Ciência política

"Muro psicológico" ganha espaço nas discussões sobre resultado da eleição alemã

sexta-feira 7 de outubro de 2005.
 
Quinze anos depois da reunificação alemã, a 16ª eleição no país, este ano, não deu nem à CDU (União Democrata Cristã), nem ao SPD (Partido Social-Democrata) votos suficientes para formarem um governo independente. As eleições mostraram que as populações da região ocidental e oriental, mesmo após tanto tempo da queda do Muro de Berlim, ainda têm percepções diferentes sobre a realidade do país. “O muro de concreto caiu, mas ainda há um muro psicológico”, afirma o cientista político e secretário-adjunto de relações internacionais da cidade de São Paulo, Christian Lohbauer.

Quinze anos depois da reunificação alemã, a 16ª eleição no país, este ano, não deu nem à CDU (União Democrata Cristã), nem ao SPD (Partido Social-Democrata) votos suficientes para formarem um governo independente. As eleições mostraram que as populações da região ocidental e oriental, mesmo após tanto tempo da queda do Muro de Berlim, ainda têm percepções diferentes sobre a realidade do país. “O muro de concreto caiu, mas ainda há um muro psicológico”, afirma o cientista político e secretário-adjunto de relações internacionais da cidade de São Paulo, Christian Lohbauer.

Um dos indícios que apontam essa diferenciação é o resultado favorável do partido de esquerda que, depois de 15 anos de resultados negativos, obteve quase 10% dos votos nas eleições nacionais para o parlamento, concentrados, principalmente, entre a população oriental. Esse resultado evidencia, segundo Lohbauer, um fenômeno novo. “A população oriental analisa sua falta de perspectiva como resultado da tradição ocidental”, explica. Mesmo com um investimento de um trilhão de dólares em impostos transferidos da Alemanha Ocidental para a Oriental, as oportunidades profissionais e a qualidade de vida ainda não são as mesmas nas duas regiões do país.

Embora a população oriental seja quatro vezes menor que a ocidental, ainda há o dobro de desempregados na antiga Alemanha socialista. No lado oriental, o nível de qualificação da população é mais baixo e também é menor a arrecadação de impostos e a taxa de natalidade. Dessa forma, mais pessoas continuam a deixar a região oriental em direção ao ocidente. Desde a reunificação, a Alemanha Oriental perdeu cerca de um milhão de habitantes, principalmente jovens em busca de oportunidades de trabalho. Por outro lado, as transformações no lado oriental são visíveis. A infraestrutura foi renovada, as cidades saneadas. As pessoas têm acesso a bens eletrônicos, carros, geladeiras, celulares e TV tanto quanto no ocidente. E a ajuda financeira deve continuar, pelo menos, até 2020.

De acordo com Lohbauer, a população do lado oriental tem certa nostalgia em relação ao comunismo, porque nem todos se adaptaram ao capitalismo. “A população mais jovem se identifica com um movimento de esquerda que nem conheceu, porque vê o passado como um período melhor, já que no momento atual não há emprego, perspectiva”, avalia. Dessa forma, muitos dos votos alcançados pelo partido de esquerda migraram do SPD, partido do atual chanceler Gerhard Schöder. O pesquisador aponta uma divisão da população alemã sobre o que fazer frente à paralisação econômica. “Metade dos alemães concorda que se deve reformar o sistema, a outra metade é contra”, exemplifica. As reformas incluiriam redução dos benefícios sociais, como o seguro desemprego, que hoje é garantido aos alemães por um ano e meio, mas poderá ter o período reduzido.

Lohbauer considera as reformas necessárias porque, segundo ele, a Alemanha deu um passo político maior do que sua capacidade econômica. “A reunificação do país foi um movimento espetacular do ponto de vista político, só que a economia, o estado social alemão, que sustentava o ocidente, não foi capaz de transferir aqueles benefícios para os orientais e manter a estrutura econômica saudável para o país todo”, explica.

Perspectivas
-  Segundo Lohbauer a reunificação alemã é um dos fenômenos políticos mais bem sucedidos da história do século XX. “A grande conquista foi a união política negociada, sem conflito armado”, aponta. Entretanto, o pesquisador diz que a ideologia que moveu os dois povos a voltarem a ser um povo só ainda tem uma adaptação longa a ser conquistada. “A euforia fez com que muitos acreditassem que em cinco anos a estrutura do país estaria de forma igualitária, e a concepção dos alemães seria uma só, mas não é”, acrescenta. O pesquisador diz que em 25 anos, talvez, esse venha a ser um país unificado. “Desde que não haja mais nenhuma aresta, nem diferença de percepção política entre as populações, nem paralisação produtiva do lado oriental”, explica.

Campanha
-  Na tentativa de se promover uma maior identificação entre os alemães, e principalmente de se aumentar a confiança individual e a motivação, o governo alemão lançou no dia 26 de setembro a maior campanha de marketing social da história da mídia alemã. Com o mote “Você é a Alemanha”, a campanha conta com o apoio de 25 veículos de comunicação entre rádio, jornal e televisão e não tem orientação política. Como a campanha brasileira “Sou brasileiro e não desisto nunca”, a campanha alemã contou com depoimentos de famosos e desconhecidos, contando suas experiências em inovação e superação de dificuldades. O custo da campanha chega a 30 milhões de euros, mas, ao contrário da campanha brasileira, os custos foram pagos através de apoio corporativo e de personalidades, sem uso de dinheiro público.

Responder a esta matéria