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Artigo
Mapeando o patrimônio industrial em São Paulo
Paulo Fontes

A cidade de São Paulo é um dos mais impressionantes casos em todo o mundo de intensa urbanização associada diretamente a um processo de industrialização. De uma relativamente pequena vila durante o período colonial e a maior parte do século XIX, São Paulo tornou-se uma das maiores cidades de todo o planeta, com cerca de 10,5 milhões de habitantes. A região metropolitana, composta por 37 municípios nos arredores da cidade, possui quase 18 milhões de moradores.


O final do século XIX foi decisivo para a história da cidade. São Paulo passou por grandes transformações econômicas e sociais naqueles anos, em grande medida devido à expansão da lavoura do café e o afluxo de imigrantes europeus. Já no início do século XX, seu relevante parque industrial começa a ser formado. Distritos como Brás (sede também da famosa “hospedaria dos imigrantes”, onde os recém-chegados trabalhadores europeus e asiáticos eram recepcionados), Lapa, Mooca e Barra Funda tornaram-se bairros operários, dada a alta concentração de indústrias nessas regiões e a proximidade com ferrovias e rios que cortavam a cidade.


O crescimento econômico proporcionado pelos lucros do café e da industrialização incipiente transformou a cidade, que ganhou fama de “moderna”, atraindo intelectuais e artistas vanguardistas. O desenvolvimento, no entanto, foi profundamente desigual e marcado por conflitos e péssimas condições de vida para os trabalhadores e para a maioria da população paulistana. Assim, se de um lado, no ano de 1917, uma orgulhosa e ascendente elite empresarial inaugurava a Primeira Exposição Industrial no suntuoso Palácio das Indústrias [1], edifício especialmente construído para este fim, por outro, associações e sindicatos operários da cidade organizavam naquele mesmo ano a maior greve e manifestação pública até então vistas. Além de principal centro econômico do país, São Paulo tornava-se também o maior pólo de organização de trabalhadores brasileiros.


O declínio do café a partir dos anos 1930 e as políticas nacional-desenvolvimentistas do governo Getúlio Vargas naquele mesmo período acentuaram o crescimento urbano e a vocação industrial da cidade, aceleradas ainda mais nas décadas seguintes ao final da II Guerra Mundial. Nos 20 anos que separam 1950 de 1970, a capital paulista triplicou seu tamanho. Novos trabalhadores viabilizavam um poderoso crescimento da atividade industrial. Desta vez, migrantes de origem rural, vindos do interior do Brasil, particularmente da empobrecida região Nordeste. São Paulo definitivamente consolida-se como uma cidade de migrantes. O censo populacional de 1970, por exemplo, apontava que quase 70% da população trabalhadora da cidade havia passado por algum tipo de experiência migratória. [2]


Os trabalhadores oriundos dos estados nordestinos compunham a grande maioria dos recém-chegados e empregavam-se em massa nos variados ramos da indústria e serviços em franca expansão na região metropolitana. Nos anos 50, essa região foi a principal responsável pela elevada taxa de crescimento industrial do país.


Entre 1945 e 60 o setor secundário no Brasil cresceu em média 9,5% ao ano, constituindo-se em um dos mais acentuados processos de industrialização no período em todo o mundo. Em 1959, por exemplo, quase 50% de todo o emprego fabril do país estava concentrado no estado de São Paulo [3]. A política econômica do regime militar instalado em 1964, embora de maneira socialmente excludente e concentradora de renda, ampliou o peso da indústria na economia nacional e facilitou a instalação e concentração de plantas de empresas multinacionais, em sua maioria na região metropolitana da cidade de São Paulo.


A partir dos anos 1980, no entanto, embora o estado de São Paulo tenha permanecido incontestavelmente como a região brasileira mais industrializada, a cidade de São Paulo diminuiu gradativamente sua participação na produção industrial do país. A participação do setor secundário municipal no total da força industrial do estado caiu de 36% em 1980 para 22% em 1990 [4]. Na década seguinte, uma veloz reestruturação produtiva com profundas mudanças tecnológicas, as contínuas transferências de fábricas para outros estados e os processos de fusão e incorporação de empresas tradicionais por grupos estrangeiros aceleraram a desindustrialização da cidade [5].


