Uso de células-tronco adultas no tratamento de doenças urológicas é pesquisado

terça-feira 24 de março de 2009.
 
Grupo da Universidade Federal de São Paulo pesquisa a possível aplicação de células-tronco derivadas de tecido adiposo no tratamento da incontinência urinária. O uso deste tipo celular na terapia pode ser mais uma alternativa para a reversão da doença.

No dia 14 de março foi comemorado o Dia Mundial da Incontinência Urinária, doença caracterizada pela incapacidade de controlar a micção ou de armazenar a urina, e que acomete cerca de sessenta milhões de pessoas no mundo, entre homens, mulheres e crianças. Segundo o site da Sociedade Brasileira de Urologia, a incontinência urinária pode ser tratada, de forma geral, com fisioterapia do assoalho pélvico, medicamentos e cirurgias. No entanto, pesquisas realizadas pela equipe do médico Fernando Gonçalves de Almeida, da Universidade Federal de São Paulo, apontam as células-tronco como uma nova arma no tratamento terapêutico da doença.

A perda involuntária de urina é decorrente do mau funcionamento dos nervos e músculos da bexiga e da uretra. Dessa forma, a reparação de danos destes tecidos é fundamental para restaurar a continência urinária. “Muitos casos de incontinência urinária masculina e feminina não podem ser curados com os tratamentos cirúrgicos convencionais. Esses casos poderiam se beneficiar da aplicação de células-tronco, que ajudaria na regeneração do órgão afetado”, avalia o médico urologista. Acredita-se que as células-tronco adultas são responsáveis pela regeneração em vários tecidos e já foram isoladas de diferentes órgãos, como fígado, pâncreas, rins, músculo e do sistema nervoso central.

Almeida publicou em 2005 um trabalho em colaboração com um grupo da Universidade da Califórnia em Los Angeles (Ucla), demonstrando a incorporação de células-tronco derivadas de tecido adiposo humano na uretra e bexiga de ratos e camundongos imunossuprimidos, e a diferenciação das mesmas em células musculares lisas.

As células-tronco derivadas de tecido adiposo começaram a ser estudadas a partir de 2002 com objetivos clínicos. Estas células, chamadas de ADSC (Adipose Derived Stem Cells), foram isoladas de lipoaspirados humanos e possuem a capacidade de se diferenciar em células adiposas, osso, cartilagem, músculo esquelético e em linhagens neuronais.

Além de apresentarem vantagens sobre outros tipos de células-troncos, pela fácil obtenção e pelo grande número de células obtidas, as ADSC também possibilitam o transplante autólogo, ou seja, no próprio doador - o que diminui os riscos de rejeição. O grupo de Almeida testou tal procedimento em coelhos e este trabalho, que ainda não foi publicado, será o primeiro a demonstrar a viabilidade do transplante autólogo de ADSC no trato urinário. Neste modelo, tecido adiposo de pata de coelhos foi coletado e as células foram injetadas na parede uretral do coelho doador. Na oitava semana após a injeção, as células já apresentavam a tendência de se espalhar e se integrar na parede da uretra.

Células-tronco derivadas de diversos tecidos, como medula óssea e músculo, já foram testadas em animais no tratamento de doenças urológicas e o potencial de desenvolvimento desse tipo de intervenção ainda é vasto. No entanto, as células mesenquimais derivadas da medula óssea são de difícil coleta e por isso o seu uso terapêutico é limitado.

Em humanos, estudos clínicos realizados no exterior já testaram células-tronco musculares e de cordão umbilical na terapia da incontinência urinária. Apesar dos resultados preliminares serem positivos, as células derivadas do cordão umbilical não possibilitam o transplante autólogo. Estudos realizados com mioblastos (células embrionárias musculares) e fibroblastos (células responsáveis pela regeneração) humanos já demonstraram melhoras em homens com incontinência urinária ocasionada pela remoção cirúrgica de toda a glândula prostática, e de mulheres com incontinência por esforço. No Brasil, os estudos nesta área não chegaram na fase clínica, mas ainda há muito que se estudar.

A incontinência urinária, apesar de apresentar grande impacto na qualidade de vida, é uma doença de curso benigno e possui outras formas de tratamento efetivas. “Infelizmente as pesquisas ainda estão em estágio experimental e levará muitos anos até que tenhamos resultados satisfatórios quanto à eficácia e segurança do uso de células-tronco em humanos. Mas os resultados iniciais são bastante animadores. Por esse motivo é que estamos muito confiantes nas pesquisas”, diz Almeida.


Células-tronco derivadas de tecido adiposo humano Fonte: http://www.hyclone.com
Responder a esta matéria