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São Paulo, IV centenário
Grandiosa, a comemoração dos 400 anos da cidade de São Paulo foi marcada pela inauguração do Parque do Ibirapuera
Patricia Mariuzzo
Foto: Andreas Josko (Creative Commons - DE-CC-BY-SA-2.0)
Comemorar significa trazer à lembrança, recordar. A comemoração é uma ocasião em que se faz a evocação de um fato, um lugar. Algumas comemorações, entretanto, adquirem tanto signficado que se tornam elas mesmas um novo fato para ser comemorado, ou rememorado.

O ano era 1954. A já maior cidade da América Latina com 2,5 milhões de habitantes, chegava aos 400 anos de vida. Os preparativos para as comemorações do quarto centenário da cidade de São Paulo haviam começado três anos antes. A análise dos programas da comemoração dos 400 anos demonstra a intensidade de um espetáculo sem precedentes no país e que, pelo visto nas comemorações dos 450 anos, não vai se repetir. Como forma de comemorar o aniversário da cidade, naquele ano São Paulo entrega à população o Parque do Ibirapuera, espaço de 1,5 milhões de metros quadrados, que se tornou uma referência do estilo de vida da metrópole paulistana. O projeto arquitetônico do Parque é de ninguém menos que Oscar Niemeyer, o paisagismo é de Roberto Burle Marx. Foi idealizado para ser um presente para a metrópole de 400 anos.

"Prosseguem em ritmo acelerado as obras que a Comissão do IV Centenário executa no Parque Ibirapuera, centro principal, pela sua privilegiada localização e amplitude, das grades comemorações que, em 1954, assinalarão, a passagem do quadringentésimo aniversário da fundação da cidade. A transformação do antigo logradouro, até há pouco relegado ao mais completo abandono, faz-se com o elevado objetivo de dotar a cidade de São Paulo, a exemplo dos grandes centros mundiais, de um núcleo permanente de cultura e recreação popular, que venha enriquecer o patrimônio coletivo e possa ser apontado como ponto de referência obrigatória na metrópole paulistana". (Boletim Informativo da Comissão do IV Centenário da Cidade de São Paulo, n. 02 - São Paulo - Brasil - Junho 1953, Arquivo Edgard Leuenroth).

As comemorações dos 450 anos da cidade de São Paulo, no ano passado, incluíram uma série de reformas de pontos da cidade como a Estação da Luz, a Biblioteca Mário de Andrade, a Casa da Marquesa de Santos, além da reurbanização das praças da Sé e da República, mas o ponto alto da festa foi a inauguração de uma fonte multimídia no lago principal do Parque do Ibirapuera. A fonte é uma instalação flutuante de 100 metros de comprimento por dois metros de largura que realiza coreografias com trilha sonora e iluminação. Outro recurso interessante é criar uma cortina de água onde podem ser projetadas imagens como filmes e slides. O Parque do Ibirapuera continuou se reafirmando nas comemorações seguintes até 50 anos depois. A preservação do patrimônio pressupõe um projeto de construção do presente. Ela ganha sentido na medida em que este patrimônio esteja vivo no presente, vivo para que as pessoas que o cercam possam de algum modo usufruir dele. Esaa reintegração pode unir o corpo e a alma da cidade, fazendo com que um prédio ou uma praça faça sentido para nossos olhos modernos. O objetivo de se construir um marco comemorativo, um monumento para a cidade, se concretizou.

"Terminadas as comemorações, os edifícios e o parque remodelado serão entregues ao Governo do Estado e do Município, incorporando-se assim ao patrimônio público, ao qual, em última instância, reverterão todas essas iniciativas. Benefício considerável terão, pois, a cidade e seus habitantes, com as comemorações oficiais do IV Centenário". (Boletim Informativo da Comissão do IV Centenário da Cidade de São Paulo, n. 02 - São Paulo - Brasil - Junho 1953, Arquivo Edgard Leuenroth).

Em que medida o cenário urbano atual em São Paulo é capaz de criar marcos relevantes para a história da cidade? Para a urbanista e professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP, Regina Meyer, a cidade de São Paulo tem todo potencial para produzir espaços como o Ibirapuera, mas o que distingue a década de 1950 do momento atual é a falta de metas equivalentes. “Os planos atuais são muito mais voltados para o desempenho da cidade no interior de um novo padrão produtivo e econômico. Assim, é mais importante instalar fibras óticas do que produzir espaço público. Em tese, as duas coisas são necessárias e devem ser implementadas pela prefeitura, mas é evidente que hoje não temos nenhum projeto com as características do Parque do Ibirapuera. Mesmo uma obra tão importante como o Parque da Juventude (antigo Carandiru), de significado tão forte, não teve o mesmo impacto”, acredita. Na opinião da urbanista, quando a cidade chegar aos seus 500 anos, quase nada poderá ser lembrado da comemoração dos seus 450.

"Se as comemorações do 4.º Centenário simbolizaram o crescimento econômico de São Paulo no início do século 20, o aniversário de 450 anos pode entrar para a história como a festa da reforma. Em vez de ganhar um novo Parque do Ibirapuera, como ocorreu em 1954, a maior metrópole da América do Sul está gastando para a ocasião mais de R$ 370 milhões, dos quais a maior parte tem como destino a recuperação de áreas públicas, monumentos e prédios históricos. As obras têm o poder de renovar a cara de São Paulo, mas o que se espera desse investimento é que mais paulistanos encarem a cidade num sentido mais amplo. É isso que defendem urbanistas e o poder público. Enquanto a chuva de prata de 50 anos atrás coroou o crescimento das indústrias e dos prédios, os festejos de 2004 deveriam fazer os paulistanos se reaproximarem da metrópole e valorizarem o espaço público e democrático que é a cidade, segundo esses especialistas". (trecho de matéria publicada na série São Paulo 450 anos publicada pelo jornal O Estado de São Paulo, em 2003).

Ela explica que as datas comemorativas são lembradas por diversas razões. Na década de 1950 tudo indicava a presença de fortes mudanças. Havia uma perspectiva de industrialização impulsionada pelo governo de Juscelino Kubitschek que impregnava o país de um otimismo enorme. “Havia um projeto de futuro e a cidade de São Paulo era o centro da mudança. Muito mais do que Brasília, que era apenas o símbolo das mudanças. Mesmo que as comerações tivessem fracassado o clima era de grande euforia. Acho que a conjuntura econômica e política de 2004 não era favorável”, completa.

"O sinal está aberto. O tráfego livre...
E na nossa frente, estende-se o São Paulo dinâmico e babélico, que exibe, firmada por Anchieta e Nobrega, tendo a testemunhá-la o português João Ramalho e o cacique Tibiriçá, originalíssima certidão de nascimento em que se lê a sua idade provecta: 400 anos! E enfeitiçando tudo os arranha-céus colossais, sombrios monstros de cimento armado, as sujas chaminés das fábricas e das usinas eternamente a cachimbarem um fumo negro, e, pelas ruas e avenidas trepidantes, nos escritórios e oficinas, como num autêntico formigueiro humano, os 3 milhões de paulistanos labutam, atanazados com os negócios, testa vincada, preocupados com o trabalho de cada dia... Nesta hora, significantemente patriótica, sobremodo expressiva, festas fora do comum reboam e tôda uma população vibra de entusiasmo, nas comemorações sem par de uma efeméride memorável: quatro séculos de existência bem vivida da metrópole agigantada".
(Trecho do editorial da Revista do IV Centenário de São Paulo, publicação oficial dos 400 anos da cidade, publicada em 1954 pela Editora Abril).

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