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Artigo
Ponte entre culturas, expressão de sistemas culturais; notas sobre o Museu de Arqueologia e Etnologia Americana da UFJF e a Zona da Mata Mineira
Daniel Roberto dos Reis Silva
Museus: Ponte entre culturas O museu é um lugar de tudo; é um lugar para colorir o pensamento”, eis a metáfora de um índio Ticuna para definir os museus (Freire, 2003). Se o museu é um lugar de tudo, ele é, sobretudo, um lugar para pensar, e, sendo assim, um espaço para reflexão crítica. O museu é antropofágico (Chagas, 2006). Ele devora passados, sujeitos, ciência, arte, culturas. Devora-se. Numa perspectiva talvez já clássica para a museologia, é “uma instituição ao serviço da sociedade na qual é parte integral e que possui em si próprio os elementos que lhe permite participar na formação das consciências das comunidades que serve”. (declaração de santiago, 1972)

Em tempos recentes os museus vêm sendo freqüentemente citados como pontes entre culturas. Eles proporcionam o contato e interação com as mais variadas instâncias de um ou mais grupos, num plano diacrônico ou sincrônico, tipológico ou geográfico. Minha sugestão é que, para além de uma ponte, o museu é um lugar de expressão dessas culturas, segundo um projeto expositivo e/ou pedagógico. Ele é uma expressão de sistemas culturais. É um lugar de permanente tensão, algumas vezes de fruição livre e imaginativa, outras de controle; algumas vezes de afirmação, outras de transformação. São múltiplas as possibilidades retóricas dos museus, tal qual múltipla é a sociedade contemporânea e os olhares sobre seus segmentos.

Proponho nesta ocasião refletir, ainda que de forma breve, sobre os museus lançando olhar sobre esta instituição enquanto ponte intercultural e intertemporal e como expressão de sistemas culturais. Parto de um caso específico, acreditando servir ele como uma janela que permite visualizar panoramas mais amplos. Assim, tomo o Museu de Arqueologia e Etnologia Americana – maea – da Universidade Federal de Juiz de Fora – UFJF –, buscando identificar as pontes ele vem procurando construir e que sistemas culturais procura expressar. Parto do ponto de vista da agência, ficando a análise das recepções dos projetos deste museu para uma próxima ocasião.

II
Com origens que remontam à década de 1980, o maea constitui-se num museu universitário vinculado à UFJF. Como muitos museus universitários, apresenta algumas características próprias, como o fato de não ser institucionalizado. Assim, todas as suas verbas dependem de financiamentos e realização de projetos por via de agências de fomento e/ou parcerias com órgãos públicos, configurando-se antes um centro de pesquisa do que um museu propriamente dito. Sua peculiaridade reside fato de que estas características se estendem também ao seu corpo técnico. Como seus pesquisadores são oriundos de diversos departamentos, a única que participa ativa e integralmente de sua gestão é a professora Ana Paula de Paula Loures de Oliveira, auxiliada por uma equipe de estagiários e colaboradores. Esta questão torna-se delicada uma vez que a citada professora não faz parte do quadro efetivo da UFJF, ficando o museu, assim, numa situação sempre liminar em relação às decisões da instituição.

Em linhas gerais, o museu prima hoje pelo desenvolvimento de ações culturais na Zona da Mata Mineira – ZMM. Busca atuar nas áreas de ensino, pesquisa e preservação, visando a produção e circulação do conhecimento sobre a região da qual faz parte. Procura desenvolver tais questões de modo interdisciplinar dialogando com o instrumental de disciplinas como a antropologia, arqueologia, história, educação e museologia em função do próprio caráter heterogêneo de seus pesquisadores. Na medida em que está imerso numa estrutura universitária, procura absorver alunos da graduação de áreas e interesses afins, possibilitando-lhes uma experiência nos campos de pesquisa, extensão e demais atividades do museus. Suas ações procuram seguir uma diretriz onde “partem da idéia de que os materiais encontrados e trabalhados por sua equipe, são portadores de significação simbólica, expressando o contexto cultural no qual se insere” (Lourdes Oliveira, Reis Silva, 2003).

III

As pontes culturais pelas quais advoga maea estão intimamente interligadas à sua proposta de história e preservação do patrimônio na ZMM, uma história e patrimônio que leve em conta o período pré-colonial da região, até então relegados ao esquecimento. O argumento do qual partem os pesquisadores é o de que a história e patrimônio da ZMM difundidos até então, faz referência somente aos grandes marcos pós-colonização, como as fazendas de café e o advento e apogeu da indústria. Como reflexo da profusão dessas narrativas, teria-se na região atualmente uma identidade criada em torno do “mito fundador” das localidades por tropeiros e do trauma escravocrata abarcados por uma visão do “eu” enquanto interiorano. Nos núcleos urbanos ganha relevo o imigrante, a indústria e o operário, com narrativas cosmopolitas e de progresso.

