A história da poluição do sedimento na Baixada Santista

terça-feira 26 de janeiro de 2010.
 
Pesquisadores do Instituto de Geociências da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e do Departamento de Geoquímica da Universidade Federal Fluminense (UFF) desvendaram em detalhes a história dos últimos 45 anos de alta deposição de elementos químicos no sedimento do estuário da região de Santos (SP), em decorrência da atividade industrial.

Coletar e selecionar criteriosamente vestígios do passado para contar uma história. Ouvir testemunhos, distinguir detalhes reveladores e interpretar evidências para reconstituir uma realidade de outrora. Eis o ofício dos historiadores. Mas de maneira tortuosamente parecida, é também o que estão fazendo pesquisadores do Instituto de Geociências da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e do Departamento de Geoquímica da Universidade Federal Fluminense (UFF). Eles desvendaram em detalhes a história dos últimos 45 anos de alta deposição de elementos químicos no sedimento do estuário da região de Santos (SP), em decorrência da atividade industrial.

“Perfuramos a uma profundidade de dois metros e sessenta centímetros, e trazemos à superfície o material coletado dentro de um tubo. Depois, abrimos esse tubo e procuramos analisar quimicamente cada camada de sedimento coletado. A isto damos o nome de ’testemunho de sedimento’ ou simplesmente ’testemunho’”, diz o geólogo da Unicamp Wanilson Luiz-Silva, um dos autores de um artigo sobre a pesquisa publicado na revista especializada da Sociedade Brasileira de Química. Como em qualquer boa investigação, um testemunho só revela as melhores informações se bem interrogado. No caso desse “testemunho” coletado no estuário do Rio Morrão, o interrogatório não foi baseado em perguntas incisivas, mas na análise química, que propiciou aos pesquisadores uma série de indícios sobre a história da atividade industrial e de sua relação com a contaminação do ambiente sedimentar na região da cidade de Cubatão.

Cubatão, na Baixada Santista, ficou amplamente conhecida nos anos 1980 como um dos lugares mais poluídos e contaminados do mundo. Um forte processo de industrialização marcou a história da cidade a partir de 1955, quando se iniciou a atividade de refino de petróleo. Em seguida, a construção da Companhia Siderúrgica Paulista (Cosipa) e o início de suas operações em 1963 consolidaram a tendência de industrialização na cidade, que se tornou um dos maiores polos industriais da América Latina.

O trem do progresso industrial brasileiro trabalhava a todo vapor, num momento em que as preocupações ambientais ainda não tinham força suficiente para fazerem-se ouvir. Como uma locomotiva a carvão, que deixa para trás um rastro de fumaça, uma siderúrgica inevitavelmente libera pequenos resíduos da produção do aço na forma de compostos de ferro, e isso foi transportado e depositado no ambiente de Cubatão. Da mesma maneira, a indústria de fertilizantes de Cubatão deixou no sedimento o seu próprio rastro, o fósforo. Ambos, ferro e fósforo, estão relacionados ao fato do ambiente da região estar permeado por uma miríade de elementos contaminantes, incluindo o chumbo. E permitiram aos pesquisadores traçar uma história da deposição desses elementos.

Cotejando as informações obtidas pela análise química do “testemunho” com os dados de produção da siderúrgica de Cubatão, os pesquisadores demonstram uma correlação evidente entre a produção industrial e a contaminação do estuário. A concentração de ferro no sedimento tem um crescimento notável na profundidade correspondente ao período em que a siderúrgica estava sendo construída. O nível permanece estável, quase não se diferenciando da concentração de ferro anterior à atividade siderúrgica, até os 95 cm de profundidade do “testemunho”, quando se observa o início de um grande salto na concentração de ferro. “Isso corresponde ao significativo aumento na produção de aço na segunda metade dos anos 1970”, afirma Luiz-Silva. Um declínio brusco é, então, observado nos níveis de concentração de ferro, justamente na camada correspondente a meados dos anos 1980. “Esses dados estão consistentes com o que ocorreu na época. Medidas governamentais de controle da poluição passaram a ser implementadas a partir de 1984”, diz o geólogo. Desde então, segundo o “testemunho”, os níveis de ferro no sedimento oscilaram muito, sem chegar ao pico observado na camada correspondente ao início dos anos 1980, tampouco chegando perto dos níveis naturais, anteriores à produção de aço na região.

A análise dos níveis de ferro e o estabelecimento da história de sua deposição são importantes para entender a origem de elementos químicos altamente tóxicos presentes em inúmeros ambientes da Terra. Esse estudo demonstra que a presença de elementos como o chumbo está evidentemente associada à presença de ferro, que é uma referência importante da produção de aço. E talvez indique que a compreensão do ambiente que serve aos homens - especialmente o de uma região tão negativamente afetada pelo desenvolvimento industrial - hoje passe pelo entendimento de sua constituição no passado.

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