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Artigo
Educação, museu e patrimônio: tensão, devoração e adjetivação
Mário Chagas
I

Em 2002, o projeto Rede Memória do Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré (CEASM) publicou um conjunto de cartões postais com fotografias acompanhadas de depoimentos de antigos moradores da favela. Imagens e palavras impressas no papel passaram a compor uma narrativa toda especial, capaz de articular no mesmo episódio a tensão entre o singular e o universal; capaz de evidenciar a fazeção da ponte que liga o humano localizado e banhado pela maré cultural e a humanidade inflamada e sensível. Num dos cartões postais, um dos comoventes depoimentos de um dos moradores das antigas palafitas está assim apresentado:

“Quando eu mudei para lá, tinha que atravessá mesmo era por dentro d’água... Os outros tinha ponte, os outros tinha tudo, mas eu ainda não. Tinha mudado de pouco. Aí eu fui fazê a ponte.”

Essa narrativa poética, que combina o lírico e o épico num mesmo drama, explicita a tensão humana implicada na construção cultural de um patrimônio pessoal e a necessidade de construção de pontes. Se, por um ângulo, a ponte (material e espiritual) pode ser compreendida como patrimônio, por outro o patrimônio (tangível e intangível) pode ser compreendido como ponte entre espaços, tempos, indivíduos, coletivos e culturas diferentes. A compreensão do patrimônio como ponte pressupõe a dilatação da noção de patrimônio.

II

Nos últimos tempos, passou a fazer parte das apresentações discursivas daqueles que têm algum pé nas ciências sociais o esforço para explicitar o lugar de onde se fala ou o lugar a partir do qual a fala é enunciada. Esse é um problema que, por enquanto, não afeta a corporação religiosa, assim como não afeta os políticos, os jogadores de futebol, os homens e mulheres que se oferecem como modelos para os imperativos da moda, os locutores de telejornal e algumas outras corporações profissionais. Esse é um problema construído no universo das ciências sociais e que gradualmente derrama-se para outros universos. A explicitação do lugar do falante é também a exposição da tensão entre o que fala e o que ouve; uma tensão que tanto pode produzir amarrações, quanto iluminações.

De minha parte, devo dizer que falo de um território híbrido e sempre híbrido. Falo de um lugar ou de um caldeirão onde se misturam ciência, arte, poesia, tecnologia, filosofia e um tanto de dança e mais um tanto de um tempero considerado exótico.

III

Quatro pressupostos pró-vocativos e dois votos. Eis a síntese formal do texto apresentado para debate:

Pressupostos
1.O campo museal contém o campo patrimonial.
2.Museu, patrimônio e memória são campos de tensão;
3.Os museus são entes antropofágicos;
4.Educação e patrimônio são práticas socialmente adjetivadas.

Votos
1.É desejável abolir toda e qualquer ingenuidade em relação ao museu, ao patrimônio e à educação.
2.É desejável trabalhar com a poética do museu e do patrimônio.

IV

No Brasil, o advento dos museus é anterior ao surgimento das universidades. A formação de cientistas e a produção científica, sobretudo na segunda metade do século XIX, tinham nos museus um dos seus principais pontos de apoio. Por isso mesmo, desde o século retrasado as relações entre os campos do museu e da educação são bastante intensas. De igual modo, a institucionalização dos museus e da museologia no Brasil antecedem à criação de um dispositivo legal para a proteção do patrimônio histórico e artístico nacional.

Estas referências, sabidamente ligeiras, são importantes para indicar que as noções e as práticas de preservação e uso educacional do que viria a ser chamado de patrimônio cultural amanheceram cedo no campo dos museus.

Registre-se, por exemplo, que o trabalho do Museu Histórico Nacional, criado em 1922, e o apoio do curso de museus, criado em 1932, foram importantes para a elevação da cidade de Ouro Preto à categoria de monumento nacional, em 1933. Vale lembrar ainda que em 1934, antes de Mário de Andrade elaborar o seu famoso ante-projeto para o Serviço do Patrimônio Artístico Nacional, foi criada, por iniciativa de Gustavo Barroso, no Museu Histórico Nacional, a Inspetoria de Monumentos Nacionais. Esta Inspetoria foi um antecedente reconhecido e bastante concreto do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, criado em 1936 e chefiado por Rodrigo Melo Franco de Andrade. O investimento governamental no trabalho patrimonial de Rodrigo e o insulamento assistido do trabalho museal de Barroso constituem até hoje temas de investigação.

A partir dos anos 70 do século XX, o conceito clássico de museu, que operava com as noções de edifício, coleção e público, foi confrontado com novos conceitos que, a rigor, ampliavam e problematizavam as noções citadas e operavam com as categorias de território (socialmente praticado), patrimônio (socialmente construído) e comunidade (construída por laços de pertencimento).

Como se pode perceber pelos exemplos citados, em diversos momentos o campo museal contém e abarca, ou pelo menos deseja conter e abarcar, o campo patrimonial. Em outros momentos ocorre justo o inverso.

Conclusão: museu e patrimônio constituem campos distintos e complementares, que freqüentemente dançam ao som de uma mesma música. Ora é um, ora é o outro quem conduz a dança.

V

Há uma gota de sangue em cada museu e em cada bem ou manifestação patrimoniável. Sangue, suor, lágrima e outros tantos líquidos contribuem para os registros de memória e constituem aspectos da nossa própria humanidade. Museu, memória e patrimônio configuram campos independentes, ainda que articulados entre si. Eles são arenas políticas, territórios em litígio, lugares onde se disputa o passado o presente e o futuro. Para além de todas as diferenciações, resta a execução de uma música para dança e, mais ainda, resta o reconhecimento de que o museu, o patrimônio e a educação configuram campos de tensão e intenção.

