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Artigo
Operações estrela
Luiz Antônio Bolcato Custódio
Ao longo da história os museus desempenharam diferentes funções para as sociedades onde foram criados: instrumentos de prestígio pessoal ou institucional, suportes ao status ou à representação de grupos, à interpretação de temas ou de ideologias. Repositórios das novidades, curiosidades, dos testemunhos materiais da cultura, das conquistas, das riquezas e das vicissitudes dos povos. Suportes às construções históricas das nações.

Acompanhando a evolução da sociedade, vão atualizando suas funções, desempenhando sempre um papel dialético de interlocução. E, neste processo, desempenham seus papéis tanto isoladamente quanto articulados, associados ou formando redes. Contemporaneamente, além das tradicionais funções culturais de representação, cada vez mais participam no desenvolvimento econômico sendo integrados como variáveis estratégicas em diferentes âmbitos do planejamento.

No planejamento urbano de cidades, países ou regiões desempenham atividades cada vez mais semelhantes às designações que se incorporaram ao recente jargão da informática. Funções de fonte, núcleo, ponto, pólo, rede, portal, link ou mesmo hub. Nesta abordagem, verificamos também a importância que os museus e sua própria arquitetura vêm desempenhando, não apenas como containers, mas como conectores, nestes processos [1].

Os grandes museus mundiais localizados nas principais capitais do mundo – que hoje se autodenominam de museus universais [2] – sempre funcionaram como elos ou referências maiores à trajetória das civilizações. A estas unidades caberia a qualificação de pólos, funcionando como elementos isolados de concentração e irradiação – como atratores – na linguagem do planejamento. Os grandes museus - o British, o Louvre, o Pergamon, o Metropolitan, as National Galleries, o Vaticano, o Hermitage - entre outros, sempre contribuíram, direta ou indiretamente, para a promoção e produção de divisas para seus países. Museus que, cada vez mais, passam a funcionar articulados, intercambiando coleções e exposições.

Um outro tipo de articulação interna que cabe destacar, configurada por diferentes parâmetros e peculiaridades, é a dos museus de arte da Fundação Solomon R. Guggenheim. Um processo crescente de estruturação; onde desde o início se verificou claramente a importância da representação arquitetônica associada a diferentes objetivos e resultados.

O primeiro museu de “pintura não-figurativa” teve sua versão inicial instalada num show-room de automóveis em 1939, em Nova Iorque, com agenciamento feito por artistas modernos como Kandinsky, Klee e Mondrian. Vinte anos depois, um edifício especialmente projetado por Frank Lloyd Wrigth, foi construído para abrigar as novas tendências artísticas. Este edifício emblemático criou novos paradigmas para o percurso expositivo, para a arquitetura dos museus e para o próprio urbanismo. A estrutura formal e sua espiral inversa provocaram controvérsias e a obra entrou para a galeria dos grandes projetos do século XX.

Nos anos setenta, uma outra unidade museológica – a primeira de além-mar - foi incorporada à Fundação: a coleção de Peggy Guggenheim, localizada no Palazzo Venier dei Leoni, junto ao Grande Canal, em Veneza. Nos anos noventa, outra unidade dedicada especialmente à arte contemporânea e às novas tecnologias foi aberta no bairro SoHo, também em Nova Iorque.

Mas foi no final do século XX que essa fundação adotou uma nova estratégia de expansão, por meio das chamadas operações urbanas consorciadas. Duas novas unidades, o Museu Guggenheim Bilbao, na Espanha, projeto do arquiteto Frank Gehry e o Museu Guggenheim Alemão, localizado num prédio histórico na Avenida Unter den Linden, em Berlim. Em 2001 foi aberta nova unidade dentro de um hotel em Las Vegas, o Guggenheim Hermitage Museum, uma “caixa de jóias”, projeto do arquiteto holandês Rem Koolhaas, feito para apresentar coleções dos museus Guggenheim e do Hermitage. A proposta de uma nova unidade no Rio de Janeiro, projeto do arquiteto francês Jean Nouvel, não saiu do papel.

