Sachs contra velhos paradigmas e falsos dilemas

segunda-feira 3 de novembro de 2008.
 
Na Conferência Internacional sobre Biocombustíveis, organizada pelo Ministério das Relações Exteriores, a ser realizada em São Paulo entre 17 e 21 de novembro, o economista e sociólogo Ignacy Sachs espera ver superado um falso dilema. Entre a produção de biocombustíveis e a produção de alimentos, ele fica com os dois. Sachs adiantou alguns pontos dessa sua próxima conferência no último dia 22 de outubro, quando esteve na Unicamp, para o evento “A grande transição: rumo às biocivilizações do futuro”.
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Ignacy Sachs Fonte: Wikipedia

Na Conferência Internacional sobre Biocombustíveis, organizada pelo Ministério das Relações Exteriores, a ser realizada em São Paulo entre 17 e 21 de novembro, o economista e sociólogo Ignacy Sachs espera ver superado um falso dilema. Entre a produção de biocombustíveis e a produção de alimentos, ele fica com os dois. Sachs adiantou alguns pontos dessa sua próxima conferência no último dia 22 de outubro, quando esteve na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), no evento “A grande transição: rumo às biocivilizações do futuro”, que ocorreu no auditório do Núcleo de Estudos e Pesquisas Ambientais (Nepam). Segundo ele, não é possível acreditar em previsões catastrofistas quanto ao clima do planeta, mas existe a necessidade de aumentar a eficiência no uso de recursos na transição de uma economia dependente de combustíveis fósseis para as “biocivilizações”.

Essas civilizações do futuro serão baseadas na energia solar, nos biocombustíveis e no uso mais efetivo da biomassa proporcionado pelo conhecimento acumulado e pelas novas tecnologias. Sachs conclamou os ouvintes presentes a inventar novos paradigmas, ponderando que de nada valerá a eficiência energética sem a redução das desigualdades sociais e sem democracia. “Estamos no limiar da Revolução Azul - disse ele. Ainda estamos na caça ao peixe, e pouco na piscicultura.”

Para Sachs, que é vinculado ao Centro de pesquisa sobre o Brasil contemporâneo, junto a famosa Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais, o país tem condições de assumir uma posição de liderança na “grande transição rumo às biocivilizações do futuro”. “O Brasil não pode se omitir, tem de ser pro ativo na construção de alternativas”, disse. Afinal, tem biodiversidade, água abundante, sol e cinco “pês” - praia, piscicultura, pesca, portos e, por enquanto, petróleo - que lhe conferem “vantagens”. Mas essas vantagens naturais precisam ser potencializadas pela pesquisa e integradas em sistemas sociais que visem à mitigação das mudanças climáticas e à superação do fosso de desigualdade. Para ele, as escolas de ensino superior, por exemplo, poderiam ser mais bem aproveitadas no sentido de perseguir e incorporar novos modelos.

O sociólogo ainda argumentou a necessidade de refazer os cálculos do artigo publicado na revista BioScience por Peter Vitousek, Paul Erlich, Anne Ehrlich e Pamela Matson, em 1986, sobre a apropriação humana da produção primária líquida, estimada na época em 30%. A produção primária líquida é a quantidade de energia que algas e plantas fixam biologicamente, descontada a energia que gastam na própria respiração. Para Sachs, apesar da publicidade que essa estimativa teve, ainda falta compreender, de fato, “quanto consumimos, quanto desperdiçamos, quanto destruímos involuntariamente” para determinar até onde podemos ir sem perigo.

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