A relação dos megaeventos com o custo Brasil

sexta-feira 18 de dezembro de 2009.
 
Tanto a copa do mundo de futebol de 2014 quanto as olimpíadas de 2016 podem ser potenciais amenizadores do custo Brasil. Ele representa o conjunto de dificuldades estruturais, burocráticas, econômicas que freiam o desenvolvimento do país e que poderá ser reduzido devido à realização dos megaeventos, ressalta o pesquisador da Unicamp Geraldo di Giovanni.

Tanto a copa do mundo de futebol de 2014 quanto as olimpíadas de 2016 podem ser potenciais amenizadores do custo Brasil. Ele representa o conjunto de dificuldades estruturais, burocráticas, econômicas que freiam o desenvolvimento do país e que poderá ser reduzido devido à realização dos megaeventos, ressalta o pesquisador do Núcleo de Estudos de Políticas Públicas da Unicamp, Geraldo di Giovanni.

Grande parte desse otimismo se deve ao legado dos megaeventos, que podem ser bastante positivos no que se refere à infraestrutura (contrução de instalações esportivas, aeroportos, transporte de cargas e passageiros, hotelaria, centros de lazer etc). Tais investimentos poderão proporcionar diretamente a melhoria da qualidade de vida, o aumento de empregos, a projeção turística do país e estimular iniciativas de recuperação e a preservação ambiental.

“A tecnologia para o desarrolar da infraestrutura e parte do dinheiro para tal, nós já possuímos. Sumariamente, os megaeventos irão atuar como catalisadores no desenvolvimento do país”, afirma o professor de economia da Unicamp, Marcelo Proni. Por outro lado, o economista alerta para as possibilidades de se produzir efeitos negativos tais como: geração de dividendos, em função do mau planejamento de obras; inflação, devido ao aumento excessivo do custo de vida; e divulgação negativa da imagem do país se ocorrerem atos violentos.

De acordo com o pedagogo da Unicamp José Roberto Rus Perez, o custo Brasil também possui uma coesa relação com os problemas educacionais da nação. A falta de profissionais capacitados pode influenciar no mau desempenho do mercado, onerando os custos de produtos. Porém, o estudioso ressalta que algumas medidas estão sendo tomadas, mesmo que paliativas, como a criação de escolas técnicas e a ampliação de vagas em universidade.

Perez comenta que esta problemática poderá ser atenuada com um dos maiores legados que os eventos mundiais têm a capacidade de proporcionar: a valorização da educação como formação pessoal, ou seja, de cidadãos. Atualmente, a população brasileira não possui extamente esse perfil, pois é caracterizada por 40% de analfabetos funcionais. “Pessoas com baixa escolaridade procuram menos seus diretos, têm menor bagagem para fazer a análise crítica do cenário nacional. Mas pelo visto, nos querem assim”, comenta o pedagogo.

Com o intuito de aprofundar essa questão da educação, o grupo de estudo de Perez iniciou uma pesquisa na qual acompanhará o quadro educacional do Rio de Janeiro até a realização das olimpíadas. “Iremos analisar cuidadosamente a situação da cidade maravilhosa no que refere à inserção dos jovens na educação e à melhoria da qualidade do ensino, e inicialmente, acompanharemos até depois dos jogos”, anuncia. A preocupação é justificada, pois segundo dados do IBGE, menos de 60% dos adolescentes entre 15 e 17 anos estão devidamente matriculados no ensino médio. “Sem educação de base, não se forma uma sociedade crítica que desenvolve tecnologias e que briga por seus direitos”, conclui Perez.

O professor Paulo César Montagner, diretor da Faculdade de Educação Física da Unicamp, também acredita que haja uma relação do modelo de desenvolvimento esportivo brasileiro com a formação do ser humano e, consequentemente, com o custo país. “A prática esportiva está relacionada com a transmissão de valores e a formação do caráter. Então, deveria ser garantida para todos. Contudo, o modelo brasileiro de desenvolvimento esportivo é fundamentado no modelo europeu, no qual a prática de esportes, em geral, acontece em associações privadas. O modelo piramidal anglo-saxão é o que julgo mais interessante, já que a prática esportiva começa na escola. No caso brasileiro, a escola não é mais elitista como nos anos 1960, já que todos os brasileiros até os 14 anos têm acesso à educação, mas ainda existe dafasagem na qualidade do ensino”, avalia Montagner.

Oferecer melhores condições é a segunda parte do desafio brasileiro. Se a inserção da educação física na escola for além do “rola bola”, poderá ajudar os educadores na difícil tarefa de auxiliar os jovens e adolescentes a consolidarem seu senso crítico e avançarem na questão comportamental. “Se a transmissão de valores for papel elementar de nossas escolas, então teremos naturalmente inúmeros herois olímpicos. Eles aparecerão naturalmente”, completa Montagner.

O Brasil possui a oportunidade única de avançar na direção de solucionar seus problemas com infraestrutura básica e educação através dos investimentos nos megaeventos. No entanto, é necessário cobrarmos o planejamento mais crítico das melhorias que serão implantadas no país. Concomitantemente, os quesitos transparência dos gastos públicos e o esforço para aumentar a inserção dos jovens na escola somados à melhoria da qualidade do ensino, certamente são medidas que trarão legados maravilhosos para o Rio e o país.

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