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Pesquisa explora dilemas entre tradição e modernidade em Ouro Preto
Carolina Cantarino
23/12/2005

A cidade de Ouro Preto materializa, ao longo do século XX e em sua arquitetura, os conflitos entre importantes personagens e suas diferentes concepções sobre patrimônio, tradição e modernidade. Essa é uma das conclusões presentes em Monumento para quem? A preservação do patrimônio nacional e o ordenamento do espaço urbano de Ouro Preto (1937-1967) , dissertação de mestrado de Evelyn Meniconi, defendida na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC/MG).

Premiada como a melhor dissertação de 2005 no Concurso de Obras Científicas e Teses Universitárias em Ciências Sociais promovido pela Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs) e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), a pesquisa de Evelyn Meniconi buscou mapear os principais conflitos e estratégias dos intelectuais que participaram da gestão de Rodrigo Melo Franco de Andrade (1937-1967) no Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Sphan), período de construção e consolidação da política estatal de proteção do patrimônio nacional.

Além dos embates entre o discurso conservador e o discurso modernista dos intelectuais que participaram desse período de formação do Sphan, a dissertação analisa o impacto desses discursos nas práticas de preservação da cidade de Ouro Preto, através de dois estudos de caso: um sobre o Grande Hotel, projetado por Oscar Niemeyer e construído, em Ouro Preto, na década de 1940 e outro sobre a reforma do Liceu de Artes e Ofício - prédio de estilo eclético - para a instalação de um cinema na cidade. Através desses dois casos, a historiadora explora os conflitos existentes no interior do SPHAN e também entre o orgão e parte da população da cidade.

O patrimônio e a nação Criado em 1937, o Sphan, segundo Meniconi, foi fundamental para o projeto nacionalista do Estado Novo ao inventar um passado para a nação, através da seleção de monumentos e prédios a serem tombados como patrimônio nacional. A legitimação desse patrimônio, segundo a historiadora, resultou da visão de mundo do grupo que se tornou hegemônico no Sphan: os chamados intelectuais modernistas dos quais o maior representante seria o arquiteto e urbanista Lúcio Costa.

Nesse contexto, a cidade de Ouro Preto foi escolhida como o grande símbolo nacional. “É preciso enfatizar que a cidade de Ouro Preto é o foco central da análise do discurso nacionalista modernista, na medida em que o barroco mineiro foi apresentado como a arte referencial para todo o país, como valor representativo das autênticas tradições brasileiras que se passava a inventar”, afirma a historiadora. Ouro Preto passa a ser vista, então, em seu conjunto, como um monumento, e é transformada num paradigma do patrimônio nacional ao ser tombada, em 1938. O tombamento garantia a proteção legal da cidade pelo SPHAN, que teria o controle direto sobre qualquer tipo de intervenção, fossem obras novas ou restaurações. Tudo para garantir a autenticidade de sua estética colonial barroca e a preservação daquilo que seria o passado da nação.

Tradição e modernidade em Ouro Preto

A partir de 1945, com o desenvolvimento da indústria de alumínio na cidade, a área urbana de Ouro Preto volta a crescer, exigindo, dentre outras coisas, novas habitações. A vigilância e o rigor, por parte do Sphan, em relação à construção de novas moradias na cidade acabou gerando, segundo Evelym Meniconi, um efeito inverso ao que se pretendia: a descaracterização da paisagem urbana de Ouro Preto.

A obsessão em manter congelado o aspecto colonial da cidade pelos intelectuais do SPHAN, mesmo diante do seu crescimento, resultou na descaracterização e falsificação de sua paisagem urbana. “Isto porque o órgão não tinha como fiscalizar todos os projetos enviados a ele devido aos seus poucos recursos financeiros e à carência de pessoal”, afrima a historiadora.

Um desses esforços de congelamento das características coloniais da cidade foi a remodelagem das fachadas dos prédios considerados “bastardos” tais como o Cine Vila Rica, um dos estudos de caso que compõem a dissertação. A partir das publicações da imprensa da época, correspondências, pareceres técnicos e outros documentos oficiais Evelyn Meniconi reconstitui toda a polêmica, que se estendeu de 1941 até 1957, envolvendo o antigo Liceu de Artes e Ofício e os critérios necessários para que o prédio, originalmente em estilo eclético, pudesse abrigar um cinema (um símbolo, por excelência, da modernidade). O desfecho foi a realização de uma reforma na sua fachada para adequá-la à arquitetura colonial da cidade.

A cópia das antigas construções coloniais visando a manutenção do estilo barroco da arquitetura da cidade torna-se, então, recorrente. Mas uma solução para se evitar esse tipo de falseamento já havia sido proposta por Lúcio Costa e Oscar Niemeyer através da construção do Grande Hotel, a partir de 1939. Para esses modernistas, na medida em que o barroco colonial seria o verdadeiro passado da moderna arquitetura brasileira, haveria uma continuidade entre eles. Nesse sentido, os monumentos de Ouro Preto, segundo Lúcio Costa, poderiam conviver, lado a lado, com construções modernas da chamada “boa arquitetura”.

“Mas cabe enfatizar que a ‘boa arquitetura’ era aquela feita pelos arquitetos modernos que utilizavam os princípios da ‘boa tradição’ e não se curvavam ao gosto dos clientes. Isto seria tido como inviável aos habitantes da cidade que, por um lado, recusavam estes princípios estéticos; por outro lado, com poucos recursos financeiros, preferiam construir de acordo com as normas estético-estilísticas ditadas pelo SPHAN, mantendo a harmonia do conjunto colonial. O resultado disto foi uma arquitetura sem personalidade cultural, pois se estas construções não eram do passado também não tinham as marcas culturais do presente”, afirma a historiadora. A descaracterização da paisagem urbana de Ouro Preto, nesse sentido, prosseguiu.

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