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Brinquedos ainda têm pouco espaço nos museus brasileiros
Patrícia Mariuzzo
12/01/2006

Analisar o potencial do brinquedo como um documento, capaz de transmitir informações relevantes acerca da sociedade na qual está inserido e também verificar como as instituições tratam estes objetos. Estes são os objetivos da cientista da informação Ângela Cardoso Guedes no artigo “Acervos de brinquedos em museus brasileiros e sua potencialidade documental”, um dos textos publicados na edição comemorativa dos Anais do Museu Histórico Nacional, de Dezembro de 2005, mês em que o periódico completou dez anos de existência. "No Brasil temos apenas um acervo de brinquedos. Se por um lado nos parece não haver uma coleção de brinquedos expressiva em relação ao total de museus existentes no Brasil, por outro, temos indícios interessantes sobre o papel do brinquedo no contexto de cada museu” diz a autora. Segundo ela, tais acervos são associados a “memória da educação pré-escolar ou memória da indústria, ou como complemento das exposições sobre temas específicos, como memória do modo de vida e memória afetiva, por exemplo", diz a autora.

No Museu do Índio, ligado a Funai, que fica no Rio de Janeiro, o acolhimento de brinquedos faz parte da política de aquisição da instituição. Existem 725 peça, representando apenas 5% do total do acervo de 14 mil peças etnográficas. A coleção está na categoria "objetos rituais, mágicos e lúdicos". O acervo é composto de bonecas, miniaturas de cestinhos e panelinhas para meninas; bolas, miniaturas de remos, barcos, animais e canoas, para os meninos. A autora explica que os jogos e brincadeiras indígenas caracterizam-se por atividades que imitam a vida adulta, transformando cenas do cotidiano como pescarias, caçadas e afazeres domésticos em atividade lúdica. "Interessante destacar que, entre os brinquedos produzidos pelos índios, encontravam-se tanto objetos conhecidos apenas pelo grupo, como objetos incorporados da nossa sociedade, tais como carrinhos de mão, bonecas de pano e aviõezinhos, confeccionados com as mais diversas matérias-primas. Por meio dos brinquedos, portanto, evidencia-se materialmente o encontro de culturas", acredita Guedes. Além disso, segundo a autora, ao referenciar o brinquedo como tal, o Museu do Índio evidencia a integração do curumim à vida da comunidade indígena e a influência sofrida da sociedade "branca" que o cerca.

Diferentemente disso, alguns museus não mencionam brinquedos em seu acervo, mesmo tendo algumas peças em suas coleções. É o caso do Museu Histórico Nacional que não faz referência a cestinhos, bonecas, miniaturas de arco e flechas como brinquedos. Tais objetos são vistos pela instituição como peças artísticas e não como objetos lúdicos. Outro exemplo é o Museu Imperial, que fica em Petrópolis, Rio de Janeiro e que tem por objetivo preservar e expor o patrimônio cultural da monarquia brasileira. Nenhum dos ambientes do palácio revela o universo infantil. "Como seria o quarto dos príncipes? Quais seriam seus brinquedos, seus livros, sua educação", questiona Guedes. "Uma criança que visite um destes museus não poderá vislumbrar o cotidiano de crianças de uma outra época, ainda que fosse aquele dos príncipes e princesas. Dificilmente uma criança se identificará como agente da História ao visitar as exposições permanentes destas instituições", afirma ela.

Valorizando brinquedos

Já o Museu do Folclore Edson Carneiro, ligado ao Ministério da Cultura e o Museu do Homem do Nordeste, da Fundação Joaquim Nabuco, realizam atividades e exposições através das quais é possível constatar a presença da criança em diversos momentos da vida cotidiana. O Museu do Folclore tem brinquedos em vários setores da sua exposição permanente e já organizou algumas mostras temporárias exclusivamente com brinquedos. A instituição acredita que através deles pode-se depreender parte dos valores dominantes de uma cultura. Uma nação pode, por exemplo, proclamar-se neutra e anti-guerra, em textos e discursos, e continuar produzindo armas e canhões para consumo infantil. Ou pode promulgar leis de igualdade de direitos trabalhistas para homens e mulheres e, continuar a estimular as meninas através de brinquedos que são miniaturas de objetos domésticos, de modo que elas pensem seu papel futuro restrito ao âmbito doméstico.

Em Recife, o Museu do Homem do Nordeste, promove, a partir da sua coleção de 703 brinquedos, mostras temporárias além de diversas atividades com a comunidade. Numa delas, a Feira de brinquedos e brincadeiras populares, ocorrem oficinas onde as crianças aprendem a confeccionar brinquedos e exercitam o brincar, cada vez mais difícil nos centros urbanos. Para Guedes, estas atividades têm a capacidade de reforçar, junto às crianças, valores e identidades regionais, inclusive no sentido de romper com a atitude passiva induzida pelo brinquedo industrializado.

Pioneiro, o Laboratório de Brinquedos e Materiais Pedagógicos da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo foi o primeiro a abrir para o público, em 1999 o Museu da Educação e do Brinquedo, único no Brasil, pelo menos por enquanto. O acervo tem cerca de 4200 itens com brinquedos artesanais e industrializados, além de jogos, livros, materiais pedagógicos e fotografias. Seu objetivo é pesquisar brincadeiras, brinquedos e jogos de tempos passados, discutir seu uso e resgatar a memória da educação infantil no espaço educacional e fora dele. O Museu da Educação e do Brinquedo funciona ainda como brinquedoteca que recebe doações e também empresta brinquedos. Ele já serve de exemplo para novas iniciativas de formar acervos de brinquedos que estão nascendo em Belo Horizonte e São João Del Rey, Minas Gerais.

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