Meio Ambiente

Interação entre pesquisadores, população e poder público é foco de projeto de recuperação ambiental

terça-feira 29 de novembro de 2005.
 
Integrar conhecimentos e ações de instituições de pesquisa, população e poder público é o desafio de um projeto desenvolvido na cidade de Campinas (SP). O objetivo do projeto é realizar um amplo levantamento de dados sobre meio físico, vegetação e população da bacia, os quais possam dar suporte ao planejamento de políticas públicas que promovam melhorias na qualidade ambiental e nas condições de vida.

Integrar conhecimentos e ações de instituições de pesquisa, população e poder público é o desafio de um projeto desenvolvido na cidade de Campinas (SP). O projeto “Recuperação ambiental, participação e poder público: uma experiência em Campinas”, que é financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), teve início em abril de 2003, envolvendo pesquisadores e técnicos do Instituto Agronômico de Campinas (IAC), Instituto de Geociências (IG) da Unicamp e Prefeitura Municipal de Campinas, além da colaboração do Instituto Florestal e das Universidades de Brasília (UnB) e São Marcos (campus de Paulínia-SP).

O projeto é mais conhecido como “Projeto Anhumas”, pois tem como foco de atuação uma importante bacia hidrográfica do município: a bacia do ribeirão Anhumas. O objetivo principal do projeto é realizar um amplo levantamento de dados sobre meio físico, vegetação e população da bacia, os quais possam dar suporte ao planejamento de políticas públicas que promovam melhorias na qualidade ambiental e nas condições de vida.

A bacia do Anhumas abrange uma área de aproximadamente 150 km2, sendo que cerca de 50% dela se encontra urbanizada. A heterogeneidade social na bacia - que abriga quase 300 mil habitantes - é marcante: condomínios luxuosos em áreas nobres contrastam com favelas localizadas nos fundos de vales. Entre os problemas ambientais existentes na bacia, destacam-se a poluição das águas e o desmatamento.

“A concepção básica do projeto é a de que não se consegue resolver os problemas ambientais sem considerar a questão social”, explica Roseli Torres, bióloga, pesquisadora do IAC e coordenadora-geral do projeto. Segundo a pesquisadora, a participação da população é fundamental para isso. “Quando elaboramos o projeto, achávamos que era importante envolver o poder público, mas não era suficiente. Não queríamos ficar na dependência de conseguir implementar as ações somente via poder público; queríamos construir um vínculo com a comunidade”, revela a bióloga, que também é uma das idealizadoras do projeto. “O objetivo é conseguir construir um diagnóstico da bacia a partir de vários olhares, inclusive o olhar da comunidade”, complementa.

Uma das formas de participação mais direta da população no diagnóstico da bacia se dá no mapeamento de riscos ambientais. Nessa atividade, moradores e membros de diversas entidades situadas na bacia são convidados para reuniões públicas nas quais compartilham seus conhecimentos e experiências para levantar e localizar os riscos ambientais existentes nos diferentes setores da bacia (alto, médio e baixo cursos).

Os geógrafos Archimedes Perez Filho e Salvador Carpi Júnior, ambos do Instituto de Geociências da Unicamp e responsáveis por essa parte do projeto, explicam que as informações e mapas produzidos nas reuniões são, depois de compilados e organizados, apresentados novamente à comunidade, servindo de base para proposição de soluções aos problemas apontados. “Já existem grupos se organizando para intervir em algumas situações de risco que foram levantadas na bacia”, destaca Carpi Júnior.

Perez Filho lembra que a reunião com maior número de pessoas foi a ocorrida para mapeamento dos riscos ambientais do médio curso da bacia, região onde são encontradas favelas habitadas por uma população bastante vulnerável ao risco de inundações. “A grande participação dessa população demonstra o interesse em encontrar alternativas para um problema concreto e frequente”, afirma o pesquisador. Uma das metas atuais do projeto é ampliar ainda mais o envolvimento da população, estimulando a articulação e troca de experiências entre os movimentos organizados dos diferentes setores da bacia.

Vegetação nativa e formulações de políticas públicas:

Os pesquisadores do projeto diagnosticaram uma situação extremamente crítica em relação à vegetação: restam apenas cerca de 3% de cobertura vegetal nativa na bacia. Segundo Roseli Torres, a maior parte está contida em fragmentos com áreas inferiores a 10 hectares, que por estarem isolados uns dos outros, comprometem sua manutenção. A bióloga destaca ainda que, nos levantamentos botânicos realizados no âmbito do projeto, a quantidade de árvores mortas encontradas nessas áreas fragmentadas é bastante elevada, muitas delas com sinais de queimadas de origem antrópica (relativa a ação humana).

Outro problema constatado refere-se aos fragmentos situados em condomínios fechados de alto padrão que, a pretexto de promoverem melhorias paisagísticas, causam alterações nos remanescentes (como introdução de espécies exóticas).

Com base nos dados levantados pelo projeto, os pesquisadores pretendem eleger uma região da bacia que seja prioritária para conservação e recuperação da vegetação. Além disso, faz parte das propostas de políticas públicas o manejo de parques públicos e a arborização urbana. De acordo com a pesquisadora do IAC, algumas dessas propostas já foram incorporadas em decreto municipal.

Segundo Perez Filho, a intenção é que os demais resultados do projeto tenham encaminhamento semelhante: “Espera-se que a prefeitura tenha conhecimento dos resultados e possa aproveitá-los no seu planejamento”. Contudo, o geógrafo revela que nem sempre é tarefa fácil trabalhar com o poder público. “O trabalho acadêmico é muito mais difícil de ser realizado quando se envolve um órgão público, que tem uma rotatividade de pessoas e políticas diferenciadas que ocorrem não só entre gestões, mas mesmo dentro de uma mesma gestão”, afirma.

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