Meio Ambiente

Incertezas sobre mudanças climáticas precisam ser ressaltadas

sexta-feira 18 de novembro de 2005.
 
A necessidade de evidenciar à sociedade, especialmente aos tomadores de decisão, as incertezas inerentes aos modelos de previsão de mudanças climáticas foi um dos assuntos da “II Conferência Regional sobre Mudanças Globais: América do Sul”, que reuniu pesquisadores de vários países para apresentar o panorama atual das pesquisas sobre mudanças climáticas no continente sul-americano e discutir uma agenda de investigações futuras.

A necessidade de evidenciar à sociedade, especialmente aos tomadores de decisão, as incertezas inerentes aos modelos de previsão de mudanças climáticas foi um dos assuntos da “II Conferência Regional sobre Mudanças Globais: América do Sul”, que reuniu pesquisadores de vários países para apresentar o panorama atual das pesquisas sobre mudanças climáticas no continente sul-americano e discutir uma agenda de investigações futuras.

Entre os participantes da conferência, Walter Baethgen, do Instituto de Pesquisa para Previsão Climática (IRI - Estados Unidos), foi um dos que mais defendeu a importância de se destacar na interação entre geradores e usuários dos modelos não só os cenários futuros previstos, mas também o grau de incerteza associado a cada um deles. “Um problema sério de comunicação científica é que os resultados das pesquisas são apresentados de modo extremamente simplificados”, criticou Baethgen. “Isto é um risco muito grande, pois os usuários dos modelos, incluindo tomadores de decisão e os próprios cientistas, os entendem como cenários verdadeiros”, advertiu. O pesquisador lembrou que as incertezas podem ser tão grandes que, em alguns casos, diferentes modelos aplicados para uma mesma região podem apresentar previsões completamente opostas em relação, por exemplo, a aumentos ou diminuições de temperatura e chuva.

A existência de tanta incerteza, no entanto, não significa que os modelos não sejam úteis. “A modelagem é a única forma para poder fazer previsões de como poderá ser o clima no futuro”, ressalvou José Marengo, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). As incertezas das previsões têm várias origens: compreensão ainda limitada da dinâmica atmosférica e de sua relação com as dinâmicas hidrológica e dos ecossistemas, a partir das quais são baseadas as equações matemáticas para funcionamento dos modelos; imprecisões e lacunas no registro dos dados climáticos do passado (histórico e geológico), que servem como ponto de partida para as projeções sobre o clima futuro; e o próprio caráter probabilístico das análises estatísticas a que os dados são submetidos.

No caso dos modelos que buscam avaliar os impactos das mudanças climáticas em determinado setor (como agricultura, saúde ou ecossistemas naturais), a maior dificuldade refere-se às projeções de como será o cenário socioeconômico futuro, que é determinante para se tentar prever, por exemplo, os níveis de emissão de gases de efeito estufa e mudanças no uso das terras. “Isto faz com que os modelos tenham um grande grau de imprecisão, pela própria natureza das incertezas sobre as tendências de crescimento da economia mundial”, apontou o pesquisador Weber Amaral, da Universidade de São Paulo (USP).

Segundo Baethgen, todas essas limitações não podem ser ignoradas quando os resultados das previsões de mudanças climáticas e seus impactos são apresentados aos tomadores de decisão para subsidiar suas ações de planejamento. “Se realmente um dos objetivos do trabalho científico é ter algum impacto social, os resultados devem ser expressos de maneira bem inteligível e destacando sempre a medida da incerteza associada, que é a característica mais importante de qualquer pesquisa em mudança climática”, destacou o pesquisador. Essa também foi a opinião de Marengo. “Temos que qualificar as incertezas e inseri-las na informação, indicando qual o grau de confiabilidade da previsão climática fornecida pelo modelo”, defendeu.

De acordo com o pesquisador do INPE, a preocupação está presente no projeto “Cenários Climáticos Regionalizados de Mudanças Climáticas para América do Sul” (CREAS), por ele coordenado. Segundo Marengo, o objetivo do projeto é usar modelos que forneçam aos tomadores de decisão cenários futuros mais detalhados - acompanhados de suas respectivas incertezas - sobre mudanças climáticas e seus impactos para diferentes regiões do continente sul-americano, uma vez que as previsões atualmente disponíveis são pouco precisas para esta escala espacial. Leia mais:

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