A rede Guggenheim é um dos exemplos mais presentes de incorporações estratégicas envolvendo aspectos culturais e comerciais. Utilizando conceitos semelhantes aos das franquias, organiza parcerias externas para realizar novos empreendimentos. E pelos resultados se pode verificar que a arquitetura de grife tornou-se um dos componentes principais desse negócio.

Um outro exemplo de forma de articulação estrutural, temática, em âmbito nacional é a representada pelo Museu do Ouro da Colômbia. Um museu de propriedade estatal, vinculado ao Banco Central do país, com sede em Bogotá, criado em 1939. Ao longo do tempo, foi sendo instalada uma série de subunidades museológicas vinculadas -em oito regiões do país - estruturando uma rede de museus. Na capital, o núcleo da estrutura, com uma grande – e obviamente rica - exposição representativa do que restou das manifestações da ourivesaria produzidas no território Colombiano, uma pequena parte do que teria motivado a lenda do El Dorado. Nas sedes regionais, além da síntese das ocorrências nacionais, uma exposição mais completa sobre as tradições que historicamente foram provenientes daquele local.

Ainda no campo temático, mas em âmbito internacional, temos a grande rede representada pelos Museus do Holocausto. Criados com o objetivo de “nunca esquecer” a ocorrência, se espalharam pelo mundo como na diáspora. Um conjunto de unidades autônomas, com diferentes configurações ou escala, que representam a mesma história sob diferentes linguagens ou mídias. Tanto de maneira direta, expondo elementos reais de comprovação e documentação em diferentes suportes de expressão, quanto de maneira indireta, simbólica, com uso de metáforas e ambientações evocativas. Os Museus do Holocausto se transformaram em suportes para uma peregrinação contemporânea e em pontos de referência para a cultura judaica.

No início do século XXI surge uma nova iniciativa no campo dos museus, proposta pela Fundação Samsug, da Coréia do Sul, dentro do mesmo espírito de provocar tensão e desenvolvimento cultural e econômico a partir de um projeto integrado utilizando ingredientes das experiências anteriores: um conjunto de museus de arte. O novo e ambicioso complexo Leeum que usa uma figura de linguagem superpondo o nome do seu diretor/criador, Lee, com a palavra museum...

Ali, a proposta foi unir o passado, o presente e o futuro da cidade de Seul - arquitetura e natureza – vinculando-a ao circuito internacional da arte por meio de três unidades museológicas autônomas e interdependentes. A grife comparece aqui com a escolha de reconhecidos arquitetos que construíram três edificações com linguagens e materiais díspares: o suíço Mario Botta, o francês Jean Nouvell e o holandês Rem Koolhaas.

No Brasil há um exemplo eficiente de articulação em rede - em âmbito local - o Sistema Integrado de Museus e Memoriais do Estado do Pará, o SIM. Este sistema conecta um grupo de unidades monográficas autônomas que planejam e estabelecem metas, verificando possibilidades e oportunidades de aperfeiçoamento e desenvolvimento conjunto. O SIM está integralmente inserido na estratégia de revitalização urbana da cidade de Belém, um processo dinâmico com surpreendentes resultados ao longo de quase uma década, envolvendo diferentes modelos de gestão e compartilhando interesses públicos e privados.

Também próximo da nossa realidade, um caso no Mercosul que envolveu as áreas da cultura e do turismo desde os anos 90. Um projeto regional que buscou fomentar alternativas para o desenvolvimento sócio-econômico baseado na valorização dos sítios e remanescentes das missões da antiga Província Jesuítica do Paraguai.

O tema das Missões foi considerado como o tema principal no projeto de integração do Mercosul, considerando o grande potencial da própria história enquanto atrativo ou produto.
A formulação do projeto envolveu representações governamentais [3], das comunidades, de operadoras turísticas e empreendedores da região. O resultado abrangeu sítios arqueológicos declarados patrimônio mundial, alguns museus e novos centros de documentação e interpretação. Para unir os diferentes pontos foi definido um Circuito Turístico Internacional, homologado em 1996 como uma Rota Cultural pela Unesco.
Considerando tratar-se de uma mesma história que deixou testemunhos materiais arqueológicos, arquitetônicos e artísticos semelhantes, além de significativas referências imateriais em diferentes países, foram definidas estratégias comuns para seu tratamento e apresentação. Tratava-se de abordar a unidade com diversidade; buscando, a partir da pesquisa, definir um foco para cada sítio, estruturando uma hierarquia no circuito.

