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Reportagem
Imagens do inconsciente: ciência e arte
Tombado pelo Iphan em 2003, o acervo do Museu de Imagens do Inconsciente é o único a articular arte e pesquisa sobre esquizofrenia
Carolina Cantarino
Único no Brasil e no mundo, a trajetória do Museu de Imagens do Inconsciente se confunde com a vida de Dra. Nise da Silveira. Seu pensamento e sua obra poderão ser visitados a partir do dia 29 de junho, quando o museu inaugura a exposição "Nise da Silveira: caminhos de uma psiquiatra rebelde". Localizado no bairro Engenho de Dentro na cidade do Rio de Janeiro, o Museu de Imagens do Inconsciente foi fundado pela psiquiatra em 1952. Além de exposições, realiza ateliês de pintura, atividades de ensino, pesquisa e preservação das imagens produzidas por aqueles que vivenciam misteriosos mergulhos no inconsciente.

O conjunto de suas coleções é reconhecido pelo seu valor artístico e científico. Por conta disso, o tombamento de uma parte do acervo do museu foi aprovado pelo Conselho Consultivo do Iphan em agosto de 2003. “A estrutura do museu possuía, até então, um caráter amadorístico. A partir do tombamento, temos uma outra estrutura, que se reflete na preservação e num melhor acondicionamento das obras. Investimos na identificação e catalogação do acervo e a informatização também ganhou fôlego”, afirma Eurípedes Júnior, vice-diretor do museu.

A proposta de tombamento foi feita pela Sociedade de Amigos do Museu com o apoio da Coordenação Geral de Documentação e Informação do Ministério da Saúde. O objetivo era preservar as obras realizadas, desde 1946, por pacientes do Núcleo de Terapia Ocupacional do Centro Psiquiátrico Pedro II do Rio de Janeiro. O acervo tombado pelo Iphan compreende oito coleções individuais e uma coleção que reúne 6 autores. Foram tombadas 53.133 obras do acervo diretamente referente a Dra. Nise da Silveira, que conta com 128.909 itens. No total, existem 351.502 obras abrigadas no Museu de Imagens do Inconsciente ao longo dos seus 54 anos de existência.

O grande número de criações que compõem o acervo é explicado pela necessidade das coleções reunirem todas as séries de obras realizadas por cada paciente. “Se uma série for desfalcada de uma só imagem, sua compreensão ficará comprometida. Nesse sentido, o tombamento realizado pelo Iphan auxilia na manutenção das coleções, evitando que as obras se dispersem”, lembra Eurípedes Júnior ao ressaltar uma das principais funções do museu: a pesquisa científica. Desde sua criação, o museu constitui um espaço importante para o desenvolvimento de estudos nas mais diversas áreas como antropologia, psicologia, psiquiatria e história da arte.

Segundo o vice-diretor do museu, o tombamento trouxe mais segurança para a manutenção do acervo. Diante do enfrentamento de dificuldades financeiras por parte de alguns pacientes, houve quem fizesse sugestão para que o museu comercializasse suas obras. A equipe se opôs imediatamente a essa idéia, que contraria seus objetivos. “Os trabalhos produzidos aqui devem ser considerados como documentos relativos a um tratamento terapêutico e não obras de arte” enfatiza Eurípedes Júnior.

Apesar de pertencer institucionalmente ao Ministério da Saúde, com a municipalização dos hospitais do Rio de Janeiro o Museu de Imagens do Inconsciente está sob administração da prefeitura da cidade. Por conta disso, segundo Eurípedes Júnior, o museu enfrenta problemas relativos a recursos humanos e a um quadro reduzido de funcionários.

Arte

Crítica em relação aos tratamentos psiquiátricos vigentes nos anos 1940 como a lobotomia, o eletrochoque e o coma insulínico, a psiquiatra Nise da Silveira (1905-1999) criou, em 1946, o Serviço de Terapêutica Ocupacional no Centro Psiquiátrico Pedro II, no Rio de Janeiro, que abrigava cerca de 1500 internos, em sua maioria esquizofrênicos crônicos. Os ateliês de desenho, pintura, modelagem, xilogravura permitiam aos doentes que criassem livremente suas obras, de modo espontâneo e sem qualquer tipo de interferência.

