Documentários discutem os perigos de espécies invasoras em Ilha Grande

sexta-feira 23 de outubro de 2009.
 
Pesquisas desenvolvidas em Ilha Grande, no litoral fluminense, sobre o impacto ambiental de espécies exóticas introduzidas no ecossistema da ilha, são o tema de uma série de 10 documentários que serão lançados ainda esse ano. O projeto foi produzido pelo documentarista Luiz Duarte, com apoio da Faperj.

Pesquisas desenvolvidas em Ilha Grande, no litoral fluminense, sobre o impacto ambiental de espécies exóticas introduzidas no ecossistema da ilha, são o tema de uma série de 10 documentários que serão lançados ainda esse ano. O projeto foi produzido pelo documentarista Luiz Duarte, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Rio de Janeiro (Faperj), e mostra o trabalho de equipes de pesquisa do Centro de Estudos Ambientais e Desenvolvimento Sustentável (Ceads), da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

Segundo a coordenadora das pesquisas, Helena de Godoy Bergallo, o mapeamento das espécies exóticas começou em 2007, mas os pesquisadores já vinham trabalhado com essas espécies em Ilha Grande e na baía da Ilha Grande antes disso. Os estudos iniciaram-se nos arredores das vilas de Dois Rios e Abraão, e depois partiram para regiões mais isoladas. Para Bergallo, muitas das espécies exóticas já estão presentes no ambiente natural, ou seja, não precisam mais da ação do homem para sobreviver e se espalham livremente pelo ecossistema da Ilha.

“A jaqueira foi trazida no século XVII e, por muito tempo, achava-se que era uma espécie brasileira, pois está muito bem adaptada”, revela. A jaqueira, uma das espécies estudadas no projeto, oferece um bom exemplo do impacto de uma espécie exótica no ambiente local. Segundo Bergallo, enquanto a comunidade de pequenos mamíferos que se alimentam de frutas se beneficia, as espécies que se alimentam de insetos são prejudicadas em áreas onde as jaqueiras foram introduzidas. “As áreas estão claramente impactadas. A química do solo também muda, porque diminui a quantidade de nitrogênio disponível, pois o folhiço (folhas caídas) demora muito a se decompor”, alerta.

As espécies exóticas podem surgir acidentalmente ou propositadamente, dependendo da maneira como são introduzidas. “A Ilha Grande, por muito tempo, abrigou pessoas que trouxeram com elas espécies representativas da sua origem cultural e da cultura acumulada por onde passaram. Grande parte dessas pessoas saiu quando foi delimitado o Parque (Estadual de Ilha Grande), mas para trás ficaram seus sinais. Ruínas, ruas e as espécies que elas trouxeram consigo, que se multiplicaram e se estabeleceram na Ilha”, explica Mariella Camardelli Uzêda, pesquisadora da Embrapa e participante do projeto.

O sagui, outra espécie estudada, é um exemplo de mamífero invasor trazido pelo homem. “Esse pequeno primata, originário do Norte e do Nordeste do Brasil, estabelece uma intensa competição por alimentos com seus parentes locais, a exemplo do mico-leão”, diz Uzêda. A pesquisadora acrescenta que eles também carregam doenças que podem ser deletérias para os primatas nativos, além de serem vorazes predadores de aves. “A retirada dessas espécies depende da elaboração de um manejo fundamentado no conhecimento da ecologia das espécies exóticas (sua reprodução, sua demanda por recursos naturais) estabelecido em consenso com os habitantes que permanecem na Ilha, de maneira a permitir que a biodiversidade existente no Parque possa ser preservada”, defende.

Além de gerarem um grande impacto no ecossitema local, algumas espécies exóticas podem, ocasionalmente, prejudicar o bem estar e a saúde pública, como explica Sônia Barbosa dos Santos, pesquisadora da Uerj que também participa do projeto. “No caso do caracol africano, sua rápida proliferação - pois ele coloca uma grande quantidade de ovos - ocasiona um efeito sobre as populações humanas (reações de asco, medo, destruição de hortas e jardins) e também sobre outros animais. Já existem relatos de que os caracóis estão entrando na cadeia alimentar de animais como lagartos teiús e marsupiais como gambás”, conta.

Para Sônia Barbosa, um outro ponto importante é a saúde humana, porque algumas doenças causadas por parasitas, as angiostrongioses, podem ser carregadas pelo caracol. “Essas enfermidades já contam com casos no Brasil, de forma que a presença do caracol africano na Ilha Grande, a presença de roedores (hospedeiros do verme adulto) e o grande fluxo turístico aliado ao saneamento precário representa um risco potencial para a saúde pública”, alerta. Sônia Barbosa explica que o monitoramento é feito através de material enviado à Fiocruz e que, por enquanto, nenhum parasita foi detectado.

Mesmo nos casos em que a espécie invasora é introduzida acidentalmente, ela pode se espalhar de maneira rápida e gerar grandes danos ao ambiente local. Esse é o caso do coral sol, que chegou carregado na água de lastro dos navios, e cujos primeiros registros datam de 2004. “É preciso prevenir, evitar que as espécies exóticas entrem. Os navios deveriam trocar a água de lastro fora dos portos. Atualmente, isso é lei”, diz Helena Bergallo.

Para ela, educar a população também é um grande desafio. “A população nem sempre percebe o problema. Muitas vezes, as pessoas não veem as espécies exóticas como exóticas”, afirma. Bergallo explica que até mesmo o contingente de animais domésticos que foram abandonados ou vivem soltos pela mata é extremamente prejudicial. Ela ressalva que os pesquisadores têm feito palestras para a população da Ilha Grande e os documentários também servirão como material de informação para as escolas locais. “Em alguns casos, como o do coral sol, os moradores foram ensinados a reconhecer a espécie e retirá-la. Depois, eles vendem como artesanato; a venda é certificada”, conta.

Além da jaqueira, do sagüi, do coral sol e do caramujo africano, o projeto de pesquisa também inclui o estudo do bambu e da lagartixa. Sônia Barbosa dos Santos, responsável pela coordenação científica dos documentários, explica que a série é composta por dez filmes, oito dos quais abordam as espécies exóticas na Ilha Grande e outros dois, temas de educação ambiental e resgate da história da Vila Dois Rios (Ecomuseu e Parque Botânico da Ilha Grande). Toda a filmografia foi feita por Luiz Duarte.

“O objetivo é a divulgação científica em todos os níveis, especialmente ao público leigo, pois a literatura científica, em geral, fica restrita ao meio acadêmico. Também objetivamos proporcionar uma melhor compreensão do trabalho científico, suas etapas, a formação de jovens pesquisadores e a relevância da pesquisa científica para a sociedade”, diz a coordenadora científica.

O projeto de pesquisa, que forneceu material para os documentários, também tem financiamento da Faperj e está sob a coordenação geral da pesquisadora Helena de Godoy Bergallo, contado com a participação de outros pesquisadores encarregados de sub-projetos direcionados às principais espécies invasoras na Ilha Grande. A produção dessa série segue os passos de uma anterior, lançada em 2004, sobre a flora e fauna da Ilha Grande, também realizada por Luiz Duarte.

Responder a esta matéria