Sob o olhar do museu, seria chegado então o momento de se repensar esta história, no que compete aos agentes anônimos – e anteriores à colonização ocorrida a partir do século VXIII – que dela participaram, e, consequentemente o legado cultural deixado por estes, qual seja, um legado indígena. O museu assume para si a tarefa de fazer esta ponte transcultural e transtemporal, de construir este canal de comunicação entre a população e uma narrativa histórica e patrimonial vista numa dimensão ampla. O maea se coloca como um lugar de expressão desses sistemas culturais.

IV

A construção de pontes requer bases sólidas. Para viabilização de seu projeto os pesquisadores do maea elaboraram um plano de ações sintetizados no “Projeto de Mapeamento Arqueológico e Cultural da Zona da Mata Mineira”. Elaborado no ano 2000, o projeto tem como objetivo – como indica o próprio título – a identificação das referências arqueológicas e culturais da região, visando criar mecanismos de conscientização e salvaguarda deste patrimônio, de modo que ele possa ser utilizado visando favorecer o desenvolvimento sustentável das localidades.


A proposta de realização do projeto previa a criação de parcerias com prefeituras, visando uma ação conjunta. Após contato preliminar com vários municípios, os trabalhos ganharam fôlego principalmente em São João Nepomuceno, cidade situada a poucos quilômetros de Juiz de Fora, e, que demonstrou o maior retorno e interesse no desenvolvimento das ações do museu. Entre 2002-2004 foram realizados mapeamentos, registros e escavações em sítios arqueológicos na localidade, bem como atividades laboratoriais do material encontrado. Paralelamente foram feitos trabalhos de cunho etno-histórico. Procurou-se coletar os relatos orais da população, sobretudo idosa no centro urbano e distritos adjacentes. Além disso, visando captar uma atmosfera do módus vivendi local, foram realizadas pesquisas etnográficas com pesquisadores implantados em diversos pontos do município.

As conclusões parcelares obtidas pelo maea até o momento, atestaram a presença de grupos indígenas na região até meados do século XIX, e, ainda, nos primeiros anos do séc. XX. “Um texto sem referência (...) conta a história de que no alto da serra, no local denominado “Alto do Aventureiro”, por volta de 1905, se refugiara o último grupo de Caramonos, sob a liderança de um cacique chamado Antônio Velho” (Lourdes Oliveira, 2004). Segundo dados, entre os grupos étnicos que habitaram a ZMM os mais citados são os Puri, Coroado e Coropó, supostamente descendentes dos Goitacázes, migrados do litoral fluminense (LOURES OLIVERIA, 2004).

V

Esse conhecimento produzido pelo maea vem sendo apresentado ao público em duas linhas principais – para além de seminários e publicações -, quais sejam, exposições e oficinas. Como o maea dispõe de espaço físico limitado, tais atividades são realizadas em eventos e espaços culturais da região. O museu assume uma certa itinerância. Rompe suas fronteiras físicas; projeta sua espacialidade para o exterior e delineia-se de acordo com as situações com que se defronta no intuito de estar próximo aos grupos que o cerca. Seu público preferencial são as crianças, acreditando serem elas agentes multiplicadores dos conteúdos informacionais que pretende propagar.

Foi com este propósito que o maea elaborou a exposição itinerante “Brasil: além dos 500 anos”. Sabe-se que uma exposição é ponto liminar entre a academia e o público através do espaço museográfico, exercendo papel formador na sociedade por meio da visualidade e mediações discursivas que apresenta (Gonçalves, 1999). A citada exposição é organizada em torno de seis cenas construídas pela justaposição de objetos arqueológicos e etnográficos e painéis ilustrativos. Estes painéis, pintados em lona, cobrem todo o fundo das expositoras criando uma ambientação para os artefatos. Complementa essa narrativa a presença de um monitor que guia todo o percurso de visitação, verbalizando as imagens e estabelecendo um certo controle daquela experiência, no intuito de obter maior eficácia. O objetivo é:
Conscientizar para valorizar (...). optamos por essa estratégica por facilitar a mediação na compreensão da mensagem que se pretendia transmitir,qual seja, que a ocupação humana na região é anterior à colonização, e que somos herdeiros culturais desses povos, cujas características e tradição ancestral persistem ao tempo e está presente em nosso cotidiano” (Lourdes Oliveira, 2004).

As cenas da exposição podem ser dividas em três blocos. O primeiro, correspondente às cenas 1 e 2, apresenta um passado pré-histórico e a possibilidade de resgatar fragmentos dele através de métodos e análises da arqueologia; o segundo expõe o cotidiano de um grupo indígena e seu módus vivendi permeado por uma “sofisticada” capacidade tecnológica que “vai muito além do domínio da pedra e da argila”. A intenção é a de criar uma aproximação do visitante com aquele contexto, através de um exercício de alteridade. O terceiro bloco é o elemento chave da proposta, a expositora vazia. Ela sinaliza os processos de seleção da memória e silenciamento das vozes que não se enquadraram no processo colonizador. O vazio é ícone do risco de perda e possibilidade de resgate do patrimônio arqueológico apresentado no primeiro bloco, visando despertar para a importância de sua preservação. Simultaneamente, faz referencia ao segundo bloco, chamando atenção para a necessidade de preencher este vazio, e, começa por fazê-lo localmente, já que a presença de sítios arqueológicos lítico-cerâmicos e um legado indígena seriam atestados, porém desconhecidos ou tidos com indiferença na região. Nesta expositora não há um painel ilustrativo ao fundo. A cena e ambientação quem deve construir é o público através de sua apropriação destas informações.

