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Reportagem
Onde está o patrimônio da cidade?
Para contar a história de uma cidade, não basta apenas proteger seus bens materiais. A vida nos centros urbanos - seja em bairros operários, nobres ou nas favelas - também merece registro
Carolina Cantarino
Crianças sobre as pontes do Parque Maré na década de 1960. Foto: Anthony Leeds, acervo pessoal
Práticas preservacionistas recentes vêm apontando para mudanças nos critérios tradicionais de concepção e preservação do patrimônio histórico e cultural nas grandes cidades brasileiras. Cada vez mais, territórios como bairros, favelas, subúrbios e periferias, que tendem a ser pouco reconhecidos – ou mesmo desprezados - na paisagem urbana, passam a ser valorizados, seja por sua história local – que ajuda a contar a história da própria cidade como um todo – seja pelas referências culturais dos seus moradores, importantes para a sua identidade. Esse deslocamento tem trazido, também, discussões relevantes sobre a participação das comunidades locais na apropriação do seu próprio patrimônio.

Esse é o caso da favela da Maré, a primeira da cidade do Rio de Janeiro a ser reconhecida como região administrativa do município. É formada por 16 comunidades que contabilizam cerca de 130 mil moradores na região próxima ao centro da cidade e da Baía de Guanabara. Antiga região portuária e de engenhos, a Maré começou a ganhar um perfil mais urbano a partir da década de 1940. Com a industrialização do Rio de Janeiro e a valorização imobiliária de regiões do subúrbio, a população mais pobre da cidade, incluindo muitos migrantes nordestinos, começa a ocupar as áreas alagadas em torno da Baía de Guanabara. Na década de 1960, obras de “modernização” da zona sul removem as populações de favelas para habitações provisórias na Maré. As palafitas, então, se estendem por toda a região. Transformada num forte símbolo das desigualdades sociais do país, na década de 1980, a região passa por uma intervenção do governo federal, com a construção de um aterro e a substituição das palafitas por construções pré-fabricadas.

Com a intenção de registrar essa história, mas privilegiando a perspectiva das pessoas que a vivenciaram, é que foi criado, em 1997, por moradores locais, o Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré (Ceasm), que desenvolve uma série de projetos na área da educação, cultura, geração de emprego e renda. Dentre esses, a Rede Memória da Maré que recebeu, neste ano, o Prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade na categoria “salvaguarda de bens de natureza imaterial”.

Criada em 1987 pelo Iphan, a premiação tem como objetivo reconhecer ações de preservação do patrimônio cultural brasileiro. “O prêmio foi muito importante pelo reconhecimento, por parte do Iphan, do nosso trabalho, cuja filosofia é atuar considerando os moradores como protagonistas da história. Nesse sentido, eles produzem cultura e um patrimônio histórico a ser valorizado e preservado. É preciso fugir da idéia de que o patrimônio só existe nos museus, nos centros culturais, na cultura produzida pela elite”, afirma Cláudia Rose Ribeiro da Silva, historiadora, coordenadora da Rede Memória e uma das fundadoras do Ceasm.

A Rede é formada por uma série de projetos que privilegiam o registro e a divulgação da história oral a partir, principalmente, dos depoimentos dos moradores mais antigos da Maré. O projeto mais recente do Ceasm é a criação do Museu da Maré que integra o Programa Cultura Viva do Ministério da Cultura. A idéia de se criar o museu surgiu a partir do recebimento, em regime de comodato com uma empresa portuária, de dois grandes galpões, num dos quais o Ceasm já vem centralizando suas atividades culturais. O outro galpão irá sediar o museu que já está em fase final de implantação e deverá ser inaugurado, segundo Claudia Rose Ribeiro da Silva, no final de novembro ou início de dezembro deste ano.

Tudo começou com um projeto de TV comunitária, desenvolvido a partir de 1989, por um grupo de moradores e que recebeu o nome de TV Maré, uma das primeiras TVs comunitárias da cidade do Rio de Janeiro. Sua equipe realizou entrevistas na comunidade e gravou uma série de eventos. Essas gravações eram divulgadas por meio de telões instalados nas praças e ruas do bairro e, em torno dessas gravações, os moradores discutiam as várias versões sobre o nome do bairro, sobre a origem das comunidades e outros temas relativos à história das favelas da região.

