A natureza ex-posta: imagens que duram

sexta-feira 12 de dezembro de 2008.
 
Na semana passada, dia 05 dezembro, os projetos das exposições Dispersos fragmentos e Gabinete de curiosidades de Domenico Vandelli - atravessadas pelos desejos de expor natureza e ciências escapando ao estilo de pensamento da representação - foram apresentados e discutidos por professores, alunos, artistas e pesquisadores no Seminário MULTIPLICimagens.

Na semana passada, dia 05 dezembro, os projetos das exposições Dispersos fragmentos e Gabinete de curiosidades de Domenico Vandelli - atravessadas pelos desejos de expor natureza e ciências escapando ao estilo de pensamento da representação - foram apresentados e discutidos por professores, alunos, artistas e pesquisadores no Seminário MULTIPLICimagens. Um encontro que pretendeu “criar possibilidades de pensar a natureza e sentidos de vida em explorações artísticas distintas, com vistas a organizar outra exposição dentro da escola”, comenta Antonio Carlos Rodrigues de Amorim da Faculdade de Educação da Unicamp.

(JPG)
Transparência e iluminação nas imagens-natureza da exposição Dispersos fragmentos
Fotos: Alik Wunder

A proposta, que faz parte do projeto “Educação, Ciências e Cultura: territórios em fronteiras”, coordenado por Amorim, lotou a sala do Centro Estadual de Educação Supletiva Paulo Decourt, na Unicamp, onde aconteceu em novembro de 2007 a exposição Dispersos fragmentos: imagens de biodiversidade do programa Biota-Fapesp. Desenvolvido junto ao Programa de Pesquisas em Caracterização, Conservação e Uso Sustentável da Biodiversidade do Estado de São Paulo, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Biota/Fapesp), o projeto aposta em interrogar as narrativas que o Programa e os museus científicos têm criado a partir dos estudos de filósofos e pesquisadores considerados pós-estruturalistas. A montagem da exposição envolveu alunos da disciplina “Tópicos especiais em educação”, pós-graduandos da FE, professores do supletivo e um artista plástico. Para Amorim, priorizar ações dentro das escolas, “permite que a escola tenha dentro dela algo que não seja tão escolar, que não exige explicação”.

(JPG)
Natureza de gabinete
Foto: Alik Wunder

Medida de proteção

A intensa aposta do Biota/Fapesp de preservação e conservação ambiental relacionadas aos atos de fragmentar, quantificar e medir a totalidade da biodiversidade do estado de São Paulo movimentou a criação da Dispersos fragmentos. Imagens de espécimes que compõem parte do inventário do Biota apresentavam-se imersas em líquidos coloridos nas vidrarias de laboratório dispostas na bancada. Os visitantes tinham acesso a uma natureza “sob medida”. Diversos instrumentos usados para cálculos de peso, volume, tamanho estavam disponíveis junto a espécimes de plantas secas e imagens. A forte luz, que vinha dos armários metálicos da escola, convidavam a abertura de pequenos gabinetes, numa composição feita com animais empalhados e espelhos e objetos diversos.

(JPG)
No convite da exposição projetado os discursos de educação ambiental que passam pela quantidade
Foto: Susana Dias

“Para montar a exposição a equipe percorreu as imagens produzidas pelo Biota, mas também analisou imagens de divulgação da revista Pesquisa Fapesp e fez discussões sobre museus de ciência”, conta a professora de ciências e biologia do supletivo Tereza Pessoa. Parte da pesquisa desenvolvida pela pós-graduanda da Educação da Unicamp, Érica Speglich, que quer entender os modos como natureza e as ciências biológicas e a história natural são inventadas nos vídeos de divulgação do Biota e nas obras do artista plástico Alberto Baraya, também serviu de inspiração ao grupo.

Livro e natureza que duram

Como contribuição para o pensar a nova exposição que será montada, também no colégio supletivo da Unicamp, Amorim trouxe para o Seminário MULTIPLICIimagens Anna Dantes, curadora do projeto expositivo do naturalista Vandelli. Com o nome O gabinete de curiosidades de Domenico Vandelli a exposição permaneceu no Museu do Meio Ambiente, Jardim Botânico do Rio de Janeiro, até outubro de 2008 e há perspectivas de viajar por outros estados do norte, nordeste e sudeste do país em 2009. Anna Dantes ficou surpresa com as aproximações entre a exposição que organizou a Dispersos fragmentos. Sua aposta, e dos artistas convidados, entre eles Luiz Zerbini, foi explorar o gabinete como caverna, como “lugar de representação” e, ao mesmo tempo, apresentar a crise da representação.

(JPG)
Anna Dantes e Luis Zerbini na instalação com plantas de plástico pintadas, ossos e pincéis dentro de tubos de ensaio.
Foto: divulgação

O naturalista italiano, radicado em Portugal, nunca esteve ao Brasil, mas conheceu a natureza e a sociedade através de textos, ilustrações, sementes, plantas e animais levadas pelos viajantes. Os atos de observar, refletir, nomear e inventar memórias-imagens, intensamente presentes no trabalho dos naturalistas, inspiraram a criação de ambientes na exposição que em que o livro foi eleito como um objeto potente. Uma idéia de que o livro não é apenas para ser lido, mas sentido. Para Anna Dantes, “o livro tem a potencialidade de atravessar o tempo, assim como a natureza”.

(JPG)
Imensos painéis numa potente encenação do livro e da natureza
Foto: divulgação

Alda Romaguera também apresentou sua pesquisa de doutorado, em andamento na FE Unicamp, que explora as obras do artista Eduardo Kac, na última parte do Seminário MULTIPLICimagens. Com os quadros-vivos de Kac - os biótopos da obra "Espécime de segredo sobre descobertas maravilhosas" - a pesquisadora conversou com o público sobre a criação, vida e tecnociência na contemporaneidade.

(JPG)
Público assiste à apresentação
Foto: Susana Dias

As diferentes experiências apresentadas visavam criar uma brecha para se pensar o que acontece com a natureza quando ela se torna objeto de exposição e proporcionar possibilidades de criação de uma nova exposição dentro do colégio supletivo, com a participação de mais professores e alunos, inclusive.

(JPG)

Realização: Projeto de Pesquisa “Educação, ciências e culturas: territórios em fronteiras no programa Biota-Fapesp” (Proc. FAPESP 2006/ 00752-9) e o grupo de estudos Humor Aquoso. Coordenação geral: Antonio Carlos Rodrigues de Amorim

Responder a esta matéria