Decorrentes desse processo foram construídos três centros de interpretação nas missões da Argentina e está em andamento a renovação da expografia do Centro Referência de Santo Inácio Mini. No Brasil, foi desenvolvido o projeto do Centro de Documentação e Pesquisa para São Miguel das Missões, construíram-se as portarias de acesso aos sítios arqueológicos e estão sendo implantados seus projetos interpretativos. O Uruguai passou a integrar o Circuito com a Colônia de Sacramento e com suas estâncias jesuíticas.
Pouco a pouco foram surgindo novos projetos. O Paraguai recentemente abriu o seu museu interativo do Mundo Guarani, na foz do rio Iguaçu, em Ciudad del Este. O Brasil está implantando novos circuitos especializados, envolvendo aspectos culturais específicos, abrangendo diversos municípios.

Com o início da operação, a região começou aperfeiçoar sua rede hoteleira e os sistemas de sinalização rodoviária. E os órgãos responsáveis pelos sítios definiram estratégias integradas para a conservação com o apoio de diferentes agências de cooperação internacional dentre os quais cabe destacar o “Programa de Capacitação para a Conservação, Gestão e Desenvolvimento Sustentável das Missões Jesuíticas dos Guaranis”, uma iniciativa da Unesco e do World Monuments Fund.

Diferentemente das anteriores, essa articulação não responde a uma única coordenação e reflete a realidade político-administrativa dos nossos vários países onde a sistemática descontinuidade política é característica em programas, projetos, recursos humanos e investimentos. Alguns avanços, muitos retrocessos, uma eterna re-invenção da roda.

***


Programas e projetos articulados, integrando interesses de diferentes naturezas, envolvendo parcerias públicas e privadas, vinculados por links em pólos, núcleos ou redes, em busca de objetivos comuns, constituem o que se denomina no urbanismo estratégico de operações estrela [4]. Típicos empreendimentos consorciados que avaliam potencialidades, somam oportunidades e buscam implementar alternativas para a estruturação, recuperação ou desenvolvimento de cidades, setores, regiões ou países.

O que temos assistido – e na medida do possível incentivado – é que os museus, cada vez mais, por tudo o que podem representar, estão sendo integrados no centro destas estratégias de planejamento contemporâneo - como eixos ou hubs. Suas estruturas arquitetônicas, em algumas situações, assumem papel fundamental, como no caso de Bilbao, onde o propósito era transformar uma cidade de certa forma isolada em uma metrópole com referência mundial, o que de certa forma foi conseguido.

No Mercosul fica evidente, e diferentes consultorias internacionais já reiteraram, o potencial e a oportunidade de se consolidar esta operação regional. Uma operação estrela na qual a área museológica tem grande papel a desempenhar, estruturando condições para acessar, apresentar, fazer brilhar e com isto multiplicar os tesouros da herança cultural jesuítico-guarani – recuperando passado e presente - em suas múltiplas faces.
Luiz Antônio Bolcato Custódio é arquiteto e professor universitário. Mestre em Planejamento Urbano e Regional. Ex-Diretor Regional e Diretor Nacional de Promoção do IPHAN; Ex-Representante do Ministério da Cultura na Comissão de Patrimônio do Mercosul. Presidente do Comitê Brasileiro do Conselho Internacional de Museus.

Notas
[1] Neste artigo não entraremos no mérito de questões específicas da museologia referentes às unidades citadas, mas em sua interface com os contextos onde se inserem, como equipamentos urbanos.
[2] Publicação: ICOM News, Vol. 57, No. 1, 2004. Tema: Universal Museums.
[3] Conforme registros em Atas das Comissões Técnicas Especializadas do Mercosul. Arquivos Minc/IPHAN.
[4] SPRECHMAN, Thomas. In DOMINO (Arquitectura, Urbanismo), Nº. 2 - Facultad de Arquitectura, Universidad de la República. Montevidéu, Uruguai, 1998.
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