Entusiasmadas com esses debates públicos, a equipe da TV iniciou uma pesquisa nos arquivos da cidade (Arquivo Geral da Cidade, Biblioteca Nacional, Arquivo Nacional, Casa de Oswaldo Cruz) o que resultou no levantamento de um acervo fotográfico e bibliográfico, sobre a Maré: não só sobre a sua origem e história de ocupação mas também assuntos específicos como o surgimento de movimentos populares na região.

A partir de 1998, a Rede Memória estabelece uma equipe de pesquisadores para ampliar o acervo e produzir material para divulgação da história da Maré. “Através desse resgate da história local é que se vê o quanto a cidade é múltipla e diversa. Apesar das distâncias sociais criadas e dos preconceitos, é preciso lembrar que as histórias dos bairros do subúrbio e das favelas fazem parte da história da cidade do Rio de Janeiro como um todo”, afirma a historiadora.

Referências culturais

Lidar com a diversidade cultural presente num bairro, mas também com as suas tensões e contradições sociais: essa é a intenção do projeto “Multiculturalismo em situação urbana – inventário de referências culturais do bairro do Bom Retiro”, em São Paulo, cuja etapa inicial – um mapeamento de fontes de informação sobre o bairro - acaba de ser concluída pelo Iphan em parceria com o Departamento de Patrimônio Histórico (DPH) da prefeitura da cidade de São Paulo.

O inventário é um conjunto de ações de pesquisa e documentação voltadas para a identificação e o conhecimento de um determinado bem, território, manifestação cultural etc, ou seja, é realizado um mapeamento a partir de pesquisa e documentação sobre a dinâmica cultural. Além do Bom Retiro - onde está sendo realizado um inventário sobre uma situação urbana - sítios já tombados pelo governo federal também estão sendo inventariados tais como as cidades de São Luís do Maranhão; Cachoeira, na região do chamado Recôncavo Baiano; e Natividade, no estado do Tocantins.

“Esses inventários são importantes para se romper com a idéia de que o chamado patrimônio imaterial e as referências culturais dessa natureza são ligadas apenas às comunidades tradicionais, rurais, apartadas dos grandes centros urbanos. As populações urbanas também possuem suas referências, também praticam suas expressões culturais”, afirma Márcia Sant’Anna, Diretora do Departamento de Patrimônio Imaterial do Iphan.

O mapeamento do Bom Retiro consistiu num levantamento de fontes de informação, de várias ordens, relevantes para se entender a dinâmica cultural do bairro. Foram realizados contatos com instituições locais como as associações comerciais, comunitárias e instituições religiosas; um levantamento da cartografia da região; e a constituição de um acervo documental, que ainda está em andamento.

Segundo Mauro Bondi, responsável geral pelo inventário e arquiteto da 9a. Superintendência do Iphan, em São Paulo, uma das intenções do trabalho é entender a formação do Bom Retiro como território, além da constituição histórica de suas fronteiras e limites. Uma das equipes envolvidas na pesquisa trabalhou com a cartografia, localizando mapas da região, muitos dos quais pouco conhecidos, tais como os dos antigos loteamentos que, no final do século XIX, deram início à ocupação urbana do bairro. Até então, a região era um reduto de chácaras e sítios às margens do rio Tietê. Com os loteamentos, o Bom Retiro se transforma num dos primeiros bairros operários da cidade de São Paulo, habitado principalmente por ingleses – que vieram participar da construção da ferrovia, inaugurada em 1867, e trouxeram o futebol para a cidade – e italianos, trabalhadores da então incipiente indústria de fiação e tecelagem do bairro.

A primeira etapa do inventário também foi importante para a viabilização de um dos objetivos previstos no Programa Nacional de Patrimônio Imaterial, instituído em 2000: a consolidação de parcerias locais. Criou-se um termo de cooperação técnica entre o Departamento de Patrimônio Histórico (DPH) do município de São Paulo e o Iphan. “Essa parceria foi muito importante para a criação de vínculos entre os técnicos do DPH e os do Iphan, numa área em que, até então, ambas as instituições ainda não haviam atuado sistematicamente, que é o patrimônio imaterial”, lembra Pedro Corsi Okabayashi, responsável pela coordenação metodológica do inventário, na área de antropologia.