Quanto às oficinas, foram intituladas “Oficinas de Expressão Tecnológica”. Voltadas aos alunos do ensino fundamental, têm por objetivos “favorecer a construção pelo aluno da noção de diferença, semelhança, transformação e permanência de práticas e saberes culturais” (Oliveira, 2004). As oficinas procuram articular a transmissão de um arcabouço teórico com uma interação material, através da argila, para a confecção de potes cerâmicos fazendo referência ao material encontrado nos sítios arqueológicos da região. A idéia é fazer uma educação sensitiva, acreditando que a “educação de sensibilidade se mostra rica, pois não parte de conhecimentos teóricos e abstratos” (Oliveira, 2004). Objetiva-se, a partir dessa sensibilidade subjetiva, despertar para o aspecto coletivo, e, assim, pensar na importância do patrimônio arqueológico e cultural.

As oficinas são divididas em quatro módulos. Têm início com uma aula que procura um diálogo entre a historiografia oficial que aparece nos livros didáticos e as narrativas orais locais. O objetivo é explicitar aos alunos como se processam os mecanismos de seleção da memória e escrita da história, chamando a atenção para os agentes anônimos enquanto elementos ativos na construção desse processo. Num segundo encontro, os participantes são colocados em contato com a materialidade da argila “com intuito de motivar a experimentação estética do indivíduo na sua relação corporal com o mundo, liberando a expressão de sensações e sentimentos” (Oliveira, 2004). Os alunos são levados a desenhar um objeto qualquer, e, em seguida, construí-lo com a argila. O terceiro módulo é caracterizado pela queima das peças e sua transformação num objeto cerâmico. Cria-se uma expectativa e afinidade das crianças com o objeto quanto à sua transformação com o fogo. Antes da queima é feita uma dinâmica onde procura-se fazer com que os criadores expressem os laços afetivos estabelecidos com os objetos por eles criados, buscando fazer uma analogia dessa relação com os bens patrimoniais, ou seja, “cada objeto criado era um bem para o eu criador, pois nele estava a representação da subjetividade de cada um” (Oliveira, 2004). Essa relação vai ser enfatizada no quarto módulo, onde chama-se a atenção para a necessidade de um laço afetivo com o patrimônio acreditando ser esta a única forma de garantir sua salvaguarda, bem como reivindicar aporte do Estado.

VI

O canal de contato que as ações do maea sugerem é algo que ainda está por ser construído, ou, que está em construção. Tais ações sugerem um elo de ligação entre um determinado passado e o presente que teria sido rompido com o processo de colonização. O museu visa criar esta ponte e expressar os sistemas culturais presentes neste conjunto, através da valorização do patrimônio arqueológico e cultural. É uma busca pela conscientização de um passado que "não" existe mais, à exceção de ruínas arqueológicas e da lembrança de alguns poucos. É um passado que até então, não havia sido contemplado pelos projetos de construções historiográficas da região, pautados mormente em narrativas de modernização e das fazendas de café; do imigrante europeu e dos escravos africanos. A ponte que o museu procura construir caminha na tensão entre o discurso oficial e o local com intenção transformadora. Enquanto um "lugar de tudo" para retomar a metáfora Ticuna, o maea é, sobretudo, um lugar para pensar nessa história e patrimônio até então pouco difundida. É um lugar para devorá-los.


Bibliografia

CHAGAS, Mário. Educação, museu e patrimônio: tensão, devoração e adjetivação. In: Revista Eletrônica do Iphan.
Dossiê Educação Patrimonial Nº 3 - Jan. / Fev. de 2006 http://www.revista.iphan.gov.br/ma. php?id=145


DECLARAÇÃO DE SANTIAGO, 1972. http://www.revistamuseu.com.br/legislacao/museologia/mesa/_chile.html

FREIRE, José Ribamar. A descoberta dos museus pelos índios. In: ABREU, R; CHAGAS, M (orgs) Memória e Patrimônio. RJ: DP&A, 2003. P. 219 - 244


GONÇALVES, J. R. S. Coleções, museus e teorias antropológicas. Reflexões sobre o conhecimento etnográfico e visualidade. In: Cadernos de Antropologia Visual. RJ: UERJ, 1999


LOURES OLIVERIA, A.P. P. Patrimônio arqueológico e cultural da Zona da Mata Mineira In: Canindé. Xingó, n°1, 2001

_________________. (org.) Arqueologia e Patrimônio da Zona da Mata Mineira. São João Nepomuceno. Juiz de Fora: Editar, 2004.
OLIVEIRA, L. M. Educação Patrimonial em São João Nepomuceno: da materialidade e Experiência Estética à autonomia. In: Arqueologia e Patrimônio da Zona da Mata Mineira. São João Nepomuceno. Juiz de Fora: Editar, 2004.






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