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Favelas são resultado e aprofundam desigualdade social
Rafael Evangelista
03/11/2005

Nas manchetes dos jornais, elas aparecem frequentemente ligadas ao tráfico de drogas e à violência. Vistas a partir do senso comum das classes alta e média, elas representam o contrário de tudo o que se atribui à cidade modernamente: urbanidade, higiene, ética do trabalho, progresso, civilidade. A palavra “favelização” já se tornou um adjetivo que serve para qualificar os bairros populares em que cresce a violência, o poder de quadrilhas de criminosos e diminui a força do Estado. Para o sociólogo e professor da PUC-RJ, Marcelo Baumann Burgos, a favelização não é apenas consequência da desigualdade social mas é responsável por sua reprodução e aprofundamento.

Burgos é autor do artigo “Cidade, territórios e cidadania”, publicado no volume 48, número 1, da revista Dados, em que faz uma reflexão sobre a relação entre cidade e favela e as conseqüências desta para a cidadania e para a participação política dos moradores dessas áreas pobres. “De uma perspectiva sociológica, a categoria "favela" não traduz apenas uma determinada forma de aglomerado habitacional, mais que isso, exprime uma configuração ecológica particular, definida segundo um padrão específico de relacionamento com a cidade”, afirma ele. No artigo, Burgos rejeita, logo de início, a categoria favela, e propõe o uso da palavra “território”, mais neutra – carregando menos estereótipos negativos - e mais precisa, já que a cidade aparece como constituída por “territórios atomizados”.

Esse território atomizado, ou seja, separado e diferenciado dos outros, embora com eles estabelecendo relações, daria origem a pessoas que vêem a política e os direitos de maneira também diferenciada. “Segundo nossa hipótese, a cidadania popular está atravessada pelas contradições inscritas no espaço urbano, que produzem uma subjetividade encapsulada no interior dos muros dos territórios, forjando um indivíduo com poucas referências no direito citadino; um indivíduo que é fruto de uma sociabilidade ambígua, pois o território é, de um lado, fonte de toda sorte de violência, que prospera na exata medida em que faltam direitos, e, de outro, uma dimensão que o envolve e protege das forças desumanas do mercado; ao mesmo tempo que o priva da cidade, o território oferece-lhe alguma forma de acesso à comunidade”.

No artigo, Burgos examina o relacionamento entre o território e a mídia, a religião e o mercado. Reflete, por exemplo, sobre as barricadas e manifestações promovidas pelos moradores das favelas depois de episódios de caça a traficantes produzidos pela polícia. As manifestações atraem a atenção da mídia e contribuem para uma maior estigmatização dos moradores, já que as matérias da imprensa em geral resumem-se em expor a versão da polícia e dos moradores sobre o assassinato de algum inocente e não desfazem a imagem produzida de caos. Surge a idéia momentânea de guerra civil. “De fato, são nessas manifestações que os moradores dos territórios e da cidade dramatizam sua polaridade, em um enfrentamento que não raro provoca mortes e toda sorte de violência física; não por acaso, o alvo dos moradores do território é difuso, ora ateando fogo em ônibus de passageiros – prática consagrada como uma espécie de monumento da revolta -, ora agredindo com fúria motoristas de automóveis, que naquele instante representam todos os citadinos, sendo o automóvel o símbolo mais evidente de inclusão no domínio da polis”.

Burgos também faz uma análise bastante interessante da inserção das Igrejas nos territórios, discutindo o crescimento das Igrejas Evangélicas. Enquanto a Igreja Católica “encarava a favela como espaço ecológico particular, que produzia uma sociabilidade exposta à promiscuidade e à indolência”, para os evangélicos “o pecado está mais no indivíduo do que no meio”. Estes rejeitam a idéia de pobreza redentora, muito forte no catolicismo, vinculando a riqueza à fé. “Enquanto a [igreja] católica operava com a lógica do território, colocando como desafio a superação de suas fronteiras com a cidade por intermédio de intervenções civilizadoras sobre o espaço, as pentecostais [entre as quais as evangélicas], de modo geral, tendem a apostar, às vezes explicitamente, na lógica do mercado como lugar de reconstrução do indivíduo”, afirma o autor.

Para realizar seu estudo, Burgos fez uso de dois conceitos-chave: “cidade escassa” e “controle negociado”. O primeiro refere-se à idéia de que o Estado não tem conseguido tornar universais suas regras e valores, o que leva à fragmentação. O segundo descreve um modo de integração social clientelista e assistencialista, e que explica o “assimétrico sistema de trocas existente entre a cidade e os territórios”. Esse conceito refletiria também o fracasso das associações de moradores das favelas que existem desde meados do século passado. Segundo Burgos, não houve emancipação política, mas apenas “uma redefinição parcial do padrão de relacionamento com a cidade” e o favelado continuaria integrado à cidade em uma condição subalterna.

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