é uma prisão.

Portas e janelas não há, para que não deixem escapar a luz. A única entrada do museu é pelo teto abobadado, donde um filete perpassa o refratário de uma minúscula clarabóia. Os arquitetos que desenharam o prédio projetavam dois andares para a reserva técnica. A administração, contudo, achou por bem dispor de todo o acervo para uma exposição permanente. O Museu de Fotografias Nunca Tiradas recebe doações de entidades civis, colecionadores e arrependidos. A ala esquerda do terceiro pavimento, por exemplo, é inteiramente dedicada às fotos de excursões, aos registros turísticos jamais efetuados, às festas e eventos em que a máquina tenha sido esquecida.

Bem próxima à coleção de fotografias de viagens, em uma pequena sala, ao fundo do corredor orbicular, há as imagens desfocadas, retratos que gostariam de ter sido tirados com habilidade; erros – e por que não? fotografias abortadas.

O imenso corredor que atravessa a asa direita do topo do edifício, chamado hall "do esquecimento", amarga uma série de fotografias de primos, cunhados, sobrinhos, às vezes parentes mais próximos, todos crescidos sem que se notasse. A vida anda rápida nesse corredor. Os passantes, poucos que sejam, cortam de um lado a outro a galeria sem atinar para as fotos que estão expostas. Muitos, no corre-corre da visita, deixam cair suas mágoas, pertences que vão para um guichê em anexo, a seção de achados e perdidos do museu. A administração não se responsabiliza por objetos deixados para trás em suas dependências, mas o pessoal solidário da bilheteria guarda as miudezas até que sejam reclamadas.

No Museu de Fotografias Nunca Tiradas, o almoxarifado serve de depósito para as perversões dos casais. Numa sala meio discreta, meio transversa – uma aconchegante câmara escura escondida no segundo andar –, ficam encerradas polaróides pornográficas, desejos incultos, nus artísticos. Casais que romperam sem se dar ao deleite de uma fotografia em intercurso, uma ousadia imperdoável. Fotos das posições mais esdrúxulas, dos ângulos mais controversos, close-ups, borrões pubianos, complexos de Édipo, todas as fantasias embarreiradas pela moral. Um antro de sem-vergonhice.

Ali, frente às paixões carnais, os curadores deixaram espaço para os álbuns de família. São preto-e-brancos do primeiro filho, a pompa dos casamentos, muitos bichinhos de estimação, brinquedos e instantes da infância irrecuperáveis. Estantes e mais estantes de fotos arquivadas. Grossos e aveludados cadernos, indexados por sobrenomes.

No Museu de Fotografias Nunca Tiradas, há uma modesta biblioteca na sobreloja. Local em que podem os visitantes – se é que os há – obterem permissão para consultarem os microfilmes. A administração não permite fotocópias, mas os documentos estão à disposição dos pesquisadores interessados. Positivos de feitos heróicos e soldados mortos em guerra. Fotos históricas de um passado remoto e fotos recentes censuradas política ou militarmente. No Museu de Fotografias Nunca Tiradas, não há anistia imaginável.

Nas coleções de vida selvagem, figuram os animais extintos, os animais pré-históricos, os animais fantásticos, os elementais. De dragões a dinossauros, de duendes a dodôs. Cobras e lagartos. Fotografias que são quase pôsteres atados às paredes; embolotados, embolorados. São obras antigas, frágeis, fotografias míticas, mortas-vivas, quase desfeitas em pó. Quase fundidas aos pilares a que se agarram, quase ou quase inteiramente fósseis.

O sobrado do museu ainda guarda surpresas sem fim. Contornando os dormentes do balcão interno – a sacada que dá vistas à clarabóia –, abre-se um amplo aposento no interior do qual brilham duas ou três fotomontagens – fotomontagens, que vale lembrar, jamais foram feitas. Combinações impensáveis, manipuladas em laboratórios analógicos e digitais. A rigor, dadas as pretensões photoshopianas dos artistas em evidência nesse campo, são poucas as idéias não experimentadas, as mesclas não aludidas, as fotomotagens não feitas. Nesse espaço preenchido por um único púlpito, saem mais fotos do que chegam ao museu. A gigantesca coleção de fotomontagens vem sendo esvaziada, cada vez que uma de suas obras é posta em prática. A administração planeja substituir em breve as instalações. Talvez devam as fotomontagens que sobrarem ocupar o almoxarifado. Nesse caso, as perversões que lotam o cubículo sairiam do armário.

Ainda no segundo piso, nas salas que ocupam as extremidades do edifício, logo abaixo das belas cúpulas otomanas – visíveis apenas pelo lado de fora –, estão acomodadas as coleções sinestésicas. Em virtude do caráter apropriadamente visual de cada obra, restam exatos quatro sentidos entre os quais dividem-se estas fotografias. No Museu de Fotografias Nunca Tiradas, há imagens que são quase metáforas. São fotos de goiabas com gosto de férias, de meninas com cheiro de flor. Há o som dos shows de rock e a bruteza do futebol. Cada sala, em cada uma das quatro quinas do prédio tem o seu sentido. O que não tem sentido são as fotografias que lá estão expostas.

