Os novos desafios das ciências sociais

terça-feira 12 de maio de 2009.
 
“O pensamento social na América Latina não está à altura do nosso atual momento histórico”, afirma o filósofo e doutor em ciência política Emir Sader, que esteve em Campinas (SP) no dia 7 de maio para palestra de abertura do ciclo de conferências sobre os novos desafios das ciências sociais, promovido pela PUC de Campinas.

“O pensamento social na América Latina não está à altura do nosso atual momento histórico”, afirma o filósofo e doutor em ciência política Emir Sader. Professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), secretário executivo do Conselho Latino-americano de Ciências Sociais (Clacso) e colaborador do Fórum Social Mundial, Sader esteve em Campinas (SP) no dia 7 de maio para palestra de abertura do ciclo de conferências sobre os novos desafios das ciências sociais, promovido pela Pontíficia Universidade Católica de Campinas (Puccamp), onde aproveitou para lançar seu mais recente trabalho: As novas toupeiras: os caminhos da esquerda latinoamericana, lançado pela Boitempo Editorial.

Para o pesquisador, as ciências sociais na América Latina sempre tiveram um papel de vanguarda. Porém, essa posição se modificou bastante na última década, marcada pela diminuição da pluraridade de pensamento dentro das universidades, pela absorvição de esquemas de análise que não admitem tensionamentos e pela crença em um falso refúgio prometido pelas grandes mídias e no qual alguns intelectuais optaram por acreditar. Por conta disso, afirma Sader, o pensamento social na América Latina, e no Brasil em especial, passa por uma momento desalentador, ao não se posicionar criticamente frente à panaceia neoliberal que se instaurou na região até pouco tempo, e por não saber se reinventar para o novo momento que se constroi no horizonte.

“Não existem mais fórmulas antigas. Estamos em um momento de novas circunstâncias que precisam ser redescobertas. O pensamento social tem que se atualizar e se aproximar novamente dos processos políticos, não apenas dos mais avançados, mas também dos contraditórios, e que vão de alguma maneira fazer pender, em algum momento, o futuro da América Latina”, diz. Sader também aponta que o neoliberalismo, aliado ao discurso intitulado pós-modernista, ajudou a fragmentar a visão de mundo, desconstruindo a visão de totalidade que era a tônica das ciências sociais. “Mas o mundo não é fragmentado como pintam. É preciso reconhecer a fragmentação como estratégia para compreender um mundo plural, mas tendo em vista a totalidade dessas interações”, afirma.

Quanto ao neoliberalismo, Sader aponta uma série de rupturas nesse modelo por conta da atual crise econômica: “Muita gente deixou de ser neoliberal desde que essa crise econômica começou. Ninguém, no momento, é contra uma maior presença do Estado na economia. Isso porque ficou claro que a atual crise foi causada pelas práticas neoliberais durante toda a década de 90”, avalia. O pesquisador aponta, como exemplos diferentes, o México, país que abraçou o neoliberalismo, fechou diversos tratados de livre comércio negociados independentemente e que agora amarga uma recessão, mesmo após ajuda do Fundo Monetário Internacional (FMI), em contraponto com o Mercosul, onde um projeto de governos que tendem à esquerda, com tônicas nas práticas sociais e que optaram por uma unidade regional foi decisivo para diminuir as perdas de todos os membros, que podem contar com um consumo interno como contraponto a uma crise externa, além de se predisporem a garantir uma proteção ao cidadão através de projetos de distribuição de renda.

Essa crise será responsável pelo fim do capitalismo? “Nenhum sistema econômico acaba com uma crise. Ele precisa ser superado politicamente”, afirma Sader. Mas para o pesquisador é papel das ciências sociais ajudar os cidadãos a desarticular as estratégias e idéias que são importadas e repercurtidas por uma mídia pouco ou nada crítica. “As pessoas acham que dinheiro e consumo é sinônimo de felicidade. Isso é o tipo de visão que permeia cada vez mais a mídia e a sociedade”, aponta. “Mas tudo o que é articulado pode ser desarticulado e rearticulado. Esse é o papel do cientista social: estar atento ao momento e se posicionar à altura”, completa.

Essas estratégias de articulação e rearticulação das realidades sociais renderam a Sader a ideia para o título de seu livro. Apesar da conotação muitas vezes negativa em português, a toupeira é um animal com habilidades sensoriais bastante desenvolvidas e que se refugia em labirintos nos subterrâneos para eventualmente aparecer de surpresa na superfície. Espera-se que uma nova geração de cientistas sociais, que parece letárgica nos últimos anos, surpreenda em algum momento dessa época “pós-neoliberal”, nome que, o próprio autor pontua, talvez não seja o melhor para definir esse novo período, mas o único que se tem no momento.

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