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Reportagem
Falência, ruínas e salvamentos
Crise financeira e fechamento das empresas, às vezes, causam perda da memória industrial. Interessadas em sua própria história e em bom marketing, algumas financiam projetos de salvamento
Patricia Mariuzzo
Aparício Rodrigues Filho, operário do Grupo Votorantim

"O meu nome é Aparício Rodrigues Filho. Nasci em Rio Branco do Sul, Paraná. Eu sou operador de guindaste. Eu comecei trabalhar em 28 de outubro de 1977. De motorista, eu passei para operador. Foi indo. Faz 26 anos. 26 anos de empresa. Naquele tempo tinha forno quatro ou cinco que tem ainda e moinho de farinha, tudo na fábrica um. A fábrica dois não existia ainda. Essa fábrica que a gente está aqui era uma vila, Vila Nova que eles falavam. A gente trabalhava mais solto e também sem segurança. Hoje você trabalha com mais segurança e você mais tranqüilo também. Antes não. Você não tinha esse negócio de uniforme, sapatão. Você vinha com os que você tinha".

O testemunho acima compõe o acervo de 270 depoimentos do projeto Memória Votorantim. Iniciado em 2002, já desenvolveu uma série de ações de preservação e memória, publicações, exposições, vídeos e campanha de histórias, com a missão de registrar, preservar e disseminar a memória do Grupo Votorantim. Essa foi a maneira que o grupo encontrou para tratar sua história, que se confunde com a história da industrialização brasileira. Entretanto, do mesmo modo que o conceito de patrimônio industrial é algo novo, esse tipo de iniciativa entre as empresas ainda está apenas começando.

Segundo a arquiteta Beatriz Mugayar Kuhl, (veja artigo neste número) preservação, conservação e restauração deveriam, por definição, estar vinculadas a ações culturais. Assim, questões de ordem prática, de uso, de exploração econômica, nunca seriam as únicas determinantes para decisões de preservação. Mas, quando se trata de patrimônio industrial, isso é ainda mais difícil.

No Brasil, o primeiro tombamento de patrimônio industrial pelo Iphan, ocorreu em 1964. O alvo foi o conjunto formado pelos remanescentes da Real Fábrica de Ferro São João de Ipanema, no município de Iperó. A justificativa se deu, no entanto, em primeiro lugar pela "importância de ali ter nascido, a 17 de fevereiro de 1816, o insigne historiador brasileiro Francisco Adolfo Varnhagem, Visconde de Porto Seguro". Depois, pela importância da fábrica para a história da indústria siderúrgica nacional. Na época, havia um projeto para criar, no local, um museu do ferro, idéia que não prosperou. Segundo a arquiteta Cláudia dos Reis e Cunha, que pesquisa o patrimônio cultural da cidade de Sorocaba, a restauração, na década de 1970, da Fábrica de Armas Brancas, que faz parte do conjunto tombado, visava adequá-la para essas instalações, mas o museu nunca foi criado. Hoje, o local é uma área de proteção ambiental e quem cuida da manutenção é o Ibama, sendo precária a conservação dos prédios.

Sorocaba, no interior de São Paulo, foi, durante todo o século XX, um importante pólo da indústria têxtil brasileira. As fábricas transformaram a face da cidade, substituindo construções de taipa pelas de alvenaria, fazendo surgir vilas operárias, aumentando a população, melhorando a infra-estrutura com rede de água, esgoto, energia elétrica, telefones e telégrafo, conferindo ritmo urbano à cidade. Hoje, os operários ainda estão lá, mas não é na cidade ou às margens da ferrovia que estão seus prédios. No século XXI, as indústrias de Sorocaba, assim como em muitas outras cidades brasileiras, estão afastadas do centro, localizando-se no Distrito Industrial. "As antigas fábricas desativadas não mais determinam os contornos de Sorocaba, ao contrário, já estão incorporadas ao centro urbano e ainda que a grande estrutura fabril continue de pé, permanece sem uso", afirma Cláudia dos Reis e Cunha.