Quem desce a escadaria em caracol dá de encontro com mais dezoito galerias. O museu ocupa todo um quarteirão, e os que vêem da rua aquele imenso contêiner, nem imaginam a proporção de seu acervo.

Passeando apressadamente pela nave tripartida do primeiro pavimento, o visitante – se há algum – relanceará o sobressaltado das fotos diplomáticas. Árabes e judeus, mouros e cristãos, índios e bandeirantes, pazes, pazes, apertos de mão e abraços. São quadros que se dependuram da biblioteca cimeira, quedando em fios de náilon como aranhas tecendo seus cipós. O visitante, então, irá provavelmente atravessar com os olhos o arco cruzeiro e perceber que, mais alto, presas às paredes, estão as fotografias do espaço sideral. Uma quantidade enorme de imagens de Plutão, asteróides, a face oculta da Lua, nebulosas, todas fotos nítidas e em cores.

O corredor principal deságua no átrio, donde se pode ver o mínimo filete de luz que atravessa os andares já percorridos, a partir da abóboda. As sacadas, a tribuna. Os visitantes que vão chegando descem de pára-quedas a olhos vistos. No primeiro piso, resta apenas mais uma sala.

No Museu de Fotografias Nunca Tiradas, não poderiam deixar de estar as fotos das pessoas que não gostam de tirar fotos, que não se acham belas, que se recusam à espontaneidade. Estão todas lá, na última e principal galeria, todas para serem vistas. Umas usam laços nos cabelos, outras sorriem extrovertidamente.

A exposição tem o seu fim em uma sala quadrada, que dá costas para o frontão do prédio. O museu tem algumas das mais monumentais fotografias jamais consolidadas. Fotos que foram impedidas por um triz, por uma mão, por um beicinho. Mas, ali, estão todas elas, em poses de manequim, esfuziantes, fotogênicas. Fotografias de cavalete, fotografias 3x4, fotos em porta-retratos.

Ao lado dessa enorme sala, um estreito corredor leva os visitantes – se é que os há – às dependências administrativas. As dependências administrativas, em verdade, são bem menores do que aparentam. O gabinete do diretor do museu é sóbrio e humilde, conquanto bastante narcisista. Recluso, o diretor, que se enfurna a trabalhar, raramente é visto pelas ruas da cidade. Por essa razão, são tantas as suas fotografias que enfeitam o escritório. Ele, ele e mais ele. Faxineiros, seguranças e bilheteiros orientam os visitantes para que tomem o caminho correto. O acesso ao estreito corredor que aponta para o gabinete da direção é restrito.

Ao fim da visita, quem estiver apertado pode ir ao sanitário, onde câmeras de vigilância estão apontadas diretamente para privadas e mictório. Os bebedouros margeiam a lojinha de souvenires, de onde é possível levar de brinde postais e cartazes da mostra, reproduções de algumas das peças expostas, reproduções que obviamente jamais foram reproduzidas: são, portanto, originais. As lembranças ficam à venda deitadas no balcão. Preços módicos para obras que não estão no catálogo.

No Museu de Fotografias Nunca Tiradas, a saída é a mesma porta de entrada. O filete de luz que quase se esvai em poeira ao tocar o térreo é também elevador. Ao subirem, os visitantes – os que hão por bem – podem aproveitar seus últimos momentos no terraço do edifício, circulando livremente por um belo jardim suspenso. No jardim, não há fotografia alguma. Todos os negativos que houveram sido expostos à luz do sol velaram-se, e, conseqüentemente, foram parar dentro do museu, na sala mais apropriada. O que há do lado de fora é a bela arquitetura do palácio-contêiner. Sem portas, nem janelas, apenas um paralelepípedo seco, ornado de alguns pináculos, uns gárgulas, umas flores-de-lis. Quem vai embora, jamais esquece a visita. No subsolo, o estacionamento também não tem fotos. A saída do prédio é algo triste, sem avisos, sem recordações. Os visitantes que vão embora costumam fitar a fachada do museu demoradamente, como se a lembrar de cada uma das fotos vistas, com vistas a não se sabe o quê.

Mas no Museu de Fotografias Nunca Tiradas, há uma foto que passa despercebida por quem entra e sai das galerias apenas fotografando mecanicamente as obras de arte expostas. O visitante que chega em casa com as fotos reveladas, olha uma a uma e não se lembra, se assombra, não reconhece o que diabos é aquela foto e quem a tirou. É a foto da primeira foto: a obra-prima recôndita. No Museu de Fotografias Nunca Tiradas, há uma foto da fachada do museu que ninguém sabe se existe ou se não existe, se foi ou se não foi tirada.

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