Nanotecnologia inspira imagens e recursos de divulgação científica

segunda-feira 20 de outubro de 2008.
 
Pensando na curiosidade do público sobre o que é produzido dentro de um laboratório que lida com estruturas nanométricas e na difusão do conhecimento como instrumento de despertar futuros cientistas o Centro Multidisciplinar de Desenvolvimento de Materiais Cerâmicos, da USP São Carlos, desenvolveu projeto com imagens inspiradas no cotidiano, mas que vêm da ciência e da tecnologia.

Enxergar o mundo microscópico que nos cerca é um trabalho cercado de mistérios para a maioria do público. Observar as pequenas estruturas que compõem uma placa de silício ou as formações de uma estrutura cerâmica em escala nanométrica é algo para especialistas com acesso a maquinários complexos e caros. Pensando na curiosidade do público sobre o que é produzido dentro de um laboratório e de olho na difusão do conhecimento como instrumento de despertar futuros pesquisadores entre os jovens e adolescentes o Centro Multidisciplinar de Desenvolvimento de Materiais Cerâmicos (CMDMC) da Universidade de São Paulo, campus São Carlos, desenvolveu o projeto “Nanoarte: uma viagem pelo mundo da tecnologia”. As imagens captadas pelos pesquisadores ligados ao Centro foram expostas pela primeira vez ao público no início deste ano. O retorno foi tão positivo que o projeto ganhou corpo: uma agenda itinerante pelo Brasil e um DVD intitulado “Nanoarte: da colméia às flores”, distribuído para escolas.

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Imagem revelada pelo microscópio eletrônico do CMDMC

Elson Longo da Silva, professor emérito da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e atualmente ligado ao Laboratório Interdisciplinar de Eletroquímica e Cerâmica (Liec) da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Araraquara foi um dos responsáveis pelo projeto e diz que ficou surpreso com o retorno da primeira exposição “As imagens geradas tentavam, antes de mais nada, fazer uma livre associação com o imaginário do cotidiano das pessoas deixando o público à vontade com as imagens da ciência reproduzidas ali”, afirma. Optou-se por imagens que remetessem a flores, colméias, mapas ou mesmo objetos banais para criar uma empatia inicial, para, apenas posteriormente, se descobrir que a imagem retratava uma placa de silício ou uma estrutura cerâmica complexa. Para Elson Longo, que também é diretor do CMDMC, iniciativas como essa aproximam a sociedade da ciência sem cobrar um grande comprometimento inicial.

O olhar fotográfico e a lente do microscópio Apesar de não concordar em chamar de fotografia (que, literalmente, significa “escrever com luz”) as imagens geradas pelo grupo de Longo, a pesquisadora Daniela Lemos de Moraes, integrante do grupo de pesquisa Experimental da Imagem Digital (GPEX-id) do Instituto de Artes da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), diz que o recorte ou a intencionalidade do olhar é que compõe o pensamento fotográfico. “Essa é a diferença da cópia para o olhar humano: a intenção em se deixar algo dentro de um enquadramento enquanto se exclui todo o restante de uma cena”. A pesquisadora lembra os experimentos de Eadweard Muybridge (1830-1904) com as seqüências de câmeras fotográficas para captar os pequenos movimentos que compunham ações banais (como o trote de um cavalo) em contraposição às fotos de Henri Cartier-Bresson (1908-1974). “Naquela época, o público em geral também não tinha consciência da totalidade dos movimentos [referindo-se aos experimentos de Muybridge da década de 1870]. O artifício da câmera fotográfica possibilitou o recorte do momento e isso era um fenômeno por si só. Fotógrafos como Cartier-Bresson, ao contrário, já trabalham com significados mais profundos”, completa.

Já Cristina Bruzzo, professora da Faculdade de Educação (FE) da Unicamp, enxerga as experiências com nanotecnologia como novos tipos de imagens (um dos exemplos são as geradas por microscópios eletrônicos) uma forma de ampliar um imaginário científico cada vez mais presente no cotidiano contemporâneo. “Basta ver as simulações das viagens espaciais ou ainda as imagens que as sondas mandam de volta para a Terra”, afirma, “as pessoas estão se naturalizando com as imagens científicas, algo que era uma experiência sensível, distante das pessoas”.

Disciplinas como a biologia, a geografia ou outras, diz Bruzzo, que precisam lidar com o micro e com o macro, dependem profundamente das imagens para produzir conhecimento e esse imaginário construído pode auxiliar no futuro dessas disciplinas. “Porém, ainda não se tensiona os significados dessas imagens, ainda há uma aproximação pelo lúdico e pelo espetáculo, o que é bom por um lado, mas falta ‘rechear’ de informação o que compõe essas imagens”. A professora cita as cores associadas a algumas imagens geradas por microscópios ou telescópios que muitas vezes não são cores reais. “Falta explicar ao público o porquê da escolha daquelas cores: é uma notação científica, por exemplo, ou somente estética? Seria interessante para o público saber, dar um passo adiante no entendimento desse novo imaginário”.

A experiência do CMDMC com métodos de divulgação da ciência produzida dentro dos laboratórios não é nova. Além da experiência com as imagens nanoscópicas o Centro também desenvolveu outras aproximações lúdicas com o público, como um quebra-cabeça das imagens do projeto Nanoarte e o Chemical Sudoku, inspirado no jogo de raciocínio lógico e que pode ser jogado online, que ganhou no ano passado direito a premiações. Além disso, uma parceira com a área de óptica do Instituto de Física da USP São Carlos, representada por Vanderlei Salvador Bagnato, o Centro desenvolve o programa “Da cerâmica clássica à nanotecnologia”, que vai ao ar pelo Canal Universitário de São Carlos.

Revista Science premia as melhores imagens da ciência em 2008

Novas maneiras de articular as informações científicas são essenciais para aumentar o entendimento do público sobre a ciência e a engenharia e também melhorar a comunicação para além das disciplinas científicas. Essas são palavras do editorial que apresenta o prêmio Visualisation Challenge 2008, escrito por Jeff Nesbitt, diretor da Fundação Nacional da Ciência (NSF, na sigla em inglês) dos EUA e da editora executiva da revista Science, Monica Bradford.

O prêmio, que está na sua 6ª edicão, recebeu este ano mais de 180 inscrições do mundo todo e contemplou trabalhos nas áreas de fotografia, ilustracão, infografia, mídias interativa (CDRom e sites em flash) e não-interativas (vídeos e animacões), julgadas por pesquisadores ligados a NSF, revista Science e um painel de profissionais de artes visuais especializados em ciência.

“Quando fui convidada para compor a banca esperava pessoas com o mesmo background científico ou especialistas em microscopia eletrônica, mas foi surpreendente ver que um dos jurados era, por exemplo, um profissional do canal de TV National Geographic, outro ligado ao [jornal] Washington Post, outro era um pesquisador de um grupo que produz ilustrações médicas na Escola de Medicina de Baltimore e assim por diante, ou seja, profissionais com formações variadas”, conta Alisa Machalek, que participou como jurada no prêmio deste ano.

O destaque desta edição foi capa da Science de setembro é a versão ilustrada da cena do Chapeleiro Maluco (http://upload.pbase.com/image/103650215/original.jpg) , encotrada na história de “Alice no país das maravilhas”, feita com diversas texturas vindas de imagens de microscopia eletrônica. “Foi impressionante ver aquelas texturas tiradas do contexto original e transportadas para um contexto lírico, de fantasia”, afirma Machalek.

No site da revista é possível ter acesso gratuito a um slide show produzido com os vencedores deste ano e as inscrições para o próximo prêmio já podem ser feitas na página da NSF.

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