Segundo a arquiteta, das seis grandes têxteis que funcionavam ali, duas, a Santa Maria e a Votorantim, foram demolidas, outras duas a Santo Antonio e a São Paulo estão abandonadas, já bastante deterioradas e ainda sem destinação. Os herdeiros dessas empresas tiveram que entregar as propriedades para leilão por conta de dívidas de impostos. Já acontecerem dois leilões da Santo Antonio, mas nenhum arrematante. Apenas uma das indústrias, a fábrica de tecidos Santa Rosália, foi aproveitada e hoje é ocupada por um supermercado. "Acredito que a transformação desses espaços não é apenas "um bom caminho", é o caminho inevitável. As antigas têxteis não têm condições de se manterem como espaços produtivos na sociedade atual, portanto é fundamental pensar em alternativas de uso que integrem novamente os espaços na vida da cidade. A grande questão não é tanto a destinação, mas como é feita essa adaptação para o novo uso. As intervenções têm que ser feitas mediante um bom e detalhado projeto de arquitetura, que leve em conta as especificidades do edifício antigo, que deve ser o foco central e não um mero "detalhe pitoresco". Infelizmente, na maioria dos casos, como no da Santa Rosália, as coisas são feitas sem o devido cuidado, ocasionando perdas irreparáveis às edificações", acredita Cláudia.

Os problemas que as antigas empresas de Sorocaba enfrentam ocorrem de modo geral, no estado de São Paulo, onde processo de falência, desmonte e conseqüentemente o descarte do patrimônio arquitetônico e histórico das indústrias ocorre principalmente pela quebra e endividamento causado por mudanças na política industrial e econômica, que geram inúmeros processos jurídicos contra a empresa. Henrique Vichnewski, arquiteto, pesquisou as indústrias Matarazzo, grupo que tinha mais de quarenta fábricas instaladas em trinta cidades do interior do estado. Ele explica que as atitudes tomadas frente aos processos de falência variam desde a venda de todo o conjunto de edificações, maquinários, etc para outra empresa dar continuidade à produção, até a venda somente das máquinas a empresas interessadas. "É comum todo o maquinário, estruturas metálicas em geral, o sistema de incêndio, tubulações serem vendidos como sucata a preços muito reduzidos, como ocorreu na Fiação e Tecelagem Cianê (antiga Matarazzo), em Ribeirão Preto", conta. "A venda integral desses complexos industriais, para incorporar novos usos, preservando ou não sua estrutura e tipologia formal original e exemplar é rara, principalmente diante da situação econômica e cultural do país, que cultua o "novo" e despreza os testemunhos da história", completa.

O fato desses processos jurídicos e fiscais ficarem entravados na justiça por anos faz com que, na maioria dos casos, essas indústrias fiquem muitos anos abandonadas. Assim, o tempo vai corroendo pouco a pouco importantes vestígios do patrimônio industrial brasileiro, e não se trata apenas das edificações. Conforme explica Vichnewski, a lentidão dos processos, aliada à pouca valorização dessas fábricas antigas enquanto parte integrante da história da industrialização, gera dois importantes problemas. Primeiro, a demolição de fábricas diante da crescente valorização de seus terrenos abandonados, que são vendidos para quitar as dívidas. Esse processo está atrelado tanto ao crescimento urbano da cidade em direção às regiões industriais periféricas, como também o aumento das atividades de comércio e serviços nos bairros industriais. Não menos importante é o abandono, desaparecimento ou acesso proibido aos arquivos e registros da história empresa. "Em alguns casos, esses documentos são abandonados em locais sujos, úmidos e misturados com substâncias tóxicas, na própria fábrica, acelerando seu processo de degradação. A razão desse abandono e falta de respeito com os arquivos documentais da indústria ocorre pelo medo de servirem como provas aos inúmeros processos abertos por ex-operários", acredita.

Guardando o que não pode ser esquecido

Enquanto alguns registros do patrimônio industrial brasileiro se perdem para sempre, algumas empresas começam a trabalhar com a chamada memória institucional. Freqüentemente, buscam ajuda profissional para colocar isso em prática. O Museu da Pessoa, que fica na cidade de São Paulo, já conduziu cerca de sessenta projetos com empresas de todo tipo e tamanho. "As empresas nos procuram perto de celebrações, em especial nos aniversários com datas redondas: 50, 60, 70 anos. São empresas preocupadas em registrar e preservar sua memória", conta a coordenadora dos projetos de memória institucional (PMI) do Museu, a historiadora e jornalista Cláudia Fonseca. Primeiro o Museu busca entender a demanda da empresa e sua cultura. Depois, busca avaliar a relação entre o trinômio tempo, equipe e produto e, então, sugere-se o tipo de projeto que se adapta ao que a empresa precisa. "É importante ressaltar que só realizamos projetos nos quais o patrimônio imaterial estará garantido, ou seja, se uma empresa nos procura e não deseja utilizar a visão de seus funcionários, não fazemos o projeto", enfatiza Fonseca. "É evidente que as empresas têm conflitos, mas o Museu tem tido sucesso ao explicar a importância da participação de todos na construção da uma história", completa. Assim, operários, diretores, serventes, fornecedores, clientes, aposentados são chamados a contar a sua história. O projeto com o Grupo Votorantim seguiu essa metodologia de trabalho.

