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Reportagem
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Museu da Pessoa trabalha com a micro história, capaz de demolir preconceitos e trazer a visão do outro
Patricia Mariuzzo
Cláudia Lage Botelho aos 5 anos com irmã, Maria Eleonídia e a mãe, Maria Helena. Crédito: Acervo Museu da Pessoa

Ser um lugar onde qualquer pessoa pode eternizar sua história de vida. Esta é a missão do Museu da Pessoa. Criado em 1991, com metodologia própria para o registro de depoimentos, a instituição formou um acervo pioneiro com histórias de vida, fotos e documentos, transformando a memória em estratégia de valorização das pessoas. Após quase 15 anos de atuação o projeto foi implantado também em Portugal, Estados Unidos e Canadá e se desdobra hoje na iniciativa chamada Brasil Memória em Rede, que tem por objetivo constituir acervo histórico a partir de grupos e segmentos de todo o país.

A idéia original surgiu entre 1988 e 1991 quando Karen Worcman, uma das fundadoras do Museu da Pessoa, coordenava o projeto de história oral na pesquisa "Heranças e lembranças: imigrantes judeus no Rio de Janeiro", que resultou em 200 horas de depoimentos gravados. "O impacto positivo sobre os entrevistados, que puderam reconstruir sua história de vida e ter pessoas escutando e valorizando essa vivência, assim como a percepção da riqueza das histórias levaram-me a pensar na possibilidade de constituir um espaço voltado para que toda e qualquer pessoa pudesse ter sua história de vida preservada e parte de um conjunto de informações que constituísse uma fonte diferenciada para a construção de nossa memória social", conta Worcman.

Uma abordagem histórica tradicional baseada em documentos ou objetos da vida privada depende da articulação de quem os interpreta para adquirirem significado histórico. A história do indivíduo tem uma lógica diferente. "É a micro história, capaz de demolir preconceitos e trazer a visão do outro", argumenta Karen Worcman. Segundo ela, os depoimentos trazem as particularidades de cada um, diferentes visões e interpretações sobre momentos históricos comuns, além da emoção. "Cada pessoa é única e sua experiência de vida traduz essa unicidade, ao mesmo tempo somos sempre seres históricos. Somos uma intersecção entre nosso momento histórico e a nossa forma particular de filtrá-lo e vivenciá-lo", afirma ela.

A proposta de constituir um portal de memória pode ser integrada a um processo mais amplo iniciado a partir da década de 60 em vários países em favor da democratização das instituições políticas, educativas e culturais. Segundo José Cláudio Alves de Oliveira, pesquisador de cibermuseus da Universidade Federal da Bahia, foi a partir daí que começaram a ocorrer transformações substanciais nos museus, tendo o público como centro das preocupações. "Eco-museus, Museum Bus e museus comunitários surgiram como formas museísticas mais dinâmicas para aproximar os acervos a comunidades de todos os tipos", explica ele. Ao mesmo tempo em que se discutia a função social do museu, ocorria uma ampliação da noção de patrimônio cultural onde predomina a noção de pluralidade da memória. "A demanda de diferentes grupos pela comunicação e preservação de testemunhos de sua história traz a questão de como o museu pode incorporar essa tendência à expansão do patrimônio, sem no entanto, concorrer para a banalização da memória social, ecologia, história natural, tecnologia, arte e de todas as categorias de acervo e dados que o museu conserva, processa, comunica e divulga", acredita o pesquisador. Para ele o Museu da Pessoa propõe algo mais extenso do que os museus comunitários já que estes trabalham com a história de determinada localidade. "O Museu da Pessoa compartilha histórias, lugares e situações sociais diversas, de maneira mais rápida, com qualquer cidadão do mundo", diz.

Como fazer carne-de-sol

"Nós fomos morar num bairro chamado Caixa Dágua, bairro que passava o trem que ia para Ilhéus, comunicava Itabuna e Ilhéus. Eu comecei a vender verdura cedo, que uma vizinha que ajeitava um tabuleiro de verduras e me dava para vender. Ela me dava 20% da participação do negócio. Eu já saía sem café, pois era muito cedo. Eu saía vendendo e aí, quando vendia alguma coisa, passava na estação de trem de Itabuna e tomava o café. Tinha um bolachão grande que eu apelidava de "mata fome", com um copo de mingau, aí eu tomava o meu café. Depois eu vendia jornal, ia matar porco com o vizinho que matava porco, trabalhava na feira. Eu comecei armar barraca para ele também. Ele tinha um filho que fazia carne-de-sol, eu ia para as fazendas matar boi e fazer carne-de-sol com ele. Você mata a rês, tira o couro, disposta, tira os ossos da carne e aí você corta as partes - chã-de-dentro, chã-de-fora e patinho. Você abre, põe sal grosso, põe em gamelas grandes, vasilhas grandes, dorme de um dia para o outro. No dia seguinte você expõe, você põe ela secando, pega um dia de sol. Aí você pega, guarda, isso é um dia, dois dias antes da feira. É uma carne que você tem que vender rápido."

