Desnutrição infantil no NE pode ser controlada em dez anos

quinta-feira 2 de setembro de 2010.
 

Por Carolina Octaviano

Estudo constatou que, além da escolaridade da mãe, a disponibilidade de serviços de saneamento básico e o aumento do poder aquisitivo também foram responsáveis pelo declínio da desnutrição em crianças do Nordeste brasileiro. O trabalho, realizado por pesquisadores do Núcleo de Pesquisa Epidemiológicas em Nutrição e Saúde e do Departamento de Nutrição da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP) e feito por meio da análise de documentos de duas décadas (1986 - 1996 e 1996 - 2006) provenientes do programa Demographic Health Surveys, revelou que, na primeira década estudada (1986 - 1996), os principais fatores para a diminuição da desnutrição foram a melhoria na escolaridade materna e a disponibilidade de serviços de saneamento. Já no segundo período (1996 - 2006), foram decisivos o aumento do poder aquisitivo das famílias mais pobres e, novamente, a melhoria da escolaridade materna. O estudo aponta ainda para resultados futuros, pois, se a taxa de declínio observada entre 1996 e 2006 for mantida, em menos de dez anos o problema da desnutrição infantil no Nordeste poderá ser controlado.

Para Ana Lúcia Lovadino de Lima, doutora em saúde pública pela USP e uma das pesquisadoras responsáveis pelo estudo, “a evolução da escolaridade materna (fator que está presente nas duas décadas estudadas) teve um importante impacto na diminuição da desnutrição infantil, principalmente no segundo período. Isso se deve ao fato da escolaridade da mãe estar fortemente associada com o cuidado que ela dará ao filho e, com isso, a uma saúde adequada da criança”. Entretanto, de acordo com a pesquisadora, deve-se ter em mente a importância de todos estes fatores interligados. “A evolução conjunta dos outros fatores estudados e da escolaridade materna contribuiu de forma importante para que a evolução ocorresse de forma acelerada. A evolução isolada de qualquer um dos fatores não teria permitido aumento tão significativo”, afirma. Pois, para que se obtenha a nutrição e a saúde adequadas, uma série de fatores deve ser levada em consideração, entre eles: o acesso à uma alimentação adequada; aos serviços de saúde; às condições adequadas de moradia e higiene e etc. “A escolaridade já teve uma evolução importante que precisa ser mantida, mas outros aspectos também essenciais precisam evoluir para que a prevalência da desnutrição infantil alcance índices ainda menores”, complementa.

Ana Lúcia salienta também que os resultados encontrados na pesquisa foram mais positivos do que o grupo de pesquisadores esperava. “A prevalência de desnutrição infantil no Brasil vinha diminuindo nas últimas décadas, mas de forma desigual entre as regiões. No último período estudado observamos que a região Nordeste do país apresentou índices similares às regiões mais desenvolvidas, como a Sudeste e Sul, indicando diminuição das desigualdades de desenvolvimento inter-regionais”, completa. Deve-se ressaltar ainda que a meta estipulada pelas Nações Unidas referentes à desnutrição infantil já foi ultrapassada na região. “A meta do milênio é reduzir a prevalência da desnutrição infantil observada antes da década de 90 em 50% até o ano de 2015. Essa meta já foi atingida na região, por isso será facilmente ultrapassada”, explica. A pesquisadora afirma que “a principal contribuição que o estudo deixa é em relação à indicação de quais são os aspectos que precisam de maior investimento público para o combate ao problema”, conclui.

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