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Reportagem
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Museus incorporam alternativas voltadas a deficientes para democratização do conhecimento
Patricia Mariuzzo
Deficiente visual manipula peça do projeto A Célula ao alcance da mão, do Museu de Morfologia da UFMG. Foto: Divulgação.

Tudo começou em 1989 numa sala de aula do curso de fisioterapia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Luiz Edmundo Costa estava com dificuldades de acompanhar as aulas de citologia e histologia. Ele é deficiente visual e as aulas exigiam a observação de imagens ao microscópio. A ausência de material didático especial e de literatura em braille motivou professores e alunos a buscarem alternativas para que Luiz Edmundo, hoje fisioterapeuta no Hospital Oftalmológico da UFMG, compreendesse os conteúdos apresentados nas aulas. A solução veio com a confecção de pranchas nas quais o material biológico era reproduzido através de desenhos em relevo, que permitiam o reconhecimento de formas, dimensões, proporcionalidade e localização das células. Do sucesso da iniciativa veio o desejo de ampliar a experiência para outros deficientes visuais, visando tornar mais lúdico, atraente e integrador o ensino de ciências e biologia. Nascia o Museu de Ciências Morfológicas (MCM) da UFMG. Aberto ao público desde 1997, o Museu é um centro de educação de ciências da saúde.

A metodologia do MCM propõe o estudo do organismo humano em seus diferentes níveis, de forma interativa e estimulante, explorando sentidos como tato e audição. Os modelos tridimensionais e em relevo representam uma célula, todos os tipos de tecidos, fases do desenvolvimento embrionário e fetal, órgãos e sistemas orgânicos humanos, em dimensões próximas do natural ou ampliadas, visando facilitar a compreensão de cada estrutura. "A inclusão de pessoas com necessidades especiais de aprendizado nas atividades do MCM não se restringe à acessibilidade ou a programas especiais e esporádicos. Ela tem sido fruto do desenvolvimento de atitudes de acolhida no dia a dia, da busca concreta de soluções para os problemas surgidos e compartilhamento dos resultados alcançados, da abertura para um novo e continuado aprendizado com o diferente", afirma Maria das Graças Ribeiro, coordenadora geral do Museu.

Um curso de morfologia humana aberto à comunidade

Voltado inicialmente para as necessidades dos deficientes visuais, os modelos expostos no museu foram finalizados na cor branca. O reconhecimento das peças podia ser feito através de suas diferentes texturas, relevos, cavidades, concavidades. Legendas explicativas em braille facilitavam sua compreensão e possibilitavam o trânsito relativamente independente do público-alvo. Mais tarde, com objetivo de facilitar a compreensão da constituição do organismo humano para todos os tipos de público, optou-se por colorir as peças, levando em conta a diferenciação das estruturas também através da forma e das cores. "Com isso passamos a atender estudantes com visão sub normal, com déficit de aprendizagem e tantos outros, facilitando a identificação dos órgãos e a fixação da aprendizagem também por processo associativo", explica Ribeiro. O público do Museu é formado principalmente pelos alunos do Departamento de Morfologia do Instituto de Ciências Biológicas da UFMG e pelos estudantes do ciclo básico de escolas públicas e privadas.

Para os deficientes visuais, o estudo de ciências têm sido, quase sempre, restrito à audição de fitas, gravadas por familiares, amigos ou voluntários. Essa forma de aprender afasta os estudantes com deficiência visual dos demais colegas e desestimula o seu aprendizado. Segundo Maria das Graças Ribeiro, os poucos deficientes visuais que conseguem chegar ao ensino superior não encontram aparato à sua formação profissional, como bibliografia em braille, material didático para as aulas práticas, oficinas e laboratórios adequados. A Coleção Didática de Modelos Biológicos Tridimensionais foi desenvolvida para atender às especificidades desse público, mas não se destina só a ele. "Trata-se de um material didático de uso universal no ensino de ciências. O MCM propõe que esses estudantes estejam nos laboratórios de ensino de ciências junto com os colegas que podem enxergar", afirma ela. O Museu utiliza também um sistema de áudio-descrição das peças, destinado a todos os estudantes, possibilitando o debate simultâneo do conteúdo e a utilização de ambas as mãos na exploração dos modelos biológicos criados. "Queremos que a interatividade exercitada nos laboratórios de ciências seja levada a outras áreas, ampliada na escola e levada para além dela, com a mesma naturalidade", completa a professora.

