Pesquisador que ajudou a definir mecanismos da analgesia recebe prêmio

segunda-feira 14 de abril de 2008.
 
Anunciado na última quarta-feira (9), o médico e farmacologista Sérgio Ferreira, da Universidade de São Paulo/Ribeirão Preto, é o ganhador do Prêmio Almirante Álvaro Alberto 2007, um dos mais importantes prêmios em ciência e tecnologia do Brasil.

Desvendar os mecanismos de ação da aspirina, dipirona e morfina, drogas largamente utilizadas para o controle da dor, foi uma das contribuições do pesquisador Sérgio Henrique Ferreira, ganhador do prêmio Almirante Álvaro Alberto 2007, divulgado no último dia 9. Considerado um dos mais importantes em ciência e tecnologia do Brasil, o prêmio é uma parceria entre o Ministério da Ciência e Tecnologia, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e a Fundação Conrado Wessel.

(JPG)
Sérgio Ferreira contribuiu para o
desenvolvimento de uma nova geração
de drogas anti-hipertensivas

Médico e farmacologista da Universidade de São Paulo (USP) de Ribeirão Preto, Ferreira conta que seu interesse atual em pesquisa deriva de um histórico de cerca de 30 anos, quando ele e colaboradores descobriram como era o mecanismo de analgesia (perda ou ausência de sensibilidade à dor) da aspirina.

Observaram que a aspirina bloqueava a síntese da prostaglandina, substância (mediador lipídico) liberada durante o processo de inflamação. Vale destacar que John R Vane, ganhador do Prêmio Nobel de Medicina em 1982, com quem Ferreira trabalhou, cita diversas vezes o pesquisador brasileiro no seu discurso de recebimento do prêmio.

Por muito tempo, Ferreira e colaboradores se debruçaram sobre o estudo dos mecanismos de liberação da prostaglandina, mas em seguida passaram a estudar mais a fundo a interação dessa substância com os neurônios. Constataram que a prostaglandina era capaz de sensibilizar os neurônios da dor, fazendo com que estes passassem a responder a um estímulo que antes não respondiam, induzindo a hiperalgesia (exacerbação da sensibilidade à dor). “O foco foi entender molecularmente como é que as coisas ocorrem dentro do neurônio, qual é o mecanismo molecular dessa sensibilização”, destaca Ferreira.

O pesquisador explica que esse estudo molecular de sensibilização o levou a compreender o mecanismo de ação da novalgina (dipirona). Ao contrário da aspirina, que previne a sensibilização, a dipirona bloqueia diretamente a hiperalgesia estabelecida, o que explica sua maior eficácia no controle de determinados tipos de dor. Por conta desse achado, “passamos a compreender que há drogas que têm dois tipos de analgesia: uma que previne e outra que bloqueia diretamente”, resume Ferreira. Outras drogas disponíveis no mercado, assim como algumas plantas utilizadas popularmente, apresentam também o mesmo mecanismo da dipirona. "Abrimos um leque de compreensão para conseguir imaginar como atuar agora nesse mecanismo molecular para desenvolver um conjunto de drogas que passem a ser um conjunto novo que atue na analgesia periférica”, completa Ferreira. Fernando Cunha, também da USP/Ribeirão Preto, resume: “Sérgio Ferreira é uma das pessoas que têm a maior experiência sobre os mecanismos de ação de analgésicos”.

Captopril

Mas a bagagem científica de Ferreira não se restringe aos analgésicos. Em 1965, ele publicou um artigo no periódico científico British Journal of Pharmacology, onde anunciava: “Os resultados descritos no presente artigo indicam que o veneno da [cobra] Bothrops jararaca contém um fator que potencializa in vivo e in vitro algumas das ações farmacológicas da bradicinina [molécula de função vasodilatadora]”. Possivelmente, ele não imaginava na época o impacto dos seus achados.

A molécula isolada pelo pesquisador brasileiro, conhecida como fator potencializador da bradicinina (BPF), foi o ponto de partida para o desenvolvimento de uma nova geração de drogas anti-hipertensivas (que diminuem a pressão arterial), entre elas o captopril, largamente utilizado para o tratamento de hipertensão, insuficiência cardíaca, infarto do miocárdio, entre outros.

Ferreira recebeu inúmeros prêmios e condecorações ao longo de sua carreira e publicou aproximadamente 280 artigos em periódicos científicos. Em 1990, a Sociedade Norueguesa de Hipertensão instituiu o Prêmio “Ferreira Award”, concedido aos pesquisadores cujas pesquisas se sobressaíssem na área de hipertensão. Ele é também editor-chefe do DOL (Dor On-Line), que publica boletins mensais com tópicos de interesse para clínicos, especialistas e pesquisadores interessados em dor. Há também uma área voltada para os pacientes.

Sobre o prêmio

Instituído em 1981, o prêmio Almirante Álvaro Alberto contempla, em sistema de rodízio, uma grande área do conhecimento por ano: ciências da vida; ciências exatas e da Terra; e ciências humanas e sociais. Por indicação do ministro da Ciência e Tecnologia, uma comissão de especialistas constituída por nove pesquisadores é formada para indicar quatro a seis candidatos ao prêmio.

O prêmio será entregue a Sérgio Ferreira no dia 6 de maio durante solenidade da Academia Brasileira de Ciências, no Rio de Janeiro. Ele receberá um diploma, medalha e R$ 150 mil, quantia concedida pela Fundação Conrado Wessel.

Responder a esta matéria