Design para o cidadão

segunda-feira 9 de março de 2009.
 
Um projeto de design universal é reflexo da aceitação da multiplicidade, sem que haja estigmatização ou exclusão, em contraposição ao modelo normativo com regras e exceções. É preciso repensar, para muito além da estética, o modo de se projetar, e entender a acessibilidade como facilitador do ato de exercício da cidadania.

Alunos canhotos, até hoje, disputam carteiras adaptadas para poderem se sentar e escrever confortavelmente em sala de aula, mesmo com leis como o projeto 305, de 2008, que garante esse direito. Esse é o típico exemplo do que é chamado pelos designers de produto de projeto adaptado, ou seja, projetos que, muitas vezes, na fase inicial do processo (chamada de briefing), são descritos de uma maneira e na execução final precisam de uma adaptação. “É quando o cliente lembra daquele ‘detalhe simples, coisa de dez minutos’”, brinca Tomas Sniker, coordenador do curso de Design da Faculdade de Administração e Artes de Limeira (Faal). Normalmente esse curto tempo mal serve para explicar o tamanho do problema criado.

É para evitar adaptações de última hora que podem criar ambientes de exclusão que surgiu o “design universal”, “design inclusivo”, ou ainda “design acessível”, no qual os projetos de objetos, ambientes reais ou virtuais e softwares devem ser pensados para incluir o máximo de pessoas capazes de interação sem nenhuma habilidade anterior ou adaptação posterior por parte do designer ou projetista. Um projeto de design universal é reflexo da aceitação da multiplicidade do mundo atual, sem que haja estigmatização ou exclusão, em contraposição ao modelo normativo com regras e exceções. É preciso repensar, para muito além da estética, o modo de se projetar (veja resumo do processo).

“Claro que um projeto universal não é algo fácil de atingir”, continua Sniker, “aspectos como a ergonomia, que no Brasil é complicada por conta da quantidade de biotipos, e de níveis de conhecimento prévio de interação, no caso de caixas de banco ou sites de internet, são complexos e passam por outras esferas”. Uma dessas dificuldades, diz o coordenador, é a econômica. O investimento na etapa de projeto é muito maior, pois é preciso trabalhar com uma gama maior de variáveis, o que contribui para encarecer o produto, ao contrário do que costuma ocorrer com produtos adaptados. Mas, a longo prazo, entendendo a lógica de maior oferta, esses preços podem diminuir, prevalecendo os projetos de melhor qualidade.

Direito à acessibilidade Na internet a questão da acessibilidade ganha contornos ainda mais preocupantes. No ano 2000 um cidadão australiano processou o governo por não conseguir acessar o site oficial dos Jogos Olímpicos. O usuário tinha 100% de deficiência visual e estava impedido de acessar quaisquer informações via internet deixando claro o caráter excludente da comunicação do governo com os cidadãos. Austrália, EUA e Canadá, aliás, são pioneiros na criação de diretrizes de acessibilidade via web utilizando parâmetros amplamente recomendados pelo consórcio internacional W3, responsável pela padronização da Rede Mundial de Computadores.

“Muitas pessoas associam a acessibilidade com sites feios, com poucos recursos e mais caros. Não é verdade”, afirma Fernanda Hoffman Lobato, coordenadora de acessibilidade do Governo Eletrônico, um programa do governo federal brasileiro que pretende levar o conceito de democracia para o acesso à informação. Ela acredita que sites acessíveis tem demonstrado que são mais fáceis de usar, mais leves e, portanto, tem um retorno maior que sites inacessíveis, tanto do ponto de vista financeiro quanto de satisfação do cidadão.

No Brasil, cerca de 14,5% dos habitantes possuem algum tipo de deficiência, segundo o IBGE. Dentre eles, menos de 1% possui emprego formal, 27% vivem em pobreza extrema e 53% são pobres. De acordo com a coordenadora, as tecnologias digitais, quando acessíveis, são uma forma de inclusão social, nas quais os portadores de deficiência podem interagir, trabalhar e aprender em total igualdade com as demais.

Fernanda Lobato afirma ser possível desenvolver projetos 100% universais, apesar do desafio. O maior empecilho, diz, são a falta de conhecimento e o fato de existir poucas pessoas qualificadas.

Design inclusivo e impacto social Um exemplo de projeto de design inclusivo é o E-Cidadania, encabeçado por Maria Cecília Baranauskas e Maria Cecília Martins, coordenadoras associadas do Núcleo de Informática aplicado à Educação (Nied) da Unicamp. O projeto usa metodologia desenvolvida nos países escandinavos para inovações no ambiente de fábrica, e semiótica organizacional, que explora o uso de signos e seus efeitos em práticas sociais, para permitir a interação de usuários com diferentes necessidades, interesses e competências.

A pesquisa de Baranauskas tenta articular o design universal ao chamado design participativo - que lida com um conjunto homogêneo de usuários, em geral no mundo do trabalho - para tratar a diversidade de competências de potenciais usuários de tecnologias de informação e comunicação no seu cotidiano. “O objetivo é promover o acesso participativo de todo cidadão ao conhecimento gerado pela formação de redes sociais na web e, portanto, o exercício da cidadania”, comenta Baranauskas, que é também professora titular do Instituto de Computação da Unicamp. Em sua pesquisa ela tem estudado práticas participativas de design para criar interfaces de usuário de sistemas que sejam para todos, isto é, que não discriminem aqueles com diferentes possibilidades de interação. “Os novos modelos de design propostos pretendem sustentar a constituição de redes sociais de e-cidadania, criando uma cultura digital que respeite as diferenças, entre as quais as de pessoas com deficiências e aqueles não alfabetizados digitalmente”, afirma a pesquisadora. Segundo ela, o sistema permitirá a sistematização, difusão e compartilhamento de conhecimento a partir da constituição dessa rede, na qual seus usuários poderão compartilhar produtos e serviços, idéias e eventos sociais de suas comunidades de forma autônoma e inclusiva. “Considero que a inclusão digital, se levar em conta a acessibilidade, vai ser uma das principais portas para o mercado de trabalho para essas pessoas.”, prevê Fernanda Lobato.

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