O depoimento acima faz parte da exposição "Cabras da peste - histórias de nordestinos". Esse conjunto de depoimentos pode ser visto como um exemplo de uma demanda de um grupo, no caso os imigrantes nordestinos, de registrar sua experiência. A história foi contada por Pedro Passos da Silva que nasceu em Saúde, na Bahia, em 1939. O portal do Museu da Pessoa dispõe de cinco possibilidades para inserção de material que passarão a fazer parte do banco de dados. Todo o conteúdo é moderado pela equipe de edição. Depois disso o internauta é avisado e sua história fica disponível para consulta gratuita. "Esse material é aproveitado quando o disponibilizamos contextualizados em nossos especiais temáticos, por exemplo "Cabras da Peste", que conta a história de nordestinos. Além disso, todas as histórias podem ser localizadas pela nossa busca, que não é feita só por nome, mas também por palavra, origem, profissão, projeto, gênero e nascimento. Elas também estão classificadas em ordem alfabética na nossa seção de acervo", explica a historiadora Rosali Henriques, coordenadora do acervo do Museu da Pessoa. Ela conta ainda que as pautas são decididas pela equipe editorial e, em geral, têm relação com o calendário ou com ações e questões atuais que estão sendo discutidas pelo Museu. "Planejamos trabalhar mais fortemente com questões de impacto social e usar também o portal e a seção "Conte sua história" como instrumento de promoção da cidadania", completa.

História de um, história de todos

Além dos depoimentos individuais coletados através do portal na internet, o Museu da Pessoa desenvolve projetos em parceria com instituições e empresas. Um exemplo entre os 50 projetos já desenvolvidos em todo o Brasil é o "Um balcão na capital - memórias do comércio da cidade do Rio de Janeiro, iniciativa do Sesc Rio, que fala sobre o desenvolvimento social, econômico e cultural do Rio de Janeiro sob a ótica dos comerciantes da cidade. Conforme explica o texto de apresentação do projeto, entre 2002 e 2003, a equipe do museu realizou uma extensa pesquisa documental e iconográfica sobre o comércio no Rio de Janeiro e foi em busca de seus personagens. Baseando-se em critérios variados - como localização geográfica, ramo de atividade, pioneirismo, inovação - chegou a uma lista final de 41 personagens. Seus depoimentos de vida foram registrados em vídeo, transcritos e editados e, juntamente com fotos e documentos, passaram a integrar a rede de histórias do Portal Museu da Pessoa tornando-se protagonistas de um site específico sobre o tema. "Fazemos a manutenção editorial do site mensalmente, com o destaque de novas histórias e outros conteúdos como artigos e textos relacionados à história dos bairros cariocas", conta Ana Paula Valeriano, que trabalha na edição dessas salas virtuais. O projeto deu origem também a um livro e a exposições presenciais.

Chapelaria Porto, em 1932. Tradicional estabelecimento do centro do Rio de Janeiro, ainda em funcionamento.

Crédito: Acervo Museu da Pessoa


Um desses personagens do comércio carioca é Cláudia Lage Botelho que nasceu em setembro de 1949, em Vila Real, Portugal. Ela chegou ao Brasil ainda criança junto com a família que desistiu de viver em Portugal durante a ditadura de Salazar. Formou-se em direito, mas especializou-se no comércio de flores. Hoje é paisagista e proprietária de boxes na Rua do Verde e na Travessa das Flores, no Centro do Rio de Janeiro. "É muito interessante perceber como cada pessoa registrou um determinado período histórico e como a sua memória se molda pelo meio em que estava inserido naquela época. O portal nos dá a feliz oportunidade de trabalhar com uma grande quantidade de significados e também nos oferece a possibilidade de dar mais um passo na democratização e disseminação dos saberes de todas as pessoas. As histórias, é claro, remetem às nossas próprias histórias, ao mesmo tempo em que nos mostram o cotidiano de outras realidades. O importante, no nosso caso, não é fato, mas como o nosso personagem vivenciou aquele fato, ele é a figura mais importante", comenta Henriques.

A iniciativa Brasil Memória em Rede, lançada em 2004 pretende difundir e promover o uso do patrimônio imaterial do país e também contribuir com a formulação de políticas sobre essa temática. Para isso está conectando diferentes iniciativas e projetos no país. Já estão participando da Rede representantes da Unesco no Brasil, do Instituto de Pesquisas e Projetos Sociais e Tecnológicos, IPSO, Instituto Ethos, Iphan, Unirio, Senac, Fundação Avina, Centro de Estudos da Oralidade da PUC São Paulo e outros. Empresas como Petrobrás e Natura, além da Aberje, Associação Brasileira de Comunicação Empresarial também aderiram ao projeto.

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