Esse processo tem provocado o fechamento de fábricas, manufaturas e vilas operárias, a deterioração das edificações e equipamentos e até mesmo a simples demolição de muitas delas, vítimas da voracidade da especulação imobiliária na cidade. Muitos desses patrimônios possuem importante valor arquitetônico, representando diversas fases do desenvolvimento industrial brasileiro, e também profundas relações históricas, culturais e afetivas com as comunidades que os circundam.


Por outro lado, a preservação de fábricas e de todos os elementos que integram a atividade fabril já é, há algumas décadas, uma forte tendência urbanística e turística em várias partes do mundo. Além do aspecto histórico de tal preservação, sem dúvida fundamental, o impacto educacional e cultural de tais iniciativas, tem se mostrado bastante promissor em várias dessas experiências, com desdobramentos positivos nos campos econômico, social e ambiental. A preservação de espaços industriais, embora ainda em pequena escala, já é também uma realidade no Brasil.


Na cidade de São Paulo existem algumas experiências bem sucedidas de transformação de antigas fábricas em espaços culturais e educacionais, como são os casos do Sesc Pompéia (entre os bairros da Lapa e Barra Funda), do Sesc Belenzinho (na Mooca) e das Faculdades Anhembi Morumbi em uma antiga fábrica de calçados no Brás. Mais importante ainda, nos últimos anos tem ocorrido uma série de iniciativas e mobilizações de movimentos sociais comunitários pela preservação de antigas fábricas e espaços industriais e operários. Ações em torno na Vila Maria Zélia (vila operária próxima ao Brás e Mooca), do Cotonifício Crespi na Mooca, Cia. Nitro Química em São Miguel Paulista e as fábricas Matarazzo Petybom e Melhoramentos na Lapa são algum exemplos dessas mobilizações que buscam não apenas garantir uma melhor qualidade de vida para os moradores dessas áreas, mas também preservar a memória dos trabalhadores, migrantes e moradores pobres que construíram a riqueza e o desenvolvimento da cidade.


Tais iniciativas e outras mais em várias regiões do país estimularam um grupo de acadêmicos de diferentes áreas (historiadores, sociólogos, arquitetos, etc.) e militantes comunitários a fundar em 2004, o Comitê Brasileiro de Preservação do Patrimônio Industrial (TICCIH-Brasil) [6], seção nacional da organização internacional The International Comittee for the Conservation of the Industrial Heritage – TICCIH [7]. Entre os objetivos deste comitê está o apoio às iniciativas de preservação industrial, proporcionando suporte às comunidades e, eventualmente, aos órgãos responsáveis do poder público. Além disso, deve servir também como organização de estudos e pesquisa, divulgação da causa preservacionista, articulando comunidades, organizações da sociedade civil, entidades empresariais e sindicais, tanto na preservação desse patrimônio, quanto na busca de alternativas para a sua revitalização.


Uma das maiores carências de todos aqueles interessados na preservação do patrimônio industrial em São Paulo é a ausência de dados sistematizados e organizados que possam colaborar para a criação de fontes alternativas de preservação da memória das classes populares e subsidiar pesquisas e ações que garantam a sobrevivência desse patrimônio. Neste sentido, o núcleo de pesquisas da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESP-SP) [8], com o apoio do professor Leonardo Mello do Departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo (USP) e da professora Fernanda Pitta do Departamento de História da Universidade Cidade de São Paulo (Unicid), elaborou a proposta de confecção de um “Mapa do Patrimônio Industrial”. Tal instrumento reunirá informações básicas sobre esse patrimônio (fábricas, vilas operárias, mapas, fontes escritas e orais, entre outras) em algumas das antigas regiões industriais da cidade e que atualmente passam por um intenso processo de reurbanização que tem destruído e colocado em risco inúmeras edificações e acervos materiais e imateriais de grande importância para a história social daquelas comunidades e da cidade como um todo.