O museu vai até você

Paralelamente ao grande desafio que representa o processo de inclusão de pessoas portadoras de necessidades especiais no mundo dos museus, outros projetos buscam a popularização do conhecimento científico por meio dessas instituições. Um dos mais recentes exemplos desse tipo de iniciativa é o Museu de Ciência e Tecnologia, (http://www.museuvirtual.unb.br) lançado pela Universidade de Brasília (UnB) em março deste ano. Para Gilberto Lacerda, professor da Faculdade de Educação e idealizador do projeto, não se trata de substituir o museu presencial pelo virtual. "Um convida para o acesso ao outro", diz ele. "A principal vantagem do museu virtual é estender a capacidade de atuação da universidade junto a públicos-alvo distantes, que não podem vir até o museu real", acredita. A idéia do Museu de Ciência e Tecnologia da UnB é ser mais do que um site com fotografias do acervo. Segundo Lacerda, enquanto o portal institucional da universidade permite que se obtenha informações sobre seus acervos, o museu na internet permite que eles sejam visitados virtualmente. Para cada coleção exposta, será produzido um material de apoio que ajudará o visitante a contextualizar melhor o assunto.

A exposição inaugural é intitulada "Cerrado: patrimônio dos brasileiros". Foi organizada pela bióloga Shirley Hauff, especialista em conservação da natureza. A próxima será sobre embriologia humana, montada com base na coleção de fetos in vitro do acervo de anatomia da Faculdade de Medicina da UnB. "Os temas são escolhidos em função da demanda da comunidade, do interesse de algum patrocinador e da disponibilidade de conteúdo sobre o assunto", explica Lacerda. O Museu de Ciência e Tecnologia também oferecerá atividades educativas de apoio para professores e alunos da rede pública de ensino. Os educadores poderão aprender a montar uma feira de ciências na escola ou como montar uma pequena coleção geológica a partir de pedras da sua região, fazer uma maquete do sistema solar, um insetário ou um terrário. "É um trabalho de iniciação científica da população", acredita Lacerda.

Outra proposta de ensino interativo é conduzida pela PUC do Rio Grande do Sul no Promusit, Projeto Museu Itinerante. Exposições com experimentos interativos, oficinas com kits pedagógicos, palestras, conferências, shows, demonstrações interativas e lúdicas, fazem parte da programação. O Promusit é, na verdade, um caminhão que se transforma num moderno auditório com ar condicionado, equipamentos de áudio, home theater, internet no qual são transportados 60 experimentos e dezenas de kits pedagógicos para o desenvolvimento de oficinas e mini-cursos. Em cada viagem uma equipe com 12 professores, 10 técnicos e 10 estagiários segue com o caminhão. O diretor do Museu e coordenador do Projeto, Jeter Jorge Bertoletti, salienta que a iniciativa permite difundir o sistema de aprendizagem dinâmico que já existe no Museu de Ciência e Tecnologia da PUC em Porto Alegre, promovendo a participação dos visitantes pela interação com os experimentos. "Além disso, combina o processo de popularização da ciência com a educação inicial e continuada de professores da área científica, visando preparar os atuais e futuros docentes para o envolvimento neste processo", diz ele.

O Promusit existe desde outubro de 2001 e já visitou 67 municípios, quase todos situados no Rio Grande do Sul. Cerca de 1,5 milhão de pessoas conheceram e participaram do projeto, com média de 21 mil visitas em cada município. Apenas em 2005 a visitação somou 787 mil pessoas. "Com o Promusit podemos atingir um público que não teria condições de pagar pelo deslocamento e ingresso até o Museu de Ciências e Tecnologia (MCT) da PUC-RS. Estamos propiciando uma socialização maior do conhecimento científico", acredita Jeter. As oficinas e cursos são direcionados especialmente a professores. Segundo Jeter, a proposta é aprofundar o domínio do conteúdo científico e propor também novas alternativas de atuação docente. "O MCT tem conseguido levar aos sistemas municipais de ensino iniciativas de reconstrução curricular nas escolas, com valorização da educação científica e da educação ambiental. Conseguimos, ainda que de modo incipiente, levar para as escolas os resultados de pesquisas realizadas na universidade", diz ele.

Direito de ir e vir
A Constituição Federal dá o direito de ir e vir a todos os brasileiros. Para que esse direito seja exercido por todos é necessário que as construções sejam adaptadas para as pessoas portadoras de deficiência. Existem padrões e critérios que visam propiciar, às pessoas portadoras de deficiência, condições adequadas e seguras de acessibilidade autônoma a edificações, espaço, mobiliário e equipamento urbanos. As áreas de circulação devem ter superfície regular, firme, estável e anti-derrapante, sob qualquer condição climática, admitindo-se inclinação transversal da superfície de até 2%. Recomenda-se a utilização de faixas de piso com textura e cor diferenciadas, para facilitar a identificação do percurso pelas pessoas portadoras de deficiência sensorial visual. Sempre que houver mudança de inclinação ou de plano, aplicar tratamento diferenciado do piso, para facilitar indicação e identificação de tais transições.



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