A próxima fase do projeto consiste na identificação de bens culturais da região que poderão, futuramente, integrar um plano de salvaguarda ou mesmo ser tombados ou registrados pelo Iphan. “Institucionalmente, tratam-se de diferentes instâncias de classificação: o inventário é a primeira e, por isso, ele deve ser o mais inclusivo possível. Depois disso pode-se propor a identificação como bem cultural, de certas referências, através de uma ação de patrimonialização. Porque nem todas as referências culturais, que são importantes para a compreensão de uma dinâmica cultural, precisam, necessariamente, ser patrimonializadas”, afirma Pedro Okabayashi.

Nesse contexto, surge a necessidade de se romper com a noção de preservação do patrimônio cultural desvinculada do seu uso social. Podem, assim, ganhar relevância tanto a dimensão de cidadania quanto a questão da sustentabilidade. “A relevância do inventário é que ele pode, muitas vezes, revelar, para os próprios moradores, a importância e o modo como eles mesmos podem se apropriar desse patrimônio, podendo reivindicar, junto ao Iphan, determinadas posturas e possíveis ações sobre a sua região”, defende Pedro Okabayashi.

Uma outra perspectiva possível seria focalizar as atividades econômicas que a própria cultura pode produzir. “As referências culturais podem se tornar importantes fontes para o desenvolvimento econômico e social, desde que se monitore e se regule adequadamente sua apropriação econômica, para que não sejam comprometidas, ou mesmo destruídas, durante esse processo”, lembra Sant’Anna.

Preconceito e estereótipos

Uma das conclusões da primeira etapa do Inventário de Referências Culturais do Bom Retiro é a de que a atividade comercial em torno da confecção e da venda de roupas é central para se compreender a dinâmica cultural do bairro. De modo transversal à atividade comercial aparece a questão da imigração. O comércio de roupas e a presença de imigrantes e seus descendentes, portanto, são dois elementos que, historicamente, caracterizam a constituição do Bom Retiro, a partir dos quais as relações entre brasileiros (principalmente nordestinos), italianos, judeus, coreanos e bolivianos (dentre vários outros grupos étnicos presentes na região) foram sendo construídas.

Esses imigrantes encontraram na produção e no comércio de roupas do bairro um modo de ascender socialmente. As relações comerciais também incentivaram o estabelecimento de uma sociabilidade comum entre comunidades étnicas que tendem a se manter fechadas entre si. A história da imigração e da ocupação do bairro, portanto, é importante para se entender a dinâmica da convivência no Bom Retiro.

Os coreanos, cuja imigração aconteceu mais intensivamente a partir da década de 1960, quando o bairro já apresentava um perfil mais comercial, não compartilham um longo passado comum na região, diferente dos italianos e judeus – os primeiros e mais expressivos grupos de imigrantes -, e tendem a ser vistos com mais preconceito pelos outros grupos.

É o que se pode notar, muitas vezes, nas denúncias envolvendo a exploração de trabalhadores ilegais bolivianos por parte de pequenos empresários coreanos da indústria de confecção. Para Pedro Okabayashi, é preciso cautela para se tratar dessa relação, cautela que, muitas vezes, vem sendo deixada de lado nas denúncias feitas pela imprensa, que tende a generalizar e simplificar as relações entre as duas comunidades. “Muitas vezes cai-se no maniqueísmo ao se dizer que todos os coreanos são exploradores de mão-de-obra escrava e todos bolivianos são apenas vítimas dessa exploração. Denúncias semelhantes eram feitas, na década de 1960, em relação aos judeus e à exploração de mão-de-obra coreana”, lembra Okabayashi, ao enfatizar que, embora o trabalho escravo e a imigração clandestina sejam, de fato, problemas presentes na região, não se pode associá-los a determinadas comunidades étnicas: são comportamentos singulares que, ao serem atribuídos a um grupo social como um todo, acabam dando margem a estereótipos e preconceitos.

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