A proposta terapêutica era a de que, por meio da arte, o esquizofrênico pudesse representar o seu mundo interno e se comunicar, possibilitando aos pacientes que suas imagens do inconsciente encontrassem formas de expressão e oferecendo também ao estudioso um meio de acesso ao mundo interno dessas pessoas.

Três meses depois de inaugurado o primeiro ateliê, as obras saíram do espaço do hospital e a grande surpresa das primeiras exposições foi a valorização estética e artística e o reconhecimento como obras de arte que as criações dos pacientes tiveram. Do grupo reunido no primeiro ateliê de Dra. Nise da Silveira é que surgiram Fernando Diniz, Emygdio de Barros, Raphael Domingues, Adelina Gomes, Isaac Liberato, Carlos Pertuis e Octávio Ignácio cujas obras fizeram parte da primeira exposição, realizada em 1946, no Centro Psiquiátrico Nacional. Mais tarde, a mostra foi transferida para a sede do Ministério da Educação e, nesse momento, despertou o interesse de críticos de arte como Mário Pedrosa e Leon Degard (então diretor do Museu de Arte Moderna de São Paulo) que, em 1949, foram os responsáveis pela curadoria da exposição “9 artistas de Engenho de Dentro” realizada na Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Uma pequena biografia e algumas obras das coleções desses primeiros artistas podem ser visitadas no site do Museu de Imagens do Inconsciente.

A partir daí seguiram-se mais de cem exposições no Brasil e no exterior, assim como participações em congressos internacionais de psiquiatria, ressaltando-se, mais uma vez, o caráter científico e artístico das coleções do museu. Participações mais recentes, como o módulo “Imagens do Inconsciente” na Mostra do Redescobrimento, realizada no Ibirapuera, em 2000, e no Ano do Brasil na França, em 2005, fizeram com que as coleções do museu entrassem, definitivamente, para a história da arte no Brasil e no mundo.

Embora a Dra. Nise da Silveira focalizasse as questões terapêuticas e científicas levantadas pelas obras criadas por seus pacientes, João Frayse-Pereira, do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP) lembra que a paixão pela arte e o diálogo com a crítica de arte de melhor extração no Brasil deram suporte à psiquiatra para deslocar a problemática da loucura em geral, e da esquizofrenia em particular, do campo da psicopatologia médica para o campo da cultura.

Citando o pintor Jean Dubuffet – que, em 1945, lança a idéia da “arte bruta” (art brut) para qualificar artisticamente a criação de não-profissionais, sobretudo de psiquiatrizados – Frayze-Pereira acredita que mais do que um núcleo de pesquisa em esquizofrenia, o Museu de Imagens do Inconsciente inaugura um campo de sentidos em que arte, psicologia e política se articulam. “Nas composições desses artistas, cujo diagnóstico é freqüentemente sem esperança (esquizofrenia incurável), cumprem-se as duas exigências da arte: “ser a destruição da comunicação comum e ser a criação de uma outra comunicação”. Isto é, ser a instauração de uma comunicação incomum”, lembra o psicólogo em artigo publicado na revista Estudos Avançados.

A principal ferramenta para a compreensão das imagens produzidas pelos internos veio do diálogo com a psicologia de Carl Jung. Além da produção das imagens, um ambiente favorável e afetuoso era importante para o processo de cura dos pacientes. Cães e gatos - considerados pela Dra. Nise da Silveira como “co-terapeutas” - sempre estiveram presentes.

Com a intenção de transformar o tratamento psiquiátrico – restrito, então, aos asilos e instituições hospitalares - é que a Dra. Nise criou a Casa das Palmeiras, em 1956, a primeira iniciativa no Brasil a demonstrar a viabilidade do tratamento terapêutico em regime de portas abertas. A experiência inaugurou uma nova política de saúde mental que se espalhou, através de iniciativas semelhantes em outros lugares do Brasil, fortalecendo-se, assim, a luta pela reforma manicomial.

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