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Reportagem
Vilas operárias: patrimônio ameaçado
Projeto de moradias populares tenta reverter situação de abandono em que se encontram as históricas vilas operárias de Campinas
Carolina Cantarino

Os lucros da economia cafeeira; a instalação das primeiras ferrovias; a intensificação da imigração; o início da industrialização. Todos esses fatores históricos que caracterizam a segunda metade do século XIX provocaram um padrão de ocupação urbana que alterou o perfil de pequenas e grandes cidades paulistas.

Regiões pouco povoadas ou mesmo com perfil ainda rural começaram a ser ocupadas, guiadas pela implantação de fábricas e indústrias ao longo da faixa da ferrovia. Próximas aos conjuntos industriais e às estações de trem surgiram as primeiras vilas e bairros operários.

A Vila Manoel Dias, por exemplo, que integra a Vila Industrial de Campinas (SP), começou a ser construída por volta de 1908, para os funcionários da Mogiana. A construção da estrada de ferro trouxe imigrantes para trabalhar nas oficinas dessa e de outras companhias ferroviárias como a Paulista. Outras fábricas – como as de equipamentos agrícolas e os curtumes – também se instalaram na região. Enquanto os grandes fazendeiros de café e suas famílias residiam em regiões da cidade consideradas nobres - como o bairro Cambuí ou mesmo o “centro histórico” da cidade - os ferroviários e operários habitavam as vilas e bairros localizados, então, na periferia da cidade.

Depois de quatro anos de discussões, o Conselho de Defesa do Patrimônio Artístico e Cultural de Campinas (Condepacc), em parceria com a Caixa Econômica Federal (CEF), iniciou intervenções para salvar, em caráter de urgência, casas da Vila Industrial. Por meio do Programa de Arrendamento Residencial (PAR) da CEF, 34 casas da Vila Manoel Freire, que intega a Vila Industrial, serão restauradas. A previsão é que as obras durem oito meses e que o programa seja depois estendido a outras vilas do bairro.

A Vila Industrial é composta por várias casas e vilas, dentre elas a Manoel Freire, que é tombada pelo Condepacc desde 1994. O tombamento não impediu que suas casas fossem totalmente degradadas. Desde o ano passado, cerca de 12 famílias ocuparam a vila e vivem em condições precárias, ameaçadas pelo risco de desabamento das casas.

A opção inicial do projeto de recuperação da vila é o morador. Não existe nenhuma intenção de se refazer o perfil da população local”, garante Daisy Serra Ribeiro, responsável pela Coordenadoria Setorial do Patrimônio Cultural, órgão ligado ao Condepacc e à Secretaria Municipal de Cultura de Campinas. “Há três semanas, houve uma reunião com as famílias que ocuparam a vila. São trabalhadores que, se quiserem permanecer no local após a restauração, poderão participar, através do arrendamento, da compra das casas”, afirma a historiadora.

O Programa de Arrendamento Residencial da CEF possui uma linha especificamente voltada para a recuperação de imóveis privados reconhecidos como patrimônio histórico. A Vila Manoel Freire foi comprada pela HM Construtora, empresa que será responsável pelas obras de recuperação. Depois de restauradas, as casas deverão ser vendidas, através da CEF, a preços considerados populares. “O arrendamento da CEF é voltado para a população de baixa renda, que poderá comprar a casa através de prestações que não deverão ultrapassar meio salário mínimo”, conta Daisy Ribeiro que ainda lembra que, segundo as regras do PAR, um proprietário não poderá adquirir mais de uma casa.

Memória

Formadas por pequenas casas geminadas, as vilas operárias costumavam ser regidas por rígidas regras de comportamento impostas por seus proprietários que nem sempre eram os donos das fábricas: muitas vilas pertenciam a imigrantes mais abastados que alugavam suas casas aos operários. O imigrante português Manoel Freire obrigava as moradoras de sua vila a freqüentar diariamente a missa na capelinha – já demolida. Costumava, também, “vigiar” os seus moradores através de uma abertura feita no telhado de sua casa.

Essas e outras histórias estão presente no livro Além do túnel, uma vila - Histórias e personagens do primeiro bairro operário de Campinas de Larissa Velasco. Através de depoimentos de 13 moradores antigos do local, a jornalista registrou fatos, lugares, pessoas, ruas e eventos que marcaram sua história. “Com a ajuda de uma antropóloga e uma historiadora, relacionei todos esses elementos com a história do surgimento do bairro e com o próprio conceito de bairro operário”, afirma Velasco. Parte de sua família reside na Vila Industrial, o que facilitou a descoberta e o contato com os personagens mais significativos do bairro.

Carnaval, futebol, igreja, infância e escola foram os temas mais abordados pelos entrevistados. Mas num bairro considerado “operário” não se fala sobre o passado na fábrica, as relações entre patrões e empregados ou a dura rotina de trabalho? “Todos os moradores com quem conversei disseram que gostavam dos seus respectivos trabalhos” lembra Larissa Velasco. “A proximidade das fábricas e estações ferroviárias com as vilas de moradia também foi interpretada de modo positivo. Existia a possibilidade de se almoçar em casa, com a família e de se conviver mais intensamente com os colegas de trabalho que também eram seus vizinhos”. A segregação do bairro operário pelo restante da cidade também fazia com que os seus moradores permanecessem isolados nos limites postos pela linha do trem.

Segregação

Além do túnel, uma vila é uma referência ao extenso túnel subterrâneo, inaugurado em 1915 e que faz a ligação entre a Vila Industrial e o centro da cidade de Campinas. Para Larissa Velasco, o título do livro também é “uma reposta àqueles moradores da cidade que costumam comentar: ‘a Vila Industrial é ‘distante’”. Mais do que uma distância física ou geográfica, o comentário expressa a desvalorização simbólica e material de um patrimônio histórico da cidade. A “distância” vira descaso e resulta em degradação.

Para a jornalista, a verdadeira revitalização da Vila Industrial depende, assim, de um trabalho de conscientização sobre sua importância junto à população de Campinas que, ainda hoje, a estigmatiza. “Desde sua criação, as vilas operárias de Campinas sofreram a discriminação dos moradores da cidade, por ser um lugar de pobres e operários e também pelo tipo de estabelecimentos que lá existiam como o matadouro municipal, curtumes e lazaretos. A Vila Industrial, hoje, está esquecida e é desvalorizada por uma grande parcela da população que nem sequer sabe da sua importância histórica e arquitetônica”, afirma a jornalista.

No dia 7 de dezembro de 2005 houve o lançamento dos 200 exemplares do livro e uma das casas mais representativas do conjunto da Vila Manoel Dias - conhecida como Castelinho - foi demolida devido ao risco de desabamento. “Agora a casa só existe na foto estampada na capa do meu livro”, lembra Velasco.

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