Aftosa

Focos da doença refletem subdesenvolvimento do país

segunda-feira 21 de novembro de 2005.
 
Com tecnologia, o gado brasileiro (chamado de “boi verde” devido à alimentação vegetariana) ganhou espaço e conceito no mercado internacional. Mas no ano em que o País se tornaria território livre da aftosa, meta prevista pelo Programa Nacional de Erradicação da Febre Aftosa (PNEFA), 49 países restringem a importação da carne brasileira. O pesquisador da Embrapa Gado de Corte, Pedro Paulo Pires, afirma que o surgimento de 21 focos da doença no Mato Grosso do Sul (MS) é problema da falta de informação dos pecuaristas.

Com tecnologia, o gado brasileiro (chamado de “boi verde” devido à alimentação vegetariana) ganhou espaço e conceito no mercado internacional. Mas no ano em que o País se tornaria território livre da aftosa, meta prevista pelo Programa Nacional de Erradicação da Febre Aftosa (PNEFA), 49 países restringem a importação da carne brasileira. O pesquisador da Embrapa Gado de Corte, Pedro Paulo Pires, afirma que o surgimento de 21 focos da doença no Mato Grosso do Sul (MS) é problema da falta de informação dos pecuaristas.

Ele esclarece que o gado foi imunizado, mas os produtores aplicam vacina armazenada fora da temperatura indicada (entre 4 a 8 graus). Segundo Pires, a responsabilidade é coletiva, porque se um produtor não imunizar a criação e essa for infectada, todo o estado não pode vender carnes e alguns produtos, como a melancia, que também teve a comercialização vetada para outros lugares do país. “O problema é instrucional, os produtores não recebem condições e informações de como guardar a vacina. Alguns não têm nem termômetro para verificar a temperatura”, ressalta o pesquisador do MS.

Em quase todos os estados do Brasil, a vacinação é obrigatória para conter a aftosa (principalmente no contexto brasileiro onde as fronteiras são fiscalizadas de forma precária) e para diminuir danos aos pecuaristas. Desde 2000, apenas Santa Catarina é considerada pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) livre de aftosa sem vacinação. Com a crise, a Secretaria da Agricultura catarinense reforçou as barreiras sanitárias com a ajuda do exército. Segundo informações da Companhia Integrada de Desenvolvimento Agrícola de Santa Catarina (Cidasc), se descoberta a vacinação de animais, o rebanho será sacrificado e o produtor não terá direito à indenização. Ainda, o pecuarista pode ser acusado de difundir doenças e se culpado, a reclusão varia de dois a cinco anos.

Pressão

A luta para a erradicação da aftosa é estimulada pelo mercado internacional, porque ele paga mais pela carne proveniente de território livre de aftosa sem vacinação. O professor da Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Pedro de Felício constata que “a vacinação não desvaloriza a carne, mas o fato de um país não ter ainda erradicado a doença a ponto de não precisar mais vacinar”. Ele explica que o prejuízo ao produtor com a vacinação é a retirada de meio quilo de carne de pescoço (paleta) no local da aplicação.

Com relação ao embargo do mercado internacional, Felício avalia que não será preciso agradar a ninguém para que os importadores retornem ao mercado brasileiro. Segundo ele, os preços do mercado internacional já subiram muito. “O mundo precisa de carne brasileira que é muito barata e bastante saudável, processada pelos frigoríficos mais higiênicos do planeta”, opina o especialista em produtos de origem animal.

Erradicação

Desde 1960, o Brasil institucionalizou a luta para acabar com a doença, o que também representou aumento de recursos destinados à campanha. A quantia investida saltou de US$ 85 milhões em 1992 para US$ 196 milhões em 2004 (a iniciativa privada foi responsável por 81% desse valor). Além de privados, esses recursos são provenientes dos governos federal e estadual e não incluem gastos com salários e com vacinas. Em 2005, depois dos focos, foram liberados para o MAPA R$ 33 milhões, destinados à erradicação da febre aftosa (incluindo o pagamento de indenizações) e ao apoio à população dos cinco municípios onde o vírus se manifestou.

Apesar dessa iniciativa, o pesquisador do Núcleo de Biossegurança da Fundação Oswaldo Cruz, Gabriel Schütz analisa que as políticas elaboradas pelo PNEFA são verticais (de cima para baixo). “É preciso fazer um programa que integre várias perspectivas, que escute mais as pessoas envolvidas. Mas isto desde o momento da formulação dos programas, e não como normalmente acontece: uma consulta formal depois que as decisões foram tomadas”, explica.

Outra instituição que atua no Brasil e na América é o Centro Pan-Americano de Febre Aftosa (Panaftosa), criado há 54 anos e vinculado à Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS). Ele também realiza pesquisas e atividades, como o Programa Hemisférico para a Erradicação da Febre Aftosa (PHEFA). Em 2004, numa conferência, chegou-se à Declaração de Houston, acordo que estabeleceu o compromisso de extinguir a doença na América do Sul até 2009. Segundo relatório do PNEFA (2004) dos 11 países da América do Sul, apenas o Chile e as Guianas são considerados territórios livres sem vacinação. Paraguai, Venezuela e Equador estão infectados com a doença e os países restantes têm zona livre de aftosa, exceto o Uruguai, que não apresenta mais a doença por vacinar o gado.

Uma ação conjunta com os países que fazem fronteira com o Brasil deve ser realizada porque o vírus se espalha facilmente. Embora sem provas, o Relatório do Departamento de Operações de Fronteira (DOF) divulgado em outubro pelo governo de MS reforça indícios de que a origem dos focos de febre aftosa no Estado seja proveniente do Paraguai onde é comum a compra de animais pelos brasileiros por preços mais baixos se comparados do Brasil. No entanto, Pires considera que o vírus está presente na fronteira e a saída para exterminá-lo é a vacinação correta do gado brasileiro e paraguaio ou a vigilância cerrada da fronteira.

Riscos

Doutor em saúde pública, Schütz, avalia que a aftosa não representa ameaça à saúde humana. O mais grave são os efeitos econômicos. Ele alerta também para o problema ambiental causado pelo maior rebanho de gado comercial do planeta (segundo IBGE, em 2003, só o rebanho bovino estava estimado em quase 196 milhões de cabeças). “Primeiro se desmata para criar gado, depois se mata o gado e se enterram as carcaças em imensas valas. Trata-se de uma agressão ambiental cujo impacto à saúde é incerto”, avalia.

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