Células-tronco: o combate à ficção

sexta-feira 20 de fevereiro de 2009.
 
Encontro internacional sobre células-tronco expõe os problemas relacionados à divulgação de informações incorretas e o quanto ainda são limitadas as possibilidades de aplicação terapêutica, além de estreitar as relações entre pesquisadores brasileiros e do Reino Unido.

A palestra de abertura do fórum “Células-tronco: ficção, realidade e ética”, apresentada por Austin Smith, diretor do Centro de Investigação em Células-Tronco, da Wellcome Trust Centre for Stem Cells Research, de Cambridge, Inglaterra, no último dia 11 no Centro Brasileiro Britânico, em São Paulo, começou com dois slides curiosos. O primeiro trazia uma foto do comandante inglês Nelson, que liderou a batalha de Trafalgar e derrotou as tropas de Napoleão em 1805; e o segundo mostrava a pata de uma salamandra em regeneração após ter sido amputada. Segundo o palestrante, a foto do almirante era uma homenagem ao seu país. No entanto, o detalhe apontado por ele - o braço mutilado que herdou da batalha - ilustrava o desejo humano de alcançar a regeneração, algo de que as salamandras são capazes. “Este é um sonho a respeito das células-tronco”, comentou, referindo-se à ficção gerada em torno do assunto e presente no título do fórum.

O evento fez parte do Encontro Internacional sobre Células Tronco, realizado entre os dias 11 e 18 numa parceria do British Counsil com o Instituto do Coração (InCor) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). Assistidos por uma platéia composta principalmente por médicos e pesquisadores, mas que também contava com muitos estudantes e pessoas interessadas pelo assunto, os pesquisadores deram uma visão geral sobre os avanços, as ficções e as questões éticas em torno das pesquisas com células-tronco.

Divulgação, erro e ficção

Apesar dos diversos resultados positivos obtidos por pesquisadores do mundo todo, os palestrantes foram enfáticos ao falar sobre as limitações da utilização dessas células como armas terapêuticas em pacientes. E foi consenso o tom de ceticismo em relação às aplicações terapêuticas em um curto espaço de tempo. Segundo Mayana Zatz, coordenadora do Centro de Estudos do Genoma Humano da USP, dois ensaios terapêuticos com células-tronco que começarão neste ano - um nos Estados Unidos com lesões de medula e outro na Inglaterra com pessoas que sofreram derrame - irão trazer muita informação e permitir que etapas sejam puladas em estudos futuros.

No Reino Unido, onde as pesquisas com células-tronco embrionárias são permitidas desde 2000, o documento responsável por tal regulamentação data de 1990 e vem sendo adaptado ao longo dos anos, de acordo com as demandas advindas de avanços científicos. Segundo Robin L. Badge, diretor da divisão de biologia da célula-tronco e genética do desenvolvimento do National Institute for Medical Research do Reino Unido, questões históricas e o apoio popular contribuem para a prática de uma “abordagem regulatória [para as pesquisas com células-tronco no Reino Unido] em detrimento de leis altamente restritivas, como no caso da Alemanha”.

No Brasil, a participação da opinião pública também foi decisiva na aprovação da Lei de Biossegurança, que permite as pesquisas com células tronco embrionárias. “Eu sempre defendi a participação da opinião pública em debates sobre temas científicos e defendo cada vez mais. Acho que a opinião pública tem que participar desses avanços, tem que se discutir, porque existe muita desinformação e informações erradas [a respeito de pesquisas com células tronco]”, declara Zatz.

A iniciativa de fazer uma edição do Encontro no Brasil surgiu em 2007, a partir do curso realizado no Chile, do qual participaram os pesquisadores e realizadores do evento no Brasil, José Xavier Neto e Deborah Schechtman, do InCor. Segundo Xavier,“a idéia era desmistificar um pouco o assunto de células tronco e ter uma discussão muito franca sobre o potencial, o que a gente tem hoje e quais são os limites [das pesquisas com células tronco]. A gente queria [...] expor o público em geral às pessoas que entendem do assunto e são da área”.

Pluripotência

Além dos mitos e das questões éticas envolvidas em torno das células-tronco, os cientistas também debateram sobre novidades na área. A principal delas, e que foi discutida com entusiasmo pelos palestrantes e público é a possibilidade de induzir células adultas a se tornarem células-tronco pluripotentes, ou seja, que podem se diferenciar em diversos outros tipos celulares. As chamadas IPSC (induced pluripotent stem cells) são linhagens celulares conseguidas por meio da inserção de quatro genes relacionados com a diferenciação na célula e vêm sendo desenvolvidas em diversos lugares do mundo, inclusive no Brasil. Para Smith, tais células não substituirão as células-tronco embrionárias nas pesquisas. “Ainda é necessário trabalhar com ambas, para fins de comparação”, comenta.

O desenvolvimento de linhagens celulares, a partir de células de uma pessoa que tem alguma doença genética, permitirá o teste de diversos tipos de medicamentos e possibilitará o entendimento dos diferentes quadros clínicos manifestados por pacientes que apresentam uma mesma mutação.

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