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Reportagem
De arqueologia a patrimônio
Valorização do patrimônio industrial começou na Europa, por meio da arqueologia industrial
Rafael Evangelista
Desenho de 1837 da Estação Euston, em Londres

Nem sempre belas, às vezes ocupando grandes espaços em terrenos caros e muitas vezes pouco estimadas pela vizinhança, as instalações e áreas industriais dificilmente são imaginadas como algo a ser preservado, estudado e valorizado. Desde a década de 1960, contudo, alguns grupos de pesquisadores têm se empenhado em mostrar como tanto os bens materiais como imateriais produzidos pelas indústrias são importantes para se entender não só a dinâmica da produção material mas também as relações históricas e sociais que se desenvolvem em torno dela.

De acordo com a arquiteta Gabriela Campagnol, os primeiros a se interessarem pelo tema patrimônio industrial foram os britânicos, sob a rubrica arquitetura industrial. “Há uma diversidade de estudos onde o patrimônio industrial se encontra correlacionado a esse termo, na verdade, uma área de conhecimento que nasceu da necessidade de estudo e preservação dos testemunhos industriais ameaçados”, afirma. Segundo ela, isso se deveu, entre outros fatores, à destruição de instalações industriais causadas pela Segunda Guerra Mundial e a conseqüentes transformações urbanísticas. “A princípio, o interesse britânico se concentrou nos exemplares oriundos dos tempos da chamada Revolução Industrial, entre 1760 e 1830. A destruição de importantes testemunhos dessa época implicou na preocupação com a preservação de monumentos e artefatos relacionados à indústria”, explica.

O interesse histórico inicial por esses objetos e instalações acabou por abrir os olhos dos pesquisadores para a beleza e as qualidades, arquitetônicas e culturais, de certas instalações industriais. Em sua dissertação de mestrado, intitulada “Preservação do patrimônio industrial na cidade de São Paulo: o bairro da Mooca”, Manoela Rufinoni afirma que “o gradadivo entendimento dos remanescentes das atividades produtivas como documento histórico de interesse, surge atrelado à valorização da história industrial como parte integrante da herança cultural. A atribuição de valor histórico, por sua vez, alavancou análises mais precisas desses artefatos, possibilitando a evidenciação de atributos estéticos e simbólicos até então negligenciados”.

Rufinoni aponta a mobilização para se tentar salvar a Estação Euston, em Londres, em 1962, como marco na conscientização do público sobre o valor do patrimônio industrial. Essa estação intermunicipal foi a primeira a ser construída naquela cidade e, mesmo com os protestos públicos, foi demolída e reinaugurada completamente desfigurada em 1968.

Mas, a partir desse momento, a Inglaterra - e a Europa em geral - tornou-se “líder” na preservação do patrimônio industrial. “O Centro e Arquivo Histórico da Mina de Bochum, na Alemanha, e a Fundação do Museu do Vale de Ironbridge, na Inglaterra, concebidos como são hoje são exemplos pioneiros desse processo de preservação do patrimônio industrial. O Museu da Mina de Carvão de Argenteau-Trimbleur na Bélgica, convertido num complexo turístico em 1980, o écomusée de Le Creusot- Montceau-les-Mines, do final dos anos 1970, e o Museu da Fábrica de Saint-Etienne, aberto ao público em 1989, ambos na França, também constituem exemplos de iniciativas positivas visando a proteção e uso do patrimônio industrial”, ilustra a arquiteta Campagnol.

No Brasil, o interesse pelo patrimônio industrial surgiu na mesma época, na década de 1960. Em 1964, o Iphan tombou os remanescentes da Real Fábrica de Ferro São João de Ipanema em Iperó, São Paulo. Campagnol aponta porém que, no campo teórico, o interesse surgiu mais tardiamente, em 1976, em estudo do historiador Warren Dean intitulado “A fábrica São Luiz de Itu: um estudo de arqueologia industrial”. “Embora a preocupação com o patrimônio industrial no Brasil seja comparativamente tardia, o país é um dos poucos a ter uma área industrial considerada patrimônio mundial. A cidade de Ouro Preto e suas minas foram listadas pela Unesco como patrimônio da humanidade”, afirma.