O Memória Votorantim objetiva a implantação do Centro de Memória através de ações de resgate e preservação da história do Grupo. A construção do programa envolve a história dos funcionários e das comunidades nas quais a empresa está inserida. Ao mesmo tempo, promove um programa de pesquisa permanente, que inclui ações de preservação do patrimônio arquivístico e museológico. Hoje, o projeto conta com mapeamento de 30 mil documentos datados a partir de 1910, além de publicações de livros, revistas e relatórios, fotografias, filmes, manuscritos, discos, fitas magnéticas, mapas, gravuras, desenhos, cartazes, uniformes, medalhas, condecorações e equipamentos. Em processo de catalogação informatizada, o acervo segue padrões arquivísticos e museológicos. O acervo de memória oral, com ampliação permanente, inclui cerca de 270 depoimentos, como o que abre este texto, coletados a partir de 2003. O horizonte do projeto é o ano de 2018, data comemorativa do centenário da Votorantim. Segundo a coordenadora, Inês Sadalla, a elaboração do memorial deu chance a muitas pessoas de registrarem o que aprenderam durante anos de trabalho na empresa. "Eles nos contaram coisas que não podiam ser esquecidas", diz.

Também é possível encontrar no Portal Memória Votorantim (http://www.memoriavotorantim.com.br) o registro dos processos técnicos utilizados nas atividades do grupo. O funcionário Divaldir Alfredo Haisi, por exemplo, descreve com detalhes, em seu depoimento, a evolução do processo de produção de cimento na companhia.

O conteúdo produzido pelo projeto está sendo utilizado em escolas públicas por alunos e professores.

A história da empresa como fator de diferenciação

Outra empresa que está construindo um centro de memória virtual é a indústria de medicamentos EMS Sigma Pharma. Com a ajuda do Centro de Memória da Unicamp (CMU), a empresa organizou também um museu que ocupa a casa onde morou seu fundador e se prepara para publicar um livro com a trajetória da indústria, que começou em 1950 com uma pequena farmácia em Santo André, no ABC paulista. Fernando Abraão, coordenador da área de Arquivos Históricos CMU, explica que muitas empresas se interessam pela reconstrução e preservação de sua memória quando assumem grande proporção e sentem que podem perder sua identidade, sua origem. "Há também a intenção de mostrar para os colaboradores como começaram "de baixo", que houve trabalho, esforço. Isso gera comprometimento e identificação", explica ele. A idéia da constituição do Memorial surgiu por iniciativa da presidência da empresa, na ocasião das comemorações de quarenta anos do Grupo.

O projeto localizou documentos históricos, embalagens, fotos, utensílios de farmácia, além do depoimento de colaboradores ainda trabalhando e aposentados. Todo o material está catalogado e disponível física e digitalmente. Algumas peças foram escolhidas para serem expostas. "Montamos uma lista de entrevistados, fizemos uma campanha interna com os funcionários informando sobre o memorial e solicitando a doação de materiais para o projeto. Todos os departamentos foram envolvidos no sentido de coleta de material. A adesão dos entrevistados foi fantástica”, conta Débora Mori, gerente de marketing da empresa e que coordenou o projeto do memorial na Sigma Pharma.

O Grupo EMS mantém um programa de visitas na planta de Hortolândia, interior de São Paulo, para profissionais de saúde, da área de farmácia e estudantes de farmácia e medicina. O Memorial está incluído no itinerário percorrido pelos visitantes. Em média, a empresa recebe trezentas pessoas por mês. Neste caso o patrimônio industrial também é um diferencial. "Num momento econômico de concorrência muito acirrada, a história da empresa também é um fator de diferenciação", diz Ema Camilo, historiadora da equipe do CMU.

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