Agendas internacional e política determinam cobertura científica no país

terça-feira 24 de novembro de 2009.
 
Para o jornalista Gabriel Priolli, da TV Cultura, fazer comunicação na grande mídia é priorizar, escolher. E as escolhas que geram o atual estado da divulgação científica brasileira, um dos principais temas discutidos no Foro Iberoamericano de Divulgação Científica, dia 23, na Unicamp, são pautadas, em sua maioria, pelas agendas internacional e política.

“A mídia é um gargalo”, afirmou o jornalista Gabriel Priolli, da Coordenação de Expansão e Rede da TV Cultura, durante mesa redonda realizada no Foro Iberoamericano de Divulgação Científica, dia 23, na Unicamp. Para Priolli, fazer comunicação na grande mídia é priorizar, escolher. E as escolhas que geram o atual estado da divulgação científica brasileira, um dos principais temas discutidos no evento, são pautadas, em sua maioria, pelas agendas internacional e política.

O jornalista da TV Cultura destaca o peso das publicações estrangeiras na divulgação do tema feita no Brasil. “Temos uma cobertura muito voltada à divulgação científica externa. A ciência de fora interessa mais que a ciência feita aqui”, argumenta Priolli, que classifica a situação como “submissão” e “servilismo”. O jornalista chamou atenção, ainda, para o fato de que aquilo que sai em revistas estrangeiras de renome, como a Science, acaba publicado novamente pela imprensa brasileira.

A influência internacional na seleção de assuntos voltados à ciência e à tecnologia pela mídia brasileira foi constatada em estudo apresentado por Fábio Senne, durante o evento. Coordenador da área de relações acadêmicas da Agência de Notícias dos Direitos da Criança (ANDI), Senne discutiu os principais resultados da pesquisa “Ciência, Tecnologia & Inovação na Mídia Brasileira”, realizada pela ANDI, em parceria com a Fundação de Desenvolvimento da Pesquisa (Fundep). De acordo com o estudo, fruto do monitoramento da cobertura científica realizada por 62 veículos impressos brasileiros, publicações com abrangência nacional refletem em maior medida a agenda internacional. A tendência é menor nas publicações regionais e locais, que dão maior atenção às notícias associadas ao contexto brasileiro.

Além das publicações estrangeiras, a repercussão dos resultados de pesquisas e de eventos científicos está entre os principais fatores que determinam a escolha das notícias, de acordo com o estudo da ANDI. Em geral, temas ligados à saúde - em especial os resultados de pesquisas, como a descoberta de uma nova vacina - predominam na cobertura científica. Outros temas destacados pela imprensa estariam mais ligados a debates públicos pontuais. Foi o caso das mudanças climáticas, destaque na mídia em 2007, impulsionado principalmente pela divulgação de um relatório do Painel Intergovernamental Sobre Mudanças Climáticas (IPCC) e pelo Oscar ganho pelo ex-vice-presidente dos Estados Unidos, Al Gore, pelo filme Uma verdade inconveniente. Senne citou, ainda, o destaque à biotecnologia, no ano de 2008, devido aos debates no Supremo Tribunal Federal sobre a liberação das pesquisas com células-tronco embrionárias no país.

Para Priolli, da TV Cultura, a repercussão do debate das pesquisas com células-tronco demonstra o quanto a divulgação científica é pautada pela agenda política. No que se refere à influência dos eventos na cobertura jornalística de ciência e tecnologia, o jornalista destaca os 150 anos da publicação de A origem das espécies, de Charles Darwin, comemorados esta semana e abordados por diversos veículos de comunicação. Priolli argumentou que a semana de comemorações pelo aniversário da obra deveria chamar atenção para a pequena divulgação dada à ciência, em comparação à religião. O jornalista observou que a explicação do mundo sob a ótica religiosa é transmitida todos os dias na televisão, enquanto a versão evolucionista é divulgada eventualmente.

De acordo com o estudo apresentado por Senne, da ANDI, mais da metade das notícias sobre ciência publicadas nos veículos impressos brasileiros restringem-se à comunicação de fatos pontuais, sem contextualizar os assuntos abordados. Matérias que apontam incertezas nas conclusões das pesquisas, descrevem o contexto histórico e os novos desafios dos temas abordados ou discutem aspectos éticos da atividade científica são minoria.

Priolli, da TV Cultura, também destaca a falta de contextualização e acredita que a cobertura de ciência na grande mídia é superficial. Mas o jornalista avalia que a divulgação científica brasileira avança progressivamente, à medida que ganha espaço. Para Priolli, quanto mais a ciência se desenvolve, maior a particularização da área, que torna-se compreensível apenas para os especialistas - processo que destaca a enorme importância da divulgação científica, na opinião do jornalista. “Temos um paradoxo: quanto mais a ciência se desenvolve e se aprofunda, mais difícil fica a comunicação para o grande público e maior é o desafio para os profissionais da comunicação”, completa Priolli.

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