Beatriz Kühl, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, também lembra o caráter pioneiro do tombamento da Fábrica de Ferro São João de Ipanema mas aponta uma falta de continuidade dessas ações. “Esse tombamento poderia fazer antever caminhos pioneiros para a arqueologia industrial no Brasil; no entanto, iniciativas mais sistemáticas tardaram a ocorrer, sendo a tutela oficial de bens vinculados ao processo de industrialização bastante rara”, escreve ela em artigo para a Patrimônio.

No final do ano passado, o Iphan realizou outro tombamento importante na área do patrimônio industrial. Em 10 de novembro, foram tombados os bens móveis e imóveis do Pátio Ferroviário da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, em Rondônia. Foi a segunda ação do Iphan em direção à proteção de uma ferrovia tradicional. O único caso anterior tinha sido o tombamento do Complexo Ferroviário de São João Del Rei, em 1986.

Conceito e instituições

Do mesmo modo como a idéia sobre patrimônio de uma maneira geral vem se alargando, o conceito de patrimônio industrial significa mais do que apenas o antigo prédio onde funcionava uma determinada fábrica. “Ele não se limita apenas a um conjunto de bens arquitetônicos ou sítios cheios de objetos e partes de objetos interessantes. Uma vez que se detém sobre máquinas, equipamentos, instalações e imóveis onde se processou a produção industrial, o Patrimônio Industrial é também a recolha e o tratamento de um patrimônio técnico de uma sociedade e de uma comunidade, e esse processo está sempre em transformação. Nesse sentido, o patrimônio industrial permite a elucidação da transmissão de um saber técnico. Ele permite estabelecer, hoje, um elo entre as formas de produzir - o que envolve homens/mulheres e máquinas - e a cultura”, escreve o historiador da USP, Leonardo Mello, em artigo para a Patrimônio.

Segundo Manoela Rufinoni, um dos autores que contribuiu para que essa herança da indústria fosse reconhecida como patrimônio cultural foi Neil Cossons. Ela escreve que, para ele, “o crescimento do interesse pela arqueologia industrial é a repercussão não apenas de um movimento de reação contra a destruição de monumentos industriais relevantes, mas também a evidenciação de um sentimento subconsciente de perda que emerge frente à possibilidade de que uma nova economia, mais uma vez, destrua o existente para construir o novo, como aconteceu em outras etapas do desenvolvimento econômico mundial, notadamente nos períodos pós-guerra”.

Gabriela Campagnol também considera, entre outros, Cossons um dos principais teóricos e professores da arqueologia industrial. Ela aponta que ele, ao lado do francês Louis Bergeron, está entre os presidentes e fundadores do Comitê Internacional para a Conservação do Patrimônio Industrial (TICCIH). A conceituação mais recente de patrimônio industrial está na carta de Nizhny Tagil, documento produzido na reunião do Comitê, em 2003, na Rússia. “Nessa carta, afirma-se que não só os bens tangíveis são de fundamental importância como também os intangíveis. Também se valoriza não só o edifício isolado, mas seu entorno, os complexos industriais e a paisagem industrial”, comenta Campagnol. Segundo a carta de Nizhny Tagil, “O patrimônio industrial compreende os vestígios da cultura industrial que possuem valor histórico, tecnológico, social, arquitetônico ou científico. Estes vestígios englobam edifícios e maquinaria, oficinas, fábricas, minas e locais de tratamento e de refino, entrepostos e armazéns, centros de produção, transmissão e utilização de energia, meios de transporte e todas as suas estruturas e infra-estruturas, assim como os locais onde se desenvolveram atividades sociais relacionadas com a indústria, tais como habitações, locais de culto ou de educação”.

Desde 2004, atua uma versão brasileira do comitê, ligada ao internacional: o Comitê Brasileiro para Preservação do Patrimônio Industrial (TICCIH – Brasil). No mesmo ano de sua fundação o grupo organizou o 1º. Encontro Nacional sobre Patrimônio Industrial

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