Além de localizar os patrimônios, o “Mapa” trará informações sobre o atual estado de conservação, dados históricos e arquitetônicos relevantes, bem como fotografias atuais e antigas, desenhos e, eventualmente, depoimentos orais de moradores das comunidades vizinhas às empresas, além de outras referências importantes para viabilizar, não apenas a ação de organizações comunitárias e interessados na preservação do patrimônio histórico e cultural da cidade, mas também subsidiar os órgãos responsáveis para a construção de efetivas políticas públicas nesta área.


O projeto, que se encontra em sua fase de planejamento inicial, vem contando com o decisivo apoio de movimentos sociais comunitários e de órgãos responsáveis pela preservação do patrimônio histórico, como o Departamento de Patrimônio Histórico da Prefeitura de São Paulo. Em conjunto com várias dessas entidades e organizações, realizamos, em novembro de 2005, o I Workshop Mapeamento do Patrimônio Industrial em São Paulo. Além de apresentar e discutir experiências nessa área, esse encontro debateu o projeto e forneceu uma série de subsídios para o seu desenvolvimento. Reunindo especialistas acadêmicos, como as professoras Gabriela Campagnol, Leila Diêgoli e Manoela Rufioni, representantes do poder público, como Walter Pires (Diretor do Departamento do Patrimônio Histórico da Secretaria Municipal de Cultura) e representantes de movimentos de moradores dos bairros da Lapa e Mooca, o encontro foi uma iniciativa inédita e importante no processo de discussão sobre o patrimônio industrial em São Paulo.


Articulando movimentos sociais, poder público e a comunidade acadêmica em diversas áreas, o projeto Mapeamento do Patrimônio Industrial em São Paulo propõe, de um lado, a produção de um instrumento de pesquisa reunindo fontes alternativas e inéditas, que possibilitarão a preservação e o resgate de parte fundamental da memória do trabalho e da industrialização brasileira, além de permitir eventuais comparações com outras experiências similares. Por outro, o projeto aborda diretamente as complexidades e contradições do processo de desenvolvimento e modernização em nosso país, ressaltando o papel da história e dos atores sociais na construção de identidades comunitárias e da cidadania no Brasil.


Paulo Fontes é professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo onde coordena o projeto “Mapeamento do Patrimônio Industrial em São Paulo”. Foi professor visitante na Duke University nos Estados Unidos (2004). É doutor em história social do trabalho pela Unicamp e autor de Trabalhadores e cidadãos. Nitro Química – a fábrica e as lutas sociais nos anos 50 (AnnaBlume, 1997). Pesquisador bolsista do CPDOC da Fundação Getúlio Vargas a partir de março de 2006.


Notas


[1] Um exemplo do otimismo gerado pela industrialização de São Paulo pode ser visto na exagerada frase pronunciada pelo prefeito Washington Luis ao inaugurar o Palácio das Indústrias: “A cidade é hoje alguma coisa como Chicago e Manchester juntas”.


[2] Cf. Francisco Weffort. “Nordestinos em São Paulo: notas para um estudo sobre cultura nacional e cultura popular”, in José Valle Edênio (org.). A cultura do povo. São Paulo, Cortez e Instituto de Estudos Especiais, 1988.


[3] Cf. Renato Colistete. Labour relations and industrial performance in Brazil: Greater São Paulo, 1945-1960. Oxford, Palgrave, 2001.


[4] Cf. Raquel Rolnik e Heitor Frugoli Jr. “Reestruturação urbana da metrópole paulistana: a Zona Leste como território de rupturas e permanências” (texto datilografado).


[5] Tal processo, no entanto, deve ser relativizado. Embora o setor de serviços concentre atualmente a maior parte da produção econômica da cidade, a indústria ainda possui um peso bastante importante e São Paulo é ainda um grande e dinâmico centro industrial. No próprio setor de serviços sobressaem as atividades vinculadas ao setor industrial. Cerca de 40% dos investimentos realizados no município no final dos anos 90, por exemplo, foram no setor da indústria de transformação (cf. Pesquisa de Atividades Econômicas Paulista – Paep, 1999, Seade).


[6] Cf www.patrimonioindustrial.org.br


[7] Cf. www.mnactec.com/TICCIH.


[8] Cf. www.fespsp.org.br

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