Percepção ambiental é povoada de imagens-clichê

terça-feira 10 de fevereiro de 2009.
 
Os slides shows e vídeos caseiros invadiram escolas e universidades. Mais do que mostrar que qualquer um é capaz de tais composições, o uso disseminado dessas tecnologias dá a ver o tipo de contato com as imagens de natureza de professores e alunos.

Os slides shows e vídeos caseiros invadiram escolas e universidades. Programas de uso simples viabilizam criações com imagens fotográficas, sons e vídeos que antes eram impossíveis para quem não sabia manusear a complexa aparelhagem de uma ilha de edição. Mais do que mostrar que qualquer um é capaz de tais composições, o uso disseminado dessas tecnologias dá a ver o tipo de contato com as imagens que alunos e professores têm, em especial, quando o assunto é natureza: passarinhos dando comida para os filhotes, flores que se abrem em bebês, latas jogadas em meio às matas e rios, crianças abraçadas às árvores, animais dormindo no lixo, cenas com fundos verdes etc.

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Imagem-clichê mas que apresenta múltiplos sentidos criados pela biologia e produções artísticas

Esse tipo de imagens está espalhada por propagandas, novelas e noticiários e resulta de escolhas que querem conduzir e capturar o expectador. Esta é uma das conclusões da professora Lucia Estevinho Guido, da Universidade Federal de Uberlândia, que em seu doutorado trabalhou com as imagens do Repórter Eco da TV Cultura e percebeu como em 15 anos de programa os planos, enquadramentos e narrativas se repetiam: closes, fundos de cena verdes e até mesmo a frase de abertura e fechamento do programa: “Repórter Eco, imagem e ação em defesa do meio ambiente começa agora”.

A padronização no contato com as imagens, o que ensinam esses tipos de composições, e os efeitos de poder e controle que esses discursos imagéticos organizam e desorganizam chamaram a atenção de Antonio Carlos Rodrigues de Amorim, professor da Faculdade de Educação (FE) da Unicamp. Em suas aulas com estudantes da graduação que desenvolviam trabalhos audiovisuais percebeu que “os alunos não conseguiam ver as imagens fora de determinados sentidos. Não havia um trabalho de detalhamento da imagem, de explorar as potencialidades e limitações das imagens. Não parecia ser na imagem, ou na tensão com as imagens, que os sentidos poderiam proliferar. Estamos aprendendo a encher as imagens com as coisas do mundo sem pensar a própria imagem repletas de clichês”. Reconhecer as potencialidades do clichê como um limite intenso do sentido, cujo excesso é plano de forças para o vazio, é a argumentação principal do pesquisador na análise das imagens.

Experimentações criativas

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Como parte do projeto de pesquisa que coordena - “Educação, Ciências e Cultura: territórios em fronteiras”, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo - e afim de criar um espaço que proporcionasse o questionamento e a experimentação com as imagens, Amorim propôs à professora de biologia e educação ambiental Ionara Urrutia Moura, do Colégio Técnico de Campinas (Cotuca), um curso de elaboração de vídeos que trabalhasse com imagens e percepção ambiental numa aposta em “esvaziar as imagens dos clichês”, diz Amorim. O trabalho resultou na criação de vídeos (assista aqui) sobre a escola feitos pela professora e pelos estudantes Maria do Carmo B. Barros, Ricardo de U. Moura, Barbara M. Teixeira, Clóvis M. Neves e Danilo de O. Pessoa. Nos vídeos a fotografia e a imagem do cinema foram trabalhadas nas suas potências de imagem (seja congelada ou editada).

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A apresentação do vídeos produzidos pelos alunos durante o Seminário MULTIPLICImagens, realizado em dezembro do ano passado, gerou uma movimentada conversa sobre os clichês que povoam as imagens voltadas à sensibilização ambiental. “De forma muito massificada nós estamos tomando contato com os mesmos tipos de imagens, apresentadas no mesmo formato e, ao trabalharmos com imagens, repetimos esses formatos e pensamos que é a forma única”, observou Ionara Moura, que relatou entusiasmada como o curso abriu brechas para a criação e o pensamento com imagens na escola.

