Mulheres são minoria nas áreas tecnológicas

terça-feira 23 de fevereiro de 2010.
 
Estudos realizados na Universidade Estadual de Campinas e na Universidade Federal de Viçosa revelaram que nos cursos de exatas e engenharias e nas atividades ligadas à tecnologia há uma prevalência de estudantes do sexo masculino, mas essa tendência começa a se reverter

Por que há menos mulheres do que homens em cursos voltados para o conhecimento científico e tecnológico? Duas pesquisas provenientes da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e da Universidade Federal de Viçosa (UFV), publicadas respectivamente no Cadernos Pagu e na revista Ciência Rural, tentam responder os motivos dessa indagação.

No primeiro caso, as professoras associadas Sandra Brisolla, do Instituto de Geociências da Unicamp, e Elza Vasconcellos, do Instituto de Física Gleb Wataghin, da mesma instituição, pesquisaram a situação atual das mulheres na ciência por meio de um estudo de caso dos alunos e docentes da Unicamp. A distribuição da amostra levantada por elas, segundo áreas do conhecimento e sexo, revela que há uma predominância de estudantes do sexo masculino nas áreas mais tecnológicas. Para citar dois exemplos, o predomínio nas ciências exatas é de 73,6% e nas engenharias de 76,2%. “Tivemos a preocupação com o fato de que há muito poucas mulheres batendo nas portas desses cursos e não haveria motivos para ser assim”, disse a economista Sandra Brisolla.

Já o estudo realizado por pesquisadores dos Departamentos de Economia Rural e Doméstica da UFV, analisa a baixa frequência da participação das mulheres em cursos técnicos nas áreas rurais. Para isso, tomaram como amostra a participação de mulheres e homens em cursos oferecidos pela UFV durante a Semana do Fazendeiro, uma atividade de extensão que busca todo ano difundir conhecimentos técnicos de diversas áreas de atuação da universidade. Os cursos relacionados às atividades voltadas para o mercado de produtos artesanais e de processamento de alimentos, são predominantemente frequentados por mulheres, enquanto naqueles relativos às atividades voltadas para o mercado de produtos de criação animal e de produção vegetal, cursos agrupados no tema da tecnologia na agricultura, prevalece a participação masculina.

Os homens também têm um ingresso maior nos cursos mais técnicos na Unicamp, entretanto as mulheres que optam por cursos tidos como “masculinos” apresentam um bom rendimento acadêmico. Apesar da diferença ser apenas de 5% do rendimento relativo médio entre os sexos, este dado mostra que tanto as mulheres quanto os homens são igualmente capazes de seguir carreiras das ciências mais diversas. “O que concluímos não é que as mulheres têm um rendimento maior, o que ocorre na amostra analisada. Na verdade o que queremos mostrar é que é igual. E que não há motivos para deixar as mulheres fora das áreas exatas, das áreas tecnológicas, porque essas áreas irão se beneficiar com a presença maior de mulheres. Com elas, essas áreas terão o dobro de pessoas que têm hoje”, informa Sandra Brisolla.

A conclusão de ambos os estudos é que o maior fluxo de homens em cursos técnicos se deve a questões de fundo cultural e social, por existirem ainda muitos preconceitos arraigados em nossa sociedade. Segundo a socióloga Ana Louise Fiúza, da UFV, uma das autoras da pesquisa, mesmo vivendo numa época de muito dinamismo, flexibilidade e pluralismo de papéis e condutas sociais, o estudo mostra que o principal motivo da baixa representatividade das mulheres nos cursos no campo das Ciências Agrárias teve como base a questão cultural, a qual acaba delimitando o conhecimento científico e técnico como áreas restritas ao universo masculino. “No meio rural, em específico, os valores religiosos, os costumes e as tradições associadas ao modo de vida dos agricultores familiares alimentam, ainda, muitas diferenciações em termos de direitos e deveres em relação a homens e mulheres”, diz Fiúza. Além disso, segundo a pesquisadora, a perpetuação do sexismo no acesso a informações relativas às inovações tecnológicas, voltadas para o meio rural, ocorrem em função da invisibilidade dessa desigualdade.

A pesquisa da UFV mostra também que ao longo dos anos não houve uma tendência de aumento da participação feminina nos cursos. Talvez, se fossem percebidas como produtoras rurais ao invés de esposas de produtores rurais, as mulheres no meio rural pudessem receber, assim como os homens, assistência técnica e crédito, aumentando o nível de qualificação profissional da população. “Dentro de uma condição de igualdade de direitos e deveres, os seus projetos de vida deixam de estar ligados indubitavelmente ao cuidado da casa e da família, podendo ganhar direcionamentos conscientes, advindos de seus sonhos e desejos”, disse Fiúza, complementando que não estão envolvidos apenas benefícios materiais como também de ordens pessoais e sociais.

Já os dados do estudo de caso dos alunos da Unicamp indicam que existe uma tendência de acréscimo do número de alunas na universidade, e em boa parte das chamadas hard sciences. Além disso, entre o ano de 1994 e 2004 o percentual de mulheres entre professores titulares na Unicamp dobrou. Só em 2006, as docentes correspondiam a um terço do total do corpo acadêmico. Outro progresso foi com relação ao aumento do número de mulheres docentes em função de direção. Em 1987 elas representavam um quinto do total e no ano de 2006, passaram para um terço.

Para Brisolla e Vasconcellos, mesmo persistindo essa composição de predominância masculina nas áreas científicas e tecnológicas, bem como em cargos de chefia, devemos começar a pensar de forma otimista as relações de gênero, tendo em vista os avanços da emancipação feminina e das demais evoluções ao longo do tempo. No sistema capitalista, houve transformações nas relações de trabalho, na relação do homem com a máquina. “A própria transformação pessoal que houve com a evolução do capitalismo, e avança cada vez mais sobre as relações humanas, faz com que as mulheres tenham uma participação diferente”, conclui Sandra Brisolla.

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