Pensamento político de esquerda introduziu problemática ambiental

segunda-feira 21 de junho de 2010.
 

“O papel dos diversos movimentos da contracultura é fundamental e fundador do ambientalismo, na medida em que permitiu formular uma crítica, abrangente e pioneira, da sociedade e da cultura ocidentais”, afirma Gustavo Costa Lima, doutor em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), especialista em Sociologia Ambiental e professor da Universidade Federal da Paraíba. Somente a partir da segunda Guerra Mundial é que se estabelece a questão ambiental contemporânea, tendo uma contribuição bastante significativa dos inúmeros grupos que compunham o movimento da contracultura.

Para o pesquisador, autor do artigo “Educação ambiental crítica: do socioambientalismo as sociedades sustentaveis” - publicado no volume 35 da revista Educação e Pesquisa -, uma das contribuições desses grupos está justamente na crítica ao sistema capitalista e ao consumismo exacerbado que o cerca, trazendo uma visão alternativa sobre os mais variados temas sociais. “Assim, todos esses movimentos anti-nucleares, pacifistas, de direitos civis, de mulheres, dos hippies e de defesa da natureza, trouxeram ao debate um novo olhar alternativo, que apontava para o esgotamento dos valores culturais ocidentais e criticava a guerra, o consumismo, a busca ilimitada e insana de lucro e crescimento econômico; o autoritarismo de todos os matizes, a repressão sexual, a razão científica instrumental e a própria ideia iluminista de progresso”.

A inquietude e a preocupação com o meio ambiente são características do mundo contemporâneo. Entretanto, pensadores como Karl Marx já mencionavam a poluição industrial como um fator negativo - embora não criticasse a questão diretamente e esta não fosse tratada como um problema social. “Antes dessa articulação dentro do pensamento crítico de esquerda, seja de origem socialista ou anarquista, a análise dos problemas ambientais tinha uma ênfase biologizante, naturalista, que deixava de lado os condicionamentos políticos e sociais da crise ambiental”, explica.

Atualmente, é comum associar inúmeros políticos membros de partidos da chamada esquerda liberal como militantes das causas ambientais. “Tradicional e historicamente, os políticos e pensadores de esquerda são definidos pelo maior compromisso com as questões públicas e com os valores da igualdade, solidariedade e justiça social, embora no cenário político contemporâneo essas fronteiras ideológicas já apareçam mais borradas e indistintas”. O pesquisador complementa apontando que a população deve se manter atenta para não ser vítima de políticos que tratam as questões ambientais com oportunismo. Ainda de acordo com Lima, é possível enxergar um esforço da direita conservadora em trazer a questão ao seu favor, utilizando estratégias como os mercados e consumo verdes, a gestão ambiental empresarial, a modernização ecológica, a responsabilidade ambiental, entre outras. “Desde que a questão ambiental conquistou reconhecimento público e legitimidade, as forças de direita se esforçam por capturá-la e colocá-la a seu favor, a favor de seus interesses que são os interesses do capitalismo de mercado”.

A introdução do pensamento ambientalista no Brasil

Historicamente, Lima cita que José Bonifácio, ao testemunhar e reagir ao modo predatório como o Brasil se desenvolvia desde que era colônia, destruindo matas, explorando os recursos naturais até a escassez, implantando monoculturas escravistas etc, ajudou a moldar pensamento ambiental. Mais recentemente, as questões e a preocupação com o meio ambiente no país foram consolidadas por diversos fatores externos e internos. Internacionalmente, vieram os resultados e pressões das conferências da Organização das Nações Unidas (ONU) e de outros organismos estrangeiros, junto com a influência cultural e ideológica advindas da contracultura. Exemplificando, Lima afirma que “a pressão dos organismos internacionais forçou o governo brasileiro a constituir um sistema de agências ambientais começando com a Sema (Secretaria Especial de Meio Ambiente), no início da década de 70, as agências estaduais como a Feema (Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente), no Rio de Janeiro e a Cetesb (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo), entre tantas outras iniciativas que compõem o ambientalismo governamental”.

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