Alik Wunder, fotógrafa que participou do curso e pós-doutoranda da FE-Unicamp conta que o curso durou 20h e foi organizado em cinco encontros de sábado: “nos dois primeiros foram trabalhadas reflexões sobre o olhar pelas imagens, técnicas básicas de composição, luz e sombra, enquadramento etc, no intuito de criar imagens que chamamos de inusitadas do ambiente escolar e entorno”. Também participaram do curso, na área de captação de imagens e edição em vídeo, Coraci Ruiz e Hidalgo Romero do Laboratório Cisco.

Chamou a atenção de Leandro Belinaso Guimarães, professor da Universidade Federal de Santa Catarina, e um dos convidados para o Seminário, a escolha dos alunos por apresentar nos vídeos os detalhes da arquitetura da escola, “pequenos fragmentos que trazem uma pergunta sobre o lugar onde se transita, onde se está, por onde se passa muitas vezes”. Já Anna Paula Martins, da Editora Dantes e coordenadora do projeto e exposição Gabinete de curiosidades de Domenico Vandelli, surpreendeu-se com a produção feita a partir de uma mesma “cesta de imagens” - um conjunto de fotografias e filmagens foi usado de diversas formas para compor vídeos diferentes - e com o uso dos programas simples de edição disponíveis nos computadores atualmente e com a escolha da escola como espaço para produção de vídeos que visam uma sensibilização para a questão ambiental. Num momento em que há uma disseminação de sentimentos de culpa e medo ligados à relação humanos-natureza e em que grandes empresas criam imagens corporativas ligadas à preservação “talvez a sensibilidade também precise de um vazio”, diz Anna.

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Clichês e narrativas modernas

Entre as imagens que Amorim analisou em sua pesquisa junto ao Programa de Pesquisas em Caracterização, Conservação e Uso Sustentável da Biodiversidade do Estado de São Paulo (Biota) estão as imagens de copas de árvores: imagens em que as copas retilíneas deixam passar luz e que os cientistas usam para calcular a quantidade de biomassa a partir da quantidade de luz que entra nos substratos. Essas imagens são bastante utilizadas na divulgação do projeto e também em produções fílmicas para indicar a passagem do tempo. Nos filmes experimentais mais antigos explorados por Amorim alguns cineastas, com a intenção de experimentar uma imagem, filmavam uma copa de árvore, mais ou menos embaçada, fazendo com que a luz explodisse a nitidez da imagem. “Nessas imagens eles buscavam os sentimentos humanos, essas imagens eram uma expressão de sensações. É uma imagem clichê, mas que também tem esses vários outros sentidos possíveis, que podem ser explorados”.

Para o pesquisador da FE-Unicamp é instigante pensar em como certas imagens despertam sensações que são politicamente interessantes para o que se quer, como, por exemplo, proteger a natureza. O descolamento de natureza e cultura não é lago dado, mas uma invenção dos discursos “que estão muito mais interessados na busca de uma essência humana do que na fragmentação entre o biológico e o cultural, que não permitiria o homem, o sujeito, ele mesmo, ser encontrado”. A persistência do discurso da separação entre natureza-cultura mobiliza propostas das ciências e da educação em ciências de superação desta fragmentação, resgate da essência humana.

Seminário MULTPLICimagens

Realização: Projeto de Pesquisa “Educação, Ciências e Cultura: territórios em fronteiras no Programa Biota-Fapesp (Proc.2006/00752-9)”, desenvolvido desde 2006 junto ao Programa de Pesquisas em Caracterização, Conservação e Uso Sustentável da Biodiversidade do Estado de São Paulo, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do estado de São Paulo (Biota/Fapesp) e o Grupo de Estudos Humor Aquoso, Laboratório de Estudos Audiovisuais (OLHO) da Faculdade de Educação/Unicamp. Coordenação geral: Antonio Carlos Rodrigues de Amorim.

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