Programa leva fundamentos das geociências para a educação básica

sexta-feira 30 de abril de 2010.
 

O currículo disciplinar do ensino fundamental e médio, no Brasil, inclui ciências clássicas como química, física e biologia, mas exclui outras áreas de conhecimento fundamentais na formação da cultura contemporânea. É o que ocorre com a geologia. Buscando preencher esta lacuna e superar a falta de interdisciplinaridade no conhecimento que é oferecido na educação básica, o Instituto de Geociências da Universidade Estadual de Campinas mantém, desde 1996, um programa de formação e capacitação de professores em ciências da Terra. Atualmente, o programa tem pouco mais de sessenta professores da rede pública em suas fileiras, e vem produzindo resultados animadores: não apenas mostra ser possível formar um corpo docente capacitado para ensinar uma imagem sistêmica do planeta em que vivemos, como pode produzir nos alunos uma visão mais realista sobre os processos naturais que chegam a afetar muitos deles, como enchentes, alagamento e deslisamentos.

Como o conjunto de conhecimentos que chamamos de geologia está diluído em várias disciplinas na educação básica, o tratamento usualmente dado a esse campo científico geralmente deixa muito a desejar. Pedro Wagner Gonçalves, um dos pesquisadores do IG responsáveis pelo programa, afirma que “uma das principais deficiências na educação básica, com relação às ciências da Terra, é que não há uma ideia de sistema sendo trabalhada. Não há uma visão do planeta Terra como um sistema natural”. Pior: noções fundamentais para a concepção de mundo contemporânea, como a ideia de tempo geológico (escala de milhões a bilhões de anos), que são frutos do desenvolvimento das ciências da Terra desde o século XVIII, não são trabalhadas de maneira adequada, justamente pela falta de autonomia da geologia como disciplina na educação básica. Por esse motivo, o programa “exige que os professores façam uma introdução à geologia para os alunos”, diz Gonçalves. Como os docentes não têm formação prévia nos rudimentos da geologia que os possibilite fazer isso, o programa tem como pressuposto a capacitação dos professores, das mais diversas áreas, nos fundamentos das ciências da Terra. O objetivo do programa é “fazer um design do que pode ser ensinado e como relacionar disciplinas diferentes”, diz Gonçalves. Por isso, o trabalho é feito em eixos temáticos, que variam da teoria de sistemas (que lida com a ideia de transformação da natureza) ao estudo do meio-ambiente e do espaço urbano do ponto de vista ambiental.

Embora a execução do projeto seja feita de maneira individual pelos professores, em sala de aula, a preparação das aulas se dá de maneira coletiva - ela é feita entre o grupo todo, professores e pesquisadores. “Se queremos introduzir uma mudança curricular, é preciso criarmos uma dinâmica de colaboração, de áreas e backgrounds diferentes”, afirma Gonçalves. Para avaliar os avanços, tanto com relação à formação dos professores quanto à dos alunos, são utilizados vários métodos: gravam-se ou filmam-se os encontros do programa e as aulas, examina-se o registro no caderno do professor. Um membro do programa geralmente participa das aulas como observador, anotando os principais pontos da intervenção para futura discussão.

Segundo Gonçalves, o “processo de formação continuada de professores para ciências da Terra do IG busca investigar a formação dos alunos no sistema Terra junto com os professores”. Dessa forma, “o papel da universidade torna-se um papel mais interativo, de colaboração, do que de instrução específica”, arremata o pesquisador. No início do programa, os professores eram convidados a participar. Hoje, a participação tem sido voluntária, sem que seja necessária a ida dos pesquisadores até as escolas. Sinal de que a interdisciplinaridade e o esforço de compreensão de nosso planeta podem ser mais do que bem-vindas na educação básica.

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