VI

Tudo pode ser antropofagizado e ressignificado pelo museu. Os museus são entes e antros antropofágicos. Donald Preziosi, em texto publicado no catálogo da XXIV Bienal de São Paulo, identifica o poder canibal do museu e procura estratégias para "evitar ser comido". "Não podemos - diz ele - escapar aos museus, já que o próprio mundo de nossa modernidade é, nos aspectos mais profundos, um supremo "artefato" museológico". (Preziosi, 1998, p.50).

Reconhecer o poder antropofágico do museu, a sua agressividade e o seu gesto de violência em relação ao passado é, ao que me parece, um passo importante; mas, talvez o maior desafio seja reconhecer que essas instituições criam e acolhem o humano, e, por isso mesmo, podem ser devoradas. Devorar e ressignificar os museus, eis o desafio de cada nova geração.

VII

“Todo o povo – sustenta Werner Jaeger, em seu livro Paidéia (1979, p.3) – que atinge um certo grau de desenvolvimento se sente naturalmente inclinado à prática da educação”. Aqui, a palavra “naturalmente” não deve produzir confusão. Não se trata de uma inclinação ancorada numa essencialidade qualquer ou num dispositivo da natureza, e sim de um fenômeno social, da ordem da cultura. Nessa situação, a palavra em questão, talvez seja mais bem compreendida como sinônimo de simplesmente.

Importa registrar, no entanto, que a educação é uma prática sócio-cultural. Nesse sentido é que se pode falar no caráter indissociável da educação e da cultura ou ainda na inseparabilidade entre educação e patrimônio. Não há hipótese de se pensar e de se praticar a educação fora do campo do patrimônio ou pelo menos de um determinado entendimento de patrimônio. Por este prisma, a expressão “educação patrimonial” constituiria uma redundância, seria o mesmo que falar em “educação educacional” ou “educação cultural”. No entanto, não se pode negar que a referida expressão tenha caído no gosto popular. Resta, neste caso, compreender os seus usos e os seus significados.

No senso comum a expressão “educação patrimonial” significa apenas o desenvolvimento de práticas educacionais (mais ou menos transformadoras) tendo por base determinados bens ou manifestações considerados como patrimônio cultural. Esse não é um entendimento estranho a Paulo Freire, Darcy Ribeiro, Gilberto Freyre, Gustavo Barroso, Anísio Teixeira, Roquete Pinto, Liana Rubi O’Campo, Sigrid Porto, Waldisa Russio e tantos outros. De igual modo, este entendimento, ainda que não lançasse mão da expressão em debate, estava presente em práticas museológicas do século XIX e no serviço educativo do Museu Nacional, formalmente criado em 1926.

Vale adiantar que a tentativa de estabelecer um marco zero para a “educação patrimonial”, fixando uma data de nascimento (1983), uma cidade (Petrópolis), um museu e uma determinada maternidade ou paternidade, não tem respaldo no cotidiano dos praticantes da assim chamada “educação patrimonial”. O seu vínculo de fundo e o seu diferencial estão situados na confluência entre a educação, a memória, a cultura, o patrimônio e a preservação. De outro modo: a expressão em análise constitui um campo e uma prática de educação socialmente adjetivada e não está especialmente vinculada a nenhuma metodologia, a nenhum autor, a nenhum lugar, a nenhuma data em particular.

VIII

É desejável abolir toda e qualquer ingenuidade em relação ao museu, ao patrimônio e à educação. Ao lado dessa abolição é desejável desenvolver uma perspectiva crítica, interessada em investigar ao serviço de quem estão sendo acionados: a memória, o patrimônio, a educação e o museu.

É preciso saber que o museu, o patrimônio, a memória e a educação tiranizam, aprisionam, acorrentam e escravizam os olhares incautos e ingênuos. É preciso coragem para pensar e agir a favor, contra e apesar do museu, do patrimônio, da memória e da educação. É preciso enfrentá-los com o desejo de ressignificação e antropofagia, com a coragem dos guerreiros que estão prontos para a devoração.

IX Trabalhar a poética do museu e a poética do patrimônio. Eis um desafio que importa encarar. Para além de suas possíveis serventias políticas e científicas museu e patrimônio são dispositivos narrativos, servem para contar histórias, para fazer a mediação entre diferentes tempos, pessoas e grupos. É nesse sentido que se pode dizer que eles são pontes, janelas ou portas poéticas que servem para comunicar e, portanto, para nos humanizar.

Trabalhar com a poética do museu e do patrimônio implica um olhar compreensivo e compassivo para os inutensílios musealizados e para o patrimônio inútil da humanidade. Essa é a lição (ou deslição) sugerida pelo poeta Manoel de Barros.

Trabalhar a poética do museu e do patrimônio implica também aceitar um conhecimento que se produz fora da disciplina, uma espécie de imaginação museal ou pensamento selvagem que se movimenta fora do controle e se preciso contra a disciplina e o controle.

X

Quem tem medo dos adjetivos não está preparado para entrar no território do museu e do patrimônio, um território que ora exige estranhamento e ora exige familiarização. A educação, o museu e o patrimônio são campos de tensão e de devoração, mas também são pontes, práticas e dispositivos que provocam sonhos